Seis meses se passaram desde o lançamento de "Difícil É Dormir", coletânea que fez o alagoano (radicado primeiramente em Olinda e, depois, no Rio) Adauri Bastos, o Dau, mergulhar no leito do conto e aplicar seus (colossais) conhecimentos da literatura em prol da narrativa curta. As águas (de extensão alcançável com a vista) das historietas instigaram o professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) a dar um curso livre dedicado a essa modalidade da escrita. Autor de livros-delícia como "Snif" (1987) e "Das Trips, Coração" (1984), Dau mobilizará a Estação das Letras de 14 de janeiro a 11 de fevereiro, sempre às quartas. Nesse período de 2026, ele ministra um curso sobre como escrever histórias que nos nocauteiem em poucas páginas.
Nesta conversa com o Correio da Manhã, Dau evocou amigos imaginários (o Bruxo do Cosme Velho e um certo mineiro das veredas de Cordisburgo), pediu a bênção de Clarice Lispector e fez uma reflexão sobre o que se aprende nos colégios sobre formas de prosar. Em suas aulas no Fundão, é comum ele citar um bamba da Estética da Recepção, o alemão Wolfgang Iser, e dissertar sobre a obra do crítico Luiz Costa Lima (de quem é fã). Vez ou outra revela os próprios procedimentos literários, destacando aqueles que usou para se firmar como ficcionista, em sucessos de venda como "Clandestinos na América" (2005).
Em que pé está a literatura hoje? O que o conto tem de mais precioso - e de mais singular, na comparação com outras modalidades literárias - que faz a roda da prosa girar?
Dau Bastos - A ficção curta tira partido da aparência de flash estetizado da existência. Explora desde a diluição de sentido até a polissemia, passando pela ambiguidade, mas desliza sobre um enredo, simulando um norte. Assim, toca, com liberdade e sem pretensão pedagógica, o pulso da vida, à qual finge dar prumo. Por ser nesga, convida o leitor a ir além do escrito, para imaginar acontecimentos a cercar o entrecho, assim como emoções e pensamentos a povoar os personagens. Graças à pouca extensão, cabe na internet, onde, juntamente com a crônica e o poema, amplia o alcance da literatura como um todo.
Que contos mais e melhor marcaram o teu imaginário?
Eu começaria por "Conto de escola" (1884), em que Machado de Assis inventa as peripécias de um garoto gazeteiro, apostando na ironia e na desidealização como condições de aproveitamento do potencial literário. O segundo seria "A hora e vez de Augusto Matraga" (1946), no qual Guimarães Rosa se mostra pronto para levar ao máximo as propostas vanguardistas. Em 1960, "Feliz Aniversário" radicaliza o desmonte, empreendido por Clarice Lispector em sua obra, da pretensa positividade das relações humanas. Finalmente, em "O cobrador" (1979), Rubem Fonseca comprova que os sensos artístico e crítico podem andar juntos contanto que a ficção se limite a perspectivar.
Como é lecionar criação literária e fazer de uma narrativa por nocaute seu veio de ação?
A teoria da literatura vive propagando descobertas libertadoras, entre as quais a de que o ser humano é ficcionista pela própria natureza. De fato, acionamos a imaginação para realizar as atividades cotidianas, produzir ciência, contar algo testemunhado e assim por diante. Por isso, sugiro a cada participante de minhas oficinas que desenvolva uma história original. Agora, para crescer em legibilidade e qualidade, o texto é reescrito à exaustão. Daí a importância estratégica do conto, que, como se faz de poucas páginas, pode ser lapidado até merecer publicação - o que proporciona uma experiência autoral completa.
Como você, que é professor universitário também de graduação, encara a formação de estudantes que chegam do ensino médio com um repertório de leitura que atenda ao Enem e cumpra com normas de ensino?
Como sabemos, o professor de ensino médio pode enfatizar as nuances da poesia e da prosa de ficção, mas é obrigado a preparar os alunos para responder questões nem sempre respeitosas das especificidades da literatura. Tenho orientandos que lecionam em cursos pré-vestibulares e vejo a dificuldade de satisfazerem as duas demandas. Na graduação em Letras, conseguimos desmontar boa parte dos clichês que garantem nota alta nas provas de acesso à universidade. Mas é triste reconhecer que, por ser híbrida e multifacetada, a literatura será sempre assimilada de maneira limitada por boa parte da humanidade.
Qual é a melhor estratégia para um aspirante a escritor levantar uma narrativa?
Para garantir facilidade de publicação e sucesso de vendas, o principiante tem apenas que repetir as velhas fórmulas do folhetim, do suspense e assemelhados. A rigor, não precisa nem mesmo ler contos e romances, bastando copiar as mil mirabolâncias de qualquer telenovela. Agora, se quer produzir textos pelos quais sinta um mínimo de orgulho, convém fazer o esforço titânico de banir do cérebro os modelos narrativos plantados pelas fontes de ficção mais poderosas da atualidade. No mais, é confiar na própria intuição, desenvolver a fundo as ideias que lhe ocorrem e fazer de cada escrita um experimento.
Quantos livros você lançou (de quando a quando) e o que prepara para 2026? Que aulas vai lecionar na Faculdade de Letras, da UFRJ, no Fundão?
Estreei em livro no ano de 1984 e, até agora, publiquei treze títulos, sendo sete romances, uma tese, uma biografia literária, três novelas infantojuvenis e um volume de contos. Em março, lançarei uma segunda coletânea, "Manobras de Retorno", composta de narrativas distribuídas pelos últimos cinquenta anos e protagonizadas por estudantes, professores, escritores e até militares. Paralelamente, continuarei meu trabalho docente, dedicado a cursos sobre ficção brasileira e à oficina Contos do Fundão.
Como se deu o seu percurso até a docência?
Nasci em Maceió e, aos cinco anos, fui morar numa fazenda, em seguida numa cidadezinha chamada Boca da Mata. Concluí o ensino médio em Olinda, onde passei mais alguns anos. Em 1979, desembarquei no Rio de Janeiro e dei continuidade a uma graduação em Psicologia. Paralelamente, trabalhei numa revista da imprensa alternativa e percebi que só seria feliz se pudesse escrever com regularidade. Depois de muito tempo no mercado editorial, fiz mestrado e doutorado em Literatura Comparada na UERJ. Assim, virei professor de Literatura Brasileira na UFRJ, onde me encontro há 25 anos.
Consulta ao professor: o que acha da prosa nacional do presente?
Quatro décadas atrás, um ficcionista brasileiro publicou que, em andanças pelo país, havia encontrado cinco escritores preparando livro novo. Nossa população já beirava os 135 milhões, mas frases desse tipo não escandalizavam, pois se contavam nos dedos os autores em atividade. Hoje, fatores como a difusão das técnicas narrativas e a facilidade de publicar em pequenas tiragens estimulam a produção a ponto de ocorrer continuamente uma verdadeira avalanche de novos títulos. Precioso por si só, esse fenômeno é dignificado pelo valor de muitos textos recém-lançados - o que me enche de otimismo.