Cultura

Não somos obrigadas a nos conformar

Não somos obrigadas a nos conformar

Iniciada em 15 de outubro, a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo trouxe uma joia da animação, de DNA europeu: "Carmen, o Pássaro Rebelde", de Sébastien Laudenbach, uma releitura da história imortalizada pela ópera "Carmen", de Georges Bizet. Exibido na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes, o filme recupera uma das personagens mais fascinantes da história da arte para falar de liberdade, destino e solidariedade.

Saio da sessão emocionada com a beleza do filme, seu manifesto contra o feminicídio e a força da união entre os personagens. A sororidade ganha vida nos traços em guache e na força das cores, ora intensas, ora delicadas. A profusão de tons se alterna com o monocromático, criando sombras e clarões. As cores não apenas dão forma à narrativa: parecem ter vida própria, expressam sentimentos e se tornam personagens.

Em 1875, a estreia da ópera de Bizet, na Opéra-Comique de Paris, provocou reações controversas e escândalo. O compositor não viveu para testemunhar o sucesso que "Carmen" alcançaria, transformando-se em um símbolo da liberdade feminina. A ironia é que a sociedade francesa, que havia se revoltado em 1789 contra a monarquia e os privilégios da Igreja, ainda não estava pronta para acolher uma mulher que exigia o direito de viver o próprio desejo.

E ainda hoje não estamos.

O filme não desgruda da cabeça. Penso em Simone de Beauvoir e na célebre frase de "O Segundo Sexo", de 1949: "Não se nasce mulher: torna-se mulher". Lembro das gerações de mulheres que precisaram desafiar as regras para conquistar o direito de decidir sobre a própria vida. E chego a "Não Sou Obrigada", música de Pocah, lançada em 2019. Entre a filosofia, a ópera e o funk, ecoa a mesma recusa a viver sob o controle alheio. Conquistar direitos é fundamental e defendê-los continua sendo uma tarefa permanente.

Em uma Sevilha de 1845, entre mercados coloridos, marinheiros, trabalhadores, golpistas e gente à margem das convenções, o adolescente Salvador conhece Carmen, uma bela cigana. Aprendiz de Antonio, um amolador de facas cego que prevê o futuro, ele descobre que, segundo as visões do mestre, ela está fadada à morte.

Salvador tenta mudar esse destino. Carmen encanta com sua música, que evoca um dos trechos mais conhecidos da ópera de Bizet: "L'amour est un oiseau rebelle" — o amor é um pássaro rebelde. Ao jovem se juntam outros marginalizados, liderados pela adolescente Belén, que também desafia as convenções impostas às mulheres, com seu corte de cabelo e visual andrógino.

Na ópera, Carmen não aceita pertencer a ninguém. Ama quando quer, deixa de amar quando deseja e não transforma sentimentos em obrigação. Don José, incapaz de aceitar a rejeição, confunde amor com posse e transforma o desejo de controle em violência. Carmen acaba assassinada porque se recusa a voltar para um homem que pretende decidir por ela.

A animação parte dessa tragédia, mas introduz uma possibilidade nova: a resistência coletiva. Salvador não se conforma com a previsão de Antonio, e Belén e os jovens que a acompanham também entram na luta. A pergunta que fica é simples e incômoda: se o futuro parece escrito, precisamos aceitá-lo?

Quantas vezes a violência contra as mulheres é tratada como inevitável ou como um problema privado? Quantas tragédias poderiam ser evitadas se a liberdade feminina não fosse vista como afronta e se aqueles que testemunham a violência decidissem agir?

Há algo bonito na escolha desses jovens marginalizados como protagonistas da resistência. Eles não são heróis tradicionais, mas pessoas que também vivem fora da ordem estabelecida. Justamente por isso, recusam-se a assistir passivamente aos acontecimentos.

O pássaro rebelde do título remete à célebre Habanera, na qual Carmen compara o amor a uma ave que não se deixa aprisionar. A imagem continua poderosa: não há liberdade quando o afeto disfarça a dominação e o machismo.

A história de Carmen atravessou diferentes linguagens artísticas. A novela de Prosper Mérimée, publicada em 1845, inspirou o libreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy e a ópera de Bizet, estreada em 1875. Agora, a animação de Laudenbach acrescenta outro olhar à personagem, trazendo para o centro a solidariedade e a possibilidade de enfrentar aquilo que parecia inevitável.

Talvez a pergunta mais importante desta releitura não seja apenas como salvar Carmen, mas porque uma mulher ainda precisa lutar tanto para ser livre.

Ao imaginar personagens que se recusam a aceitar uma tragédia anunciada, Carmen, o Pássaro Rebelde nos lembra que nem todo destino precisa ser cumprido. Diante da violência, não basta lamentar: é preciso agir, romper o silêncio e não aceitar o inaceitável. Mulheres não podem continuar morrendo simplesmente por serem mulheres.