Cinema

John Turturro, o mão-leve

Aos 69 anos, o ator e diretor rouba corações do público de 'O Último Batedor de Carteiras', um thriller cheio de charme que veio de Sundance e da Berlinale, com foco no Oscar

John Turturro, o mão-leve
John Turturro emprega toda a sua expriência em 'O Último Batedor de Carteiras', sensação da Berlinale Crédito: Divulgação

Apesar de sua histórica devoção a narrativas mais interessadas no risco do que no lucro, a Mostra de São Paulo nunca deixou de lado seu interesse por títulos que podem ganhar o Oscar lá nos Estados Unidos, como se deu com o trabalho exemplar do evento para badalar "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, em 2024. Este ano, um ímã para vencer estatuetas se impõe como um sucesso no gosto do público paulistano: "O Último Batedor De Carteiras" ("The Only Living Pickpocket in New York"), de Noah Segan (EUA).

Seu principal chamariz é John Turturro, que atua num estado de graça neste thriller charmoso. Tem uma sessão a mais dele no dia 26, no Cultura Artística, às 14h10. No encerramento da maratona de Essepê (dia 29), esse estudo sobre malandragem (à moda romântica) volta a ser projetado, às 13h30, no Solar Petrobras.

Aos 69 anos, Turturro tem um Emmy, conquistado por seu trabalho na TV, na série "Monk", e ganhou o Caméra d'Or de Cannes por seu longa de estreia como diretor, "Mac", em 1992.

"Eu só vislumbro uma única constante na vida da gente: a certeza de que ela muda", declarou Turturro à Berlinale, onde "O Último Batedor de Carteiras" foi exibido fora de concurso, vindo de uma elogiada passagem por Sundance. "O cinema independente que se fazia nos anos 1960, a partir de mestres como John Cassavetes, é diferente do que se faz hoje, sobretudo nos EUA. Mas a arte, perante todas as transformações deste mundo atual, encontra sempre o seu caminho por meio da liberdade".

Sob a direção de Segan, o eterno Barton Fink dos Irmãos Coen, consagrado nos anos 1990 por sua habilidade crítica no retrato das idiossincrasias americanas, vive um ladrão profissional que "mete" a mochila de um bad boy (Will Price), sem saber que se trata de um mafioso. Entre os pertences que o gatuno "bateu", há um chip que conduz seu portador a segredos (leia-se $) do crime organizado. Dali pra diante, caímos numa mistura do Scorsese de "After Hours" (1985) com os Irmãos Safdie de "Joias Brutas" (2019) que se desenha como um conto moral sobre o quão dura pode ser a vida da malandragem e também como uma carta de amor pra Nova York. Giancarlo Esposito, Steve Buscemi, Karina Arroyave e uma impecável Jamie Lee Curtis integram o elenco deste poema crepuscular.

"Eu conheci facetas muitos diferentes de Nova York, porque existem diferentes mundos dentro daquela cidade tão famosa, que tem empurrado muitas pessoas para fora, na relação com quem circula por suas ruas", disse Turturro ao Correio da Manhã na Berlinale. "O ladrão que eu interpreto está ligado a um debate sobre luta de classes, um tema recorrente nas minhas escolhas. Gosto de interpretar pessoas que desempenham trabalhos manuais".

Fala-se muito de Oscar para a principal atração da Mostra nesta quarta: o sul-coreano "Amor Possível" ("Possible Love"), que garantiu o Grande Prêmio do Júri a Lee Chang-dong no 83º Festival de Veneza. A sessão será às 18h, no Espaço Petrobrás, com repeteco neste domingo, às 20h40, no Cultura Artística. O enredo do novo trabalho do artesão autoral por trás de "Poesia" (2010) e "Burning" (2018) trata do encontro de dois casais: de um lado, está um trabalhador recém-demitido e sua esposa; do outro, há uma documentarista e seu marido. Os caminhos deles se cruzam para a realização de um documentário.