50ª Mostra de São Paulo

Zumbidos do mistério e da ciência

Sensação de Roterdã, 'Yellow Cake' flana pela grade da maratona paulistana nesta quinta, com Rejane Faria e a aclamada Dona Tânia Maria

Zumbidos do mistério e da ciência
Rejane Faria é a cientista que investiga um contágio nuclear em 'Yellow Cake' Crédito: Divulgação


Estrela principal do internacionalmente badalado "Vicentina Pede Desculpas" (em cartaz em SP nesta quinta, às 17h, no Reserva Cultural), a mineira Rejane Faria abriu o ano nas telas da Holanda, no Festival de Roterdã, unindo forças à potiguar Tânia Maria, a Dona Sebastiana de "O Agente Secreto" (2025), num esplendoroso exercício de nosso cinema por veredas sci-fi: "Yellow Cake".

O título pode ser associado ao cuscuz, mas, na abordagem de seu realizador, Tiago Melo ("Azougue Nazaré"), não espere significados de tradução ou definição imediatos, pois tudo em cena caminha pelo mistério. Quem passar por sua projeção, esta noite, às 18h40, no Cinesystem Frei Caneca 1, na 50ª edição da Mostra de SP, vai embarcar numa jornada que passa pela ciência, pela corrupção política, por radiação, por um tipo exótico de dengue e por formas variadas de desejo.

"Não sei quando ouvi falar em dengue pela primeira vez, mas acho que, desde quando nasci e aprendi a falar 'cadeira'... 'mesa'... 'comida', a palavra 'mosquito' faz parte da minha vida. Até no programa da Xuxa tinha a personagem da Dengue. Nós somos de Recife. Lá, os casos (de contaminação por Aedes aegypti) eram muitos", explicou Tiago, ao Correio da Manhã, numa conversa via Zoom de Roterdã, ao lado da produtora Carol Ferreira. "Mosquito é um bicho que tem vários nomes. Em Recife, chama-se muriçoca; no Acre, carapanã. Essa coisa das doenças que ele transmite é assustadora. Daí a premissa: e se ele começasse a transmitir radiação? E se ele pudesse se adaptar acima da linha do Equador?".

Projetado em Roterdã na seção competitiva Tiger, "Yellow Cake" fez barulhinho dos bons nas asas de uma criatura que faz dessa ficção científica nordestina um "filme de monstro": o Aedes aegypti. A picada do mosquito que assombra a trama carrega uma praga atômica. Ambientado no município de Picuí, na região da Borborema, no Seridó Oriental paraibano, e falado parcialmente em Inglês, o longa-metragem transborda tensão ao explorar um dos lados mais perigosos da mineração: o risco de contágio por elementos radioativos. Minérios como tântalo, nióbio e (sobretudo) urânio estão no foco da investigação de Rúbia Ribeiro (Rejane Faria), uma cientista nuclear envolvida em um projeto secreto para erradicar o Aedes aegypti utilizando a riqueza mineral da região. Agentes dos EUA, mosquitos famintos e conflitos políticos estão no leito desse rio de brasilidade cristalina, onde Dona Rita (Tânia Maria) é interlocutora de Rúbia e alvo dos monstrinhos que zumbem.

"Quis fazer um filme onde a Ciência fosse protagonizada por uma mulher brasileira preta, do Nordeste. Nosso saber científico, absurdamente, é sempre colocado como algo menor. Basta aparecer um pesquisador estrangeiro que ele será mais valorizado. O governo aceita um projeto nuclear controverso de um cientista estrangeiro apenas porque ele é americano. Isso é assustador", explica Tiago, lembrando que Tânia Maria vive a 15 minutos de Picuí. "Sempre quis tê-la para o elenco, por ela ser do local. E rodamos a primeira fase da filmagem em 2022, antes de ela ter feito 'O Agente Secreto'. Grande atriz, ela ensaia muito. Vive o processo todo".

Na conta de Carol Ferreira, a gestação de "Yellow Cake", entre financiamento e realização, levou uma década: "É um projeto de R$ 3,3 milhões, captado em editais pequenos, sem os quais não existiríamos. É um filme de baixo orçamento que só existe pela destreza da produção", diz Carol, que leva "Yellow Cake" à Mostra de novo no dia 27, no Cine Tutu, 18h30.