Grupo Tambor de Cumba estreia montagem que transforma o instrumento em ponte entre mundos espiritual e físico
O tambor pulsa no centro da cena como um coração ancestral. É dele que nasce "Ilu Axé: A Força do Tambor", espetáculo do Grupo Tambor de Cumba que estreia neste fim de semana no Centro Coreográfico do Rio de Janeiro, na Tijuca. Sob a direção de Aninha Catão, a montagem propõe uma experiência cênica que transcende a apresentação de dança convencional para se configurar como uma jornada simbólica pelas raízes da cultura afro-brasileira, onde o instrumento de percussão assume protagonismo não apenas sonoro, mas narrativo e espiritual.
A dramaturgia coreográfica parte de uma cosmologia específica: o tambor como elo entre Orun e Ayê, os planos espiritual e material da tradição iorubá. Essa conexão se materializa em cena através de uma narrativa que acompanha a trajetória do Orixá Ikú, divindade da morte, guiado pelos Orixás Ibejis, entidades gêmeas que representam a dualidade e a renovação. O percurso cênico se inicia na cabaça da existência, símbolo do útero feminino e da origem da vida, e se desdobra em diferentes manifestações culturais afro-brasileiras, todas atravessadas pelo pulso do tambor sagrado.
O que poderia ser uma abordagem solene da morte ganha na montagem um tratamento que dialoga com a perspectiva afro-brasileira sobre o fim da existência. Ao descobrir os ritmos brasileiros por meio de seu tambor, Ikú ressignifica a própria natureza de sua função divina, transformando a ideia de término em passagem, continuidade e celebração. Essa inversão conceitual está no coração da proposta de Aninha Catão, que enxerga o tambor não como objeto inanimado, mas como entidade viva, capaz de atravessar temporalidades, corporalidades e dimensões existenciais.
A diretora enfatiza que cada toque do instrumento carrega camadas de significado que vão além da musicalidade. Segundo ela, o tambor funciona como arquivo vivo da memória coletiva afro-brasileira, guardião de histórias de resistência e permanência cultural. Essa perspectiva se reflete na construção cênica, que busca fazer do corpo dos bailarinos extensões do próprio instrumento, como se a pele humana e a pele do tambor vibrassem na mesma frequência ancestral.
"Ilu Axé" atualiza referências afro-brasileiras sem descaracterizá-las, criando pontes entre a tradição dos terreiros e as experimentações da cena atual. O espetáculo dialoga assim com uma linhagem de trabalhos que compreendem a ancestralidade não como arquivo estático, mas como força viva que se transforma e se reinventa a cada geração.
A estrutura dramatúrgica que parte da mitologia dos Orixás oferece ao público não iniciado nas tradições afro-brasileiras uma porta de entrada para universos simbólicos complexos, ao mesmo tempo em que propõe aos conhecedores dessas referências uma releitura cênica que expande os significados tradicionais. A presença dos Ibejis como guias da jornada é particularmente significativa, já que essas divindades gêmeas representam justamente a capacidade de transitar entre mundos, característica que define a própria proposta do espetáculo.
SERVIÇO
Ilu Axé: A Força do Tambor
Centro Coreográfico do Rio de Janeiro (Rua José Higino, 115, Tijuca)
Dias 27 e 28/12, às 18h
Ingressos: grátis (27/12), R$ 30 e R$ 15 (meia)