A opressão laboral do mundo contemporâneo é peitada em coreografia inspirada na filosofia de Byung-Chul Han no espetáculo 'Sociedade do Cansaço'
No tempo em que o mundo acadêmico dividia suas reflexões sobre tecnologia entre Integrados e Apocalípticos - com Pierre Levy de um lado; Jean Baudrillard, do outro; e Donna J. Haraway no caminho do meio -, falava-se sobre dominação pelas máquinas, sobre simulacros de vida e sobre simulações de futuro, mas ninguém somatizava essa bio (talvez necro) política, da forma como o filósofo Byung-Chul Han: "Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização". Essa é essência dos conceitos filosóficos defendidos por esse ensaísta sul-coreano em aulas na Universidade de Artes de Berlim e em livros como "A Crise da Narração" e "Favor Fechar Os Olhos".
Segundo ele, "sem a presença do outro, a comunicação degenera, num intercâmbio de informação: as relações são substituídas pelas conexões, e assim só se conecta com o igual, pois o igual não dói!". Transformar tais reflexões em expressão artística impõe uma esgrima com a palavra. Essa esgrima fica ainda mais pontiaguda (e cortante) quando o veio das artes escolhido para uma transposição é uma cruza de dança com o teatro.
Dançar Byung-Chul Han e encenar sua obra n° 1, "Sociedade do Cansaço", como expressão dramatúrgica e coreográfica, torna o novo experimento da Cia da Ideia um acontecimento (e dos mais obrigatórios) do ambiente cênico da cultura no país, em 2026. Sua arena será o Teatro Angel Vianna, no Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro, na Tijuca. O pano abre nesta sexta, às 19h, e só fecha no próximo dia 29, com sessões às sextas e sábados sempre às sete. Nos domingos, a sessão rola às 18h.
"Uma das abordagens que mais nos interessavam ao enfrentar o texto de Byung-Chul Han era a chance de abrir espaço na cena para o contraponto ao excesso, à cultura do desempenho, à hiperconectividade que já seriam temas evidentes do trabalho", explica o ator, encenador e professor Daniel Chagas, idealizador da montagem e coautor da dramaturgia com Sueli Guerra e Alessandro Brandão, que assinam a direção e a coreografia da montagem.
"Nos ensaios, Sueli e Alessandro nos pediram: 'dancem os seus ócios'. A despeito do que significaria isso, nossos corpos simplesmente desenharam o espaço em busca de não estar no fluxo cotidiano que vivemos. No processo de estudo, em meio a leituras paralelas e horas de conversa, muitas imagens também nos vieram para acessar o silêncio e a quietude; uma delas, por exemplo, era a memória que tenho da minha mãe descrevendo como sua avó começava, pela manhã, a preparar a massa de macarrão fresco que a família almoçaria. Daí um primeiro caminho textual me surgiu: a imagem da espera, o tempo de sovar a massa, corta-la e pendura-la no varal ao lado das roupas e lençóis. Escrevi a proposta e ela foi acolhida. Em seguida o corpo ganhou espaço junto com a palavra e o caminho se fez".
Ansiedade, fragmentação e estados depressivos são substantivos que ganharam concretude nas demandas do trabalho de um mundo uberizado, de CLTs em extinção. O cerne da recriação teatral de "Sociedade do Cansaço" é resgatar conceitos e ritmos que se oponham ao modelo hegemônico vigente de vida. Por meio dessa contraposição, o elenco - que une Ana Paula Cruz, Andreia Pimentel e Joca Gonzaga à já citada esquadra de criação formada por Sueli Guerra, Alessandro Brandão e Daniel Chagas - abre caminhos para uma reação sensorial e afetiva.
"Pode parecer que o espetáculo nasce da palavra, já que a gênese está em 'A Sociedade do Cansaço', do Byung-Chul Han, mas, para nós, a palavra dele já nasceu do corpo", poetizam Sueli e Alessandro numa resposta em conjunto ao Correio. "Ele escreve sobre desempenho, exaustão, produtividade, burnout — tudo isso é carne antes de virar conceito. Transformar palavra em movimento é quase fazer o caminho de volta. É devolver ao corpo aquilo que já era dele. É pegar uma ideia e perguntar: onde isso dói? Onde isso pulsa? Onde isso falta ar? Além disso, a palavra tem em si imagem, significado, portanto... tem forma, corpo e sensações. Nós entendemos que foi nessa transição que a cena-coreografia foi se dando, acontecendo e tomando corpo. Na Cia da Ideia, já havíamos trabalhado com outros textos poético literários, como 'Pequenas Peças', feito a partir de Clarice Lispector, e 'Jangada de Pedra', inspirado em José Saramago. Sendo assim, parece que encontramos um caminho onde essa mola propulsora da literatura se mantenha, seja estímulo e ponto de partida para a pesquisa. A centelha poética se preserva porque nós não traduzimos o livro, nós o escutamos com o corpo. O ensaio vira gesto, a tese vira respiração, o conceito vira queda, repetição, insistência. Existe uma beleza ali, mas não é uma beleza ornamental. É uma beleza crua, às vezes até cruel. A poesia permanece porque o corpo não explica — ele revela".
Com direção de produção de Cacau Gondomar, "Sociedade do Cansaço" conta com cenografia de Gisele Batalha e figurinos de Arlete Rua. A iluminação fica a cargo de Paulo Cesar Medeiros.
SERVIÇO
SOCIEDADE DO CANSAÇO
Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro (Rua José Higino, 115 - Tijuca)
De 7 a 29/3, sextas e sábados (19h), domingos (18h)
Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)