Cinema

Calçado para o sucesso

O animador brasileiro Thiago Calçado reflete sobre a carreira, recheada de grandes sucessos, e revela os bastidores de 'O Bosque Selvagem', que promete fazer bonito na temporada de premiações

Calçado para
o sucesso

Pedro Sobreiro

Quando se fala em animações stop-motion, um nome 100% brasileiro se destaca no cenário internacional: Thiago Calçado. Natural de Uberaba, Minas Gerais, Calçado tem uma parceria de longa data com o diretor e CEO do Laika Studios, Travis Knight, com quem animou uma das mais premiadas obras da casa: "Kubo e as Cordas Mágicas" (2016).

Agora, dez anos depois, eles repetem a dobradinha para trazer ao mundo "O Bosque Selvagem", também de Travis Kinght, animação que revolucionou a técnica do stop-motion, já em cartaz nos cinemas brasileiros, com a promessa de brilhar na próxima temporada de premiações.

Inspirado na saga de livros infanto-juvenis homônima, o filme acompanha a jornada da menina Prue McKeel, que vê seu irmãozinho caçula ser sequestrado por uma horda de corvos. Ao lado de Curtis, seu amigo medroso, mas curioso, ela adentra o Bosque Selvagem, uma área estritamente proibida pelos pais, para tentar resgatar o pimpolho. Porém, o que ela encontra por lá é um verdadeiro reino tomado pela tirania de uma viúva mística, que encheu a mata com seu exército de coiotes. Agora, Prue e Curtis tentarão sobreviver a esse ambiente hostil, enquanto tentam salvar o bebê McKeel.

Antes de se detacar na Laika, Thiago trabalhou na primeira animação stop-motion do Brasil, "Minhocas" (2013). Atuou também em fenômenos como "Ilha dos Cachorros" (2018), de Wes Anderson, e no vencedor do Oscar de Melhor Animação, "Pinóquio" (2022), de Guillermo Del Toro.

Em conversa com o Correio da Manhã, Thiago avaliou o atual momento de sua carreira e aconselhou os brasileiros que sonham em virar cineastas a não desistirem. "Acho que, nesta fase da minha carreira, estou colhendo os frutos de mais de 20 anos dedicados à animação, em especial o stop-motion. Ao trabalhar em grandes produções, com grandes diretores, adquiri conhecimento, experiência e muita prática. Eu pratiquei bastante nesses anos todos, quase que diariamente. E hoje consigo contar minhas próprias histórias. E esse é o meu objetivo agora", compartilhou o animador.

Desde que voltou ao Brasil, Calçado tem trabalhado com publicidade e, paralelamente, desenvolve seus projetos autorais. "Meu conselho para quem está começando é que não existe atalho. Você tem que trabalhar. Se você quer ser animador, você tem que animar. Arruma um boneco e sai animando. Se você quer ser escritor, roteirista, você tem que escrever. E se você quer trabalhar com boneco, você tem que fazer boneco. Então, assim, precisa de um portfólio para entrar na nossa indústria, por isso você tem que produzir. O caminho é difícil, mas não é impossível. Tenta sempre dedicar a fazer o melhor que você pode, porque caso não dê certo em algum projeto, pelo menos você vai ter a consciência tranquila de dizer que o melhor foi tentado", sugere. "Eu mesmo levei muitos foras, muitos nãos da própria Laika até conseguir entrar. A ordem é não desistir", argumenta.

A fluidez da animação é o ponto forte de "O Bosque Selvagem". "O segredo neste caso é ter tempo para praticar a cena. A gente não chega na produção e já faz uma cena de primeira. Passamos um tempo considerável estudando o boneco, nos familiarizando, descobrindo aonde ele dobra, qual o tipo de pressão que você tem que colocar na estrutura para conseguir mover ele milimetricamente… E o segundo ponto é ensaiar. Na Laika, a gente chega a fazer três vezes a cena. Em alguns movimentos mais complexos, a gente faz quatro. Primeiro a gente faz as poses-chaves, depois a gente faz um movimento um pouco mais intervalado, a 12 quadros por segundo, e depois a gente vai para os 24 quadros por segundo, que é o número de quadros da cena final. Durante esse processo, em cada etapa, a gente conversa com o diretor, que vai te dando direções claras do que ele quer para a cena, onde pode melhorar, onde pode ser mais rápido, onde pode ser mais lento", revela.

Calçado valoriza a parceria com a Laika justamente por deixar que os artistas tomem o tempo necessário em suas produções. "Por mais que a gente tenha um prazo, na Laika, o prazo é um pouco maior do que em outros estúdios. Ou seja, existe pressão, mas de um tipo diferente. Porque se você tem que entregar rápido, a pressão é entregar visando a quantidade. Na Laika é preciso entregar qualidade", explica.

Com o lançamento mundial de "O Bosque Selvagem", críticos de toda parte vêm destacando a excelência do trabalho, alimentando a expectativa de que o tão sonhado Oscar da Laika enfim venha. "Acho que chegou a hora da Laika ganhar. É um baita filme! Direção de arte impecável, ritmo de montagem, fotografia, música, efeitos especiais… Eu arrisco dizer que vai ter quatro indicações e vai levar pelo menos uma delas, que eu acho que leva a de melhor filme de animação. Pode apostar!", prevê.