A última vez que vi Freyre foi na publicação de "Casa Grande e Senzala", em 1933. Voltei a encontrá-lo na Bahia, praia do Flamengo, na rua com seu nome. Simpático e alegre, conversamos em sua sala sobre a colonização do Brasil. Entre sucos de limão com coco e acarajés, o tempo, assim como as nuvens, passou rápido por causa do silêncio reflexivo que reina em suas palavras leves e profundas. Com idade já avançada, Freyre não deixa de ser atual.
Casa grande e muito bonita, a sua.
Ela é muito bonita por não haver senzala nela.
Por falar nisso, Casa grande e senzala são separadas ou se misturam?
Meu livro expõe o que é a colonização brasileira, ou seja, ela é mistura, e "Casa Grande e Senzala" é uma extensão dessa mistura, não havendo, pois, separação entre branco e preto.
Não há separação?
Não.
Por quê?
Porque o colonizador português tinha uma predisposição híbrida de colonização, quero dizer com isso que a cultura portuguesa é indefinida por estar entre a Europa e a Ásia.
Ou seja, o senhor fala em seu livro sobre o que pesquiso, o "entre".
Pode me chamar de você e, quanto à sua pesquisa, eu tenho lido suas publicações na revista Ensaio Filosóficos, da UERJ, e no Ateliê de Humanidades. O que posso lhe dizer é que nossos estudos se complementam.
É uma honra ser lido pelo senhor, digo, por você, mas voltemos à colonização híbrida.
Como você sabe, híbrido significa "ser formado por um cruzamento", e todo cruzamento implica o entre signos diferentes, no caso´português, Europa e Ásia. É como escrevo na página 6, "o Conde Herman de Keyserling observou que da união profunda a raça não tem aqui papel decisivo".
O que tem papel decisivo?
Como você diria, o "entre", sabendo que dele emerge o terceiro elemento, qual seja, a miscigenação ou a miscibilidade. A raiz latina "misc" significa "mistura".
O que é mistura?
Em termo de conceito, sugiro Platão; mas, em Casa grande, pode ser lido na página 201, onde no Brasil, como em Portugal, há uma grande variedade de antagonismos, uns em equilíbrio, outros em conflito, mas a parte maior se mostra harmoniosa nos seus contrastes, formando um todo social plástico.
Parte maior?
Isso mesmo. Em "Casa Grande," o poder da colonização portuguesa estimulou a miscigenação para anular a oposição entre branco e preto não só na economia.
O colonizador é mistura?
Sim, no sentido de que, no caso português, não são puros, e os portugueses são exemplares nesse aspecto.
*Professor-mestre em Filosofia