Cinema

O Brasil que se vê nas telas

'Maria de Maria' e 'Uma Missa Para Dom Angélico' vencem o Prêmio Olhar Brasil 2026. 'Elza' e 'O Filho da Puta' recebem menções honrosas

O Brasil que se vê nas telas
A equipe de 'Maria de Maria', de Luiza Shelling Tubaldini, celebra no tapete vermelho do Festival do Rio' a conquista do Prêmio Olhar Brasil de melhor longa de ficção Crédito: Christian Rodrigues/Festival do Rio

Horas antes da cerimônia oficial de encerramento do Festival do Rio, no Cine Odeon, o prêmio Olhar Brasil 2026 anunciou os vencedores entre os filmes brasileiros que disputaram a Première Brasil da maratona cinéfila carioca. Foram três reconhecimentos: o de melhor longa-metragem de ficção, o de melhor longa-metragem de documentário e duas menções honrosas. A estatueta foi criada para premiar aquilo que seu nome já diz: filmes que fazem o Brasil olhar para si mesmo. E para suas complexidades.

Na ficção, o vencedor foi "Maria de Maria", de Luiza Shelling Tubaldini. O júri reconheceu "sua precisão para lidar com códigos consagrados do gênero western e recauchutá-los numa lanternagem de brasilidade, aproximando-se (com destreza) da linguagem das HQs, a fim de construir uma heroína que encarne, com realismo, as pautas mais urgentes das lutas feministas do país, calçando-se numa atuação primorosa de Nanda Costa". Os jurados destacaram ainda "a potência visual da fotografia de Jacob Solitrenick numa narrativa que celebra formas não convencionais de construção de família num país que é mais 'mátria' do que 'pátria', num paradoxo entre afetuosidade e aspereza".

"Fazer cinema no Brasil é uma luta, fazer western é uma luta maior ainda e fazer o western feminino é uma raridade", disse Luiza Shelling Tubaldini, com o troféu na mão. "Poder ter o reconhecimento do prêmio Olhar Brasil, para nós, foi uma honra. Poder fazer cinema no Brasil de gênero, que explore fronteiras e apresente o diferente... Eu estou de verdade muito emocionada."

No documentário, o troféu foi para "Uma Missa Para Dom Angélico", de Emília Silveira. Segundo o júri, o filme "em sua cartografia de ideologias e sonhos essenciais à sobrevivência da democracia, lança mão de uma mirada dialética para desenhar um herói possível: o Bispo dos Oprimidos". E prossegue: "Não cabem idealizações em seu notável roteiro, que não se limita a fatos. Suas interpretações avançam pelo terreno da História com uma verve poética, na tentativa de entender o papel da fé e o papel de um 'estadista de Deus' em tempos de crise. É uma abordagem que se põe em dúvida — e nos põe em dúvida — todo o tempo, festejando a dimensão reflexiva de um documentário retratista, indo além do personalismo. É uma radiografia de modos de crer, erguido a partir de uma montagem febril".

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Emília Silveira recebe o prêmio Olhar Brasil de Melhor Documentário do editor do #CM2 Affonso Nunes (E) e do crítico Rodrigo Fonseca | Foto: Tomi Streiff

"É uma emoção. Você não sabe acordar com uma boa notícia, hoje, no Brasil", disse Emília. "Fiquei muito, muito feliz com o prêmio, mas entendo que esse prêmio não é meu. Esse prêmio é de uma e é de pessoas que, até hoje, estão lutando e estão tentando transformar a vida delas e dos outros para melhor. Então, queria dedicá-lo ao Dom Angélico e às comunidades de Brasilândia e São Miguel", destaca a realizadora.

As duas menções honrosas abriram espaço para o improviso e para o arquivo. A animação "O Filho da Puta", assinado por Érica Maradona, Tania Anaya, Sávio Leite e Otto Guerra, foi premiado "pela exuberância de uma direção de arte capaz de sintetizar muitos Brasis em uma jornada em busca da paternidade, numa pátria de órfãos, apoiado no personagem mais genial de todo o Festival do Rio 2026: o cachorro Bacalhau, que carrega a força vital de Matheus Nachtergaele em sua composição vocal".

A outra menção foi para "Elza", de Eryk Rocha, "pela eletrizante colagem de memórias cinematográficas de um povo que encontrou em Elza Soares a voz da resiliência das mulheres deste país... do povo preto deste país, com uma montagem efervescente. O acervo de imagens de arquivo da cantora, em diferentes fases de sua vida, é um diamante, assim como os registros de outras forças femininas negras garimpadas pela pesquisa".

"A gente está muito feliz com essa menção honrosa do Correio da Manhã. Já tínhamos ficado superfelizes com a matéria que o Rodrigo Fonseca fez sobre o filme, e agora a nota que saiu mencionando a direção de arte, a originalidade que transpira brasilidade, ainda mais nesse momento político que a gente está vivendo — é uma alegria muito grande que o nosso filme transpasse isso", disse Érica Maradona.

Já Eryk Rocha dedicou o prêmio "a Elza Soares e a todas as Elzas deste país". O realizador destacou a importância de iniciativas como o Olhar Brasil, que valorizam o nosso cinema.

O júri reuniu cinco jornalistas: Paula Martinez Mello, secretária-executiva do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (CEDIM/RJ); César Monteiro, crítico de música e resenhista do Rota Cult; Gustavo Valente, crítico e apresentador do Momento Crítico, do canal Set Por Sete; Rodrigo Fonseca, crítico de cinema do Correio da Manhã; e Affonso Nunes, editor do #CM2 e idealizador do prêmio.

Olhar para o cinema brasileiro é olhar para o próprio país. E esse "olhar", no caso, serve tanto à Sétima Arte quanto ao nosso ofício de informar. O cinema e o jornalismo nos dão meios de observar a realidade, revelar histórias e interpretar seu tempo.