Cinema

Reforço cosmopolita para Macunaíma

Cineclube da ABI, reaberto em julho, renova sua vocação crítica por vias geopolíticas ao exibir, nesta quarta-feira, 'Agora Eu Quero Gritar', longa documental de Cahal McLaughlin e Siobhán Wills

Reforço cosmopolita
para Macunaíma

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Aexibição de "Agora Eu Quero Gritar" ("Right Now I Want to Scream"), documentário anglo-brasileiro dirigido por Cahal McLaughlin e Siobhán Wills, nesta quarta (4 de novembro), às 17h, reafirma a vocação histórica do Cineclube Macunaíma como espaço de reflexão política, debate público e defesa dos direitos humanos. O filme, que investiga a militarização da segurança pública e a violência de Estado nas favelas do Rio, dá voz a mães de vítimas da violência policial, moradores de comunidades e especialistas.

Depois da sessão, gratuita, na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), haverá debate com os realizadores, a jornalista Iara Cruz, diretora de Cultura e Lazer da entidade, e o advogado Aderson Bussinger, diretor do Centro de Documentação e Pesquisa e integrante da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ. Ao abordar as consequências da chamada guerra às drogas e a influência da experiência brasileira na missão militar da ONU no Haiti sobre estratégias de segurança adotadas posteriormente no país, a projeção recoloca em circulação uma discussão que atravessa a história do cineclube: a relação entre imagem, cidadania e resistência.

Batizado em homenagem ao herói criado por Mário de Andrade, o Macunaíma fez História entre 1973 e 1987, quando se tornou um dos polos mais expressivos da cinefilia carioca.

Criado por iniciativa do jornalista Maurício Azedo, ao lado de Fichel Davit Chargel, Luiz Paulo Machado, Ancelmo Gois, Elane Maciel e Jalusa Barcelos, o espaço nasceu dentro da ABI em plena ditadura militar, oferecendo à cidade uma programação que combinava descobertas cinematográficas, pré-estreias brasileiras e hispano-americanas, debates com críticos e discussão política.

Não era apenas uma sala de exibição: ali se articulavam poesia, jornalismo, pensamento crítico e compromisso democrático, num período em que a liberdade de expressão exigia espaços de encontro e resistência. Depois de encerrar suas atividades em 1987, o Macunaíma voltou a se movimentar durante a pandemia, em formato online, com a participação do documentarista Silvio Tendler e do crítico Ricardo Cota.

Em 2023, sob o empenho de Maria Luiza Franco Busse, celebrou seus 50 anos com uma sessão de "Azyllo Muito Louco" (1970), de Nelson Pereira dos Santos, no Estação Botafogo, em homenagem aos pioneiros do projeto.

Reaberto em 24 de julho deste ano, no auditório da ABI, o Cineclube Macunaíma retoma sua presença física e amplia o diálogo com a produção audiovisual brasileira, em sintonia com o trabalho da diretoria de Cultura da associação, conduzida por Iara Cruz. A escolha de "Agora Eu Quero Gritar" é especialmente eloquente: ao colocar no centro da tela as histórias de famílias atingidas pela violência policial, o cineclube recupera a dimensão pública que marcou sua origem e demonstra que sua memória não se limita à celebração de um passado cinéfilo. A programação atual prolonga aquele legado ao oferecer às novas gerações e aos antigos associados um lugar de encontro entre cinema e sociedade. Mais do que uma sessão temática, a exibição ressalta a verve histórica de um evento carioca que nasceu para fazer da cinefilia uma forma de participação cultural e que volta a ocupar seu espaço na vida da cidade.