Cinema

Um thriller à moda portuguesa

Eletrizante recriação da Lisboa pós-Revolução dos Cravos, ‘Projecto Global’, de Ivo M. Ferreira, renova a força do cinema lusitano e amplia o destaque de seu país na Mostra de SP

Um thriller à moda portuguesa
Em 'Projecto Global', a agitação de ativistas mobiliza Portugal numa luta pela liberdade Crédito: Tarântula

Fiel a um padrão histórico de carinho com o cinema de Portugal, que sempre é vedete em sua programação, a Mostra de São Paulo encerra sua 50ª edição atenta aos nossos patrícios, com destaque para um dos títulos de maior potência estética da safra lusa mais recente: “Projecto Global”. Tem um par de sessões do thriller pilotado por Ivo M. Ferreira nestes dois últimos dias da maratona paulista de número 50: nesta quarta, às 13h45, no Espaço Petrobras 2, e quinta, às 17h, no Cinesystem Belas Artes 1. Em sua trama, uma personagem, Rosa, acredita de peito aberto num outro rumo para a vida portuguesa, bem distinto daquele em que mulheres como ela vivem, nas raias dos anos 1980, cerca de seis anos depois de aquele país ter passado pela Revolução dos Cravos e tirado o retrato do velho António de Oliveira Salazar (1889-1970) das paredes das repartições públicas.

Interpretada silenciosa e magistralmente por Jani Zhao, a personagem de ascendência asiática que nos conduz por veredas distintas (ora é dor, ora é júbilo, mas sempre é tensão) do épico “Projecto Global” percebe o quanto a euforia revolucionária da Lisboa de outrora... de bem pouco tempo atrás... deu lugar à desilusão. Fábricas fecham, trabalhadores erguem barricadas e a política é a voz dominante em todas as gargantas. À medida que a pátria banhada pelo Atlântico e embalada pelo fado se embrenha em agitações sociais, um grupo armado de extrema-esquerda, chamado FP25, entalha seu nome no carvalho da História. É dele que fala o longa-metragem de Ivo M. Ferreira, responsável por um redesenho febril da força cinemática do audiovisual português. Em janeiro, o Festival de Roterdã, realizado na Holanda, foi seu berço, em sessões na mostra Big Screen Competition.

“Eu fiz, antes de tudo, uma ficção... uma ficção livre de qualquer invenção pedagógica, sem incorrer em fantoches morais, que se inspira em várias pérolas colhidas num trabalho de pesquisa e em horas passadas com a malta da polícia e com ex-operacionais”, conta Ivo ao Correio da Manhã, num papo via Zoom em Roterdã, lembrando ter ouvido do pai que Salazar foi “um grande atraso de vida” para sua nação. “O único saudosismo nessa recriação do passado é a energia da época, com sua pulsão libertária. Havia por ali um certo impulso que dava lugar ao erro, à hesitação, e tudo o que eu não poderia fazer era incorrer numa super estilização. Não poderia ser cinemão. Tivemos meios para filmar, mas não tínhamos uma grua. Não podia ser burguês”.

Em sua trama, Rosa se junta a um grupo de jovens desiludidos com o Portugal pós-Revolução. Integrados numa organização avessa às leis vigentes à época, eles partilham ideais políticos e um quotidiano que os aproxima cada vez mais, mas o idealismo colide de frente com o país em mudança e com uma vasta operação policial que os tem como alvo. De certa forma, o painel histórico pintado por Ivo (capaz de evocar, à moda lusa, marcos da Nova Hollywood, como “A Trama”, de Alan J. Pakula, e “Operação França”, de William Friedkin) se conjuga bem como os feitos do pernambucano Kleber Mendonça Filho no concorrente brasileiro a quatro Oscars “O Agente Secreto” – também em exibição em Roterdã, mas em mostra paralela. Uma mesma atriz, a sempre impecável Isábel Zuaa, está em ambos os filmes.

“A espinha dorsal do meu filme é a ambivalência moral e a dúvida. Mas, apesar delas, o arco da trama está construído sobre a relação entre aquelas pessoas, pois o que fica de um processo desses não é a política, são as amizades”, diz Ivo, que concorreu ao Urso de Ouro das Berlinale, em 2016, com “Cartas da Guerra”.

No elenco, Além de Zhao, destaca-se o desempenho do também diretor Gonçalo Waddington e de Isac Graça, além do fino trabalho de direção de fotografia de Vasco Viana. “Todos os dias, ao fim da filmagem, quando chegávamos ao hotel, Vasco ia ao copião, a fim de corrigir a cor, ciente de que, nas filmagens, obedecíamos às pulsões da câmara, deixando os atores irem... livres”, diz Ivo. “Existe um frenesi nas personagens que se espelha no convívio ético e moral entre elas”.