Coroado mundialmente com 14 prêmios e uma menção honrosa, "Feito Pipa" abriu a semana vencendo a 55ª edição do Molodist Kyiv International Film Festival, na Ucrânia, no domingo, sob a justificativa de "destacar o difícil processo de crescimento, na relação entre pai e filho, com atuação extraordinária". A referência aí envolve o menino Yuri Gomes, a veterana Teca Pereira e o também diretor, escritor e ativista Lázaro Ramos.
A conquista ucraniana veio nas raias da láurea de júri popular na Mostra de São Paulo, conquistada há uma semana cravada, no mesmo dia em que sua (tocante) narrativa serviu de atração (re)inaugural das atividades do Odeon. A partir desta quinta, após uma semana de pré-estreias, o longa-metragem cearense, com raízes em Quixadá, configura-se oficialmente "em cartaz" no circuito popular, com a fama de ser o nosso representante no sonho do Oscar.
Com doçura de "Sessão da Tarde" e coragem de lidar com temas espinhosos de uma sociedade homofóbica, sexista e impaciente com suas populações idosas, essa produção foi escolhida em 16 de setembro para trilhar um caminho até Hollywood.
Allan Deberton, seu realizador, conhecido pelo multipremiado "Pacarrete" (2019), leva essa dramédia queer pelo mundo numa mobilização para tocar o coração da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, tendo como principal aríete sua consagração na Berlinale, de onde saiu com o Urso de Cristal. No mercado internacional, suas vendas tem sido conduzidas pela M-Appeal, com acordos de distribuição na Dinamarca, Bélgica, Indonésia, Holanda, Espanha, Argentina e Colômbia.
Coroada com o Kikito de Gramado por sua atuação nessa saga afetuosa de reencaixes, Teca Pereira, uma paulistana de 74 anos, essencial aos palcos da maior metrópole do país desde a década de 1970, encara o êxito mundial de um filme repleto de pessoas pretas como o marco de uma travessia decolonial. "É uma conquista. Todos temos coisas a resolver, num processo histórico que foi andando, melhorando com muita luta e muito empenho, por conta da boa vontade de nós, pretos, de resistirmos", disse a atriz ao Correio da Manhã na Serra Gaúcha, a minutos de ela ser ovacionada por seu desempenho como Dilma, a avó cheia de vida de Gugu, o papel de Yuri. "Foi muito delicado o trabalho com o Deberton, de uma precisão grande, pois
onde tinha muito, ele tirava; onde tinha pouco, ele colocava".
O ponto mais tenso dessa construção foi encontrar a gradação do estágio de demência que Dilma apresenta logo que "Feito Pipa" arranca. É ela quem cuida de Gugu, um craque de bola na casa dos 11 anos, bom à pampa no futebol, orgulhoso de sua destreza e em paz com a sua orientação LGBTQIAPN . Sua mãe morreu assassinada, em função de seu envolvimento na luta acerca de uma barragem. Essa morte é apenas um sussurro na trama, que investiga o tema habitualmente explorado pela obra de Deberton (a aceitação) na relação entre Gugu e seu pai intolerante, o caminhoneiro Batista (vivido por Lazinho), que já formou uma nova família, num segundo casamento.
Dilma ama Gugu seja lá sob que bandeira ele estiver. Mas ao dar sinais de que está se esquecendo de elementos cruciais do seu dia a dia, inclusive do menino, ela terá de buscar um novo caminho. O mesmo vale para o Don Quixote mirim encarnado por Yuri. Na estética de Deberton, seu Cavaleiro da Alegre Figura sonha com um Nordeste de tolerâncias.
"Nesse filme, a expressão 'amor' vem desde o meu desejo de fazer cinema, de contar alguma coisa para as outras pessoas. É uma história sobre o Brasil, sobre o lugar do perdão, do diálogo familiar, dos encontros, que tem toda uma equipe numerosa por trás de si", diz Deberton. "No que a gente avança pelo mundo, toda uma indústria, que se fez no Ceará, caminha junto. Hoje, no exterior, nós estamos sendo reconhecidos num lugar próspero. Espero que, aqui dentro, a partir deste 5 de novembro, que é a nossa estreia oficial, o Brasil consiga conhecer, um filme para a família, sobre sonhos, sobre memórias".
Lista de prêmios de "Feito Pipa" de fevereiro até o fechamento desta edição
1. Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale), na Alemanha: Urso de Cristal e Grande Prémio do Júri Internacional.
2. Festival Internacional de Cinema de Cartagena (FICCI), na Colômbia: Prêmio de Melhor Atuação para Yuri Gomes.
3. Festival Internacional de Cinema de Guadalajara (FICG), no México: Prêmio de Melhor Filme e Prêmio de Melhor Atuação para Teca Pereira e Yuri Gomes.
4. Festival de Cinema de Gramado, no Brasil: Melhor Direção, Melhor Atriz (Teca), Melhor Coadjuvante (Lázaro Ramos), Menção Honrosa para Yuri Gomes e láurea do Júri Popular.
5. Out On Film – Atlanta, nos EUA: Melhor Longa-Metragem de Ficção, Melhor Direção e Melhor Atuação para Teca Pereira.
6. Queer Film Festival München, na Alemanha: Prémio do Público.
7. 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no Brasil: Prêmio do Público de Melhor Longa-Metragem Brasileiro de Ficção.
8. 55ª edição do Molodist Kyiv International Film Festival, na Ucrânia: Melhor Filme
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