Affonso Nunes
Écomum se dizer que vinhos melhoras com o passar do tempo. Mas o que dizer de um vinho de casta delicada envasdao há 127 anos? Abrir um Romanée-Conti safra 1899, como ocorreu recentemente em um jantar reservado na Borgonha, é o tipo de acontecimento que une o rigor da enologia ao encanto da história. Avaliado em mais de 100 mil euros (R$ 600 mil), o vinho repousou quase 13 décadas anos antes de finalmente reencontrar a luz — e o ar. A comprovação da data se deu pela marca intacta "1899" na rolha original, ainda visível através do vidro.
Esta trajetória, silenciosa e improvável, começou no final do século XIX, passou pela filoxera que devastou vindedos da Europa, atravessou guerras, e crises até a garrafa ser descoberto quase por acaso em um leilão onde era apenas uma garrafa entre muitas. Mas garrafas não são iguais. Algumas carregam tempo, história e uma estranha resistência que desafia o óbvio.
A garrafa acabou adquirida pelo empresário e investidor de vinhos de Singapura Soo Hoo Khoon Peng, conhecido por negociar rótulos raros. Cerca de um ano depois da compra, ele decidiu organizar uma degustação privada para abrir a relíquia. Ao ser servido a um grupo de especialistas, o vinho ostentou uma cor entre âmbar e laranja queimado, tonalidade comum em tintos centenários que evoluíram lentamente.
A evolução de um vinho tão antigo é um processo delicado: ao longo das décadas, os pigmentos se desfazem, os taninos se dissolvem, os aromas primários — frutas frescas e flores — cedem espaço aos chamados aromas terciários, construídos por anos de oxigenação minúscula através da rolha. É nesse momento que surgem notas de flores secas, chá preto, especiarias finas e madeiras antigas. Em geral, um vinho com mais de um século está morto ao ser aberto. Este, porém, mostrou vitalidade suficiente para surpreender especialistas experientes, revelando acidez viva, textura suave e um final que persistia como lembrança teimosa.
O feito impressiona ainda mais quando comparado a outros vinhos históricos. Há registros de degustações emocionantes de Madeira do século XVIII, que resistem graças ao estilo naturalmente oxidativo, e do lendário Château d'Yquem 1811, cuja doçura e acidez formam um cinturão de proteção quase eterno. Vinhos do Porto de safras antigas também ocasionalmente cruzam o tempo com mérito. Mas todos esses exemplos pertencem a categorias naturalmente longevas — fortificados e doces têm mecanismos de defesa intrínsecos contra o tempo. Já o Romanée-Conti de 1899 é um Pinot Noir, uma casta delicadíssima, conhecida por sua transparência aromática e fragilidade. Isso torna sua sobrevivência um fato extraordinário.
Parte da explicação reside no produtor. O Domaine de la Romanée-Conti, ou simplesmente DRC, é a joia mais cobiçada da Borgonha e, para muitos críticos, o ápice da Pinot Noir no planeta. Em um vinhedo de pouco menos de dois hectares — tamanho de um pequeno parque de bairro — nascem algumas das garrafas mais reverenciadas do mundo. A Borgonha, com seus solos calcários, clima temperado e obsessão pelo terroir, não produz vinhos para impressionar pelo excesso, mas sim para acompanhar, com nuance e precisão, a identidade da terra. Romanée-Conti é a expressão máxima dessa filosofia. Não é um vinho feito para estardalhaço; é feito para durar — e, às vezes, para sobreviver ao impensável. Talvez por isso um dos privilegiados presentes à degustação tenha descrito o momento como "um milagre."
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