Um dos mais engenhosos — e incomparavelmente o mais performático — de toda a turba de vozes literárias surgidas no início dos anos 2000, em meio a experiências blogueiras e ecos de romances geracionais, João Paulo Cuenca sempre foi cinéfilo, elegeu a pipoca da porta do cine Estação como sua nutrição mais essencial e tem as fuças do Roman Polanski quando jovem. Mas é aquele Polanski de antes das acusações e polêmicas, de “Faca na Água” (1962). Diante do que se nota nesse perfil, percebe-se que Cuenca nasceu cult. Fez música, fez livros (alguns geniais, como “O Dia Mastroianni”), escreveu roteiros (até para a TV) e, à força disso tudo, foi o enfant terrible de uma época em que a polis carioca se entorpecia com Franz Ferdinand e The Killers. Transformou problemas pessoais em matéria de filme, onze anos atrás, ao passar para a realização de longas com “A Morte de J.P. Cuenca”, espécie de metalinguagem disfarçada de “auto-Agatha Christie”, numa busca do “eu” perdido. Ou seja... o homem trabalhou, ou melhor, trabalha. Tal verbo segue no presente, buscando a desinência da invenção naquele que periga ser o experimento mais provocativo, em termos de investigação, do Festival do Rio 2026: “144 – Apocalipse Não”. Eis aí o bicho mais indecifrável do certame — não apenas entre os brasileiros —, pois se pretende documentário, finca unhas no jornalismo, tem um tiquinho da estética Nelson Hoineff do “Documento Especial” na disposição de auscultar um Brasil que a televisão bem-comportada prefere domesticar e, ao mesmo tempo, lembra “Borat” (2006), de Sacha Baron Cohen.
Cuenca é o Borat do Brasil. Só que essa estrutura de andança, encontros, estranhamentos e colisões com o real não brotou agora: já se insinuava em sua literatura desde “O Único Final Feliz para uma História de Amor é um Acidente” (2010). Num estalar de dedos, essa lógica encontrou no cinema um dispositivo vertiginoso.
A sessão final de “144 – Apocalipse Não” no Festival do Rio acontece neste sábado, dia 10, às 16h15, no Estação Claro Rio 5, na Rua Voluntários da Pátria, 35, em Botafogo, seguida de debate. A partir dos 144 processos por danos morais que recebeu depois de um tuíte satírico contra Jair Bolsonaro e a Igreja Universal, acompanhado por milhares de ameaças, o escritor-realizador percorre cerca de 11 mil quilômetros pelo país, passando por templos, rodeios, festas alemãs, cultos domésticos, clubes de tiro, comunidades ribeirinhas e caminhões gospel, atrás dos autores das ações e, sobretudo, de uma medida possível para a fé brasileira.
O resultado é abusado e divertidíssimo: um documentário com cara de piada, que parece mockumentary justamente para se levar muito a sério, fazendo da ironia uma operação nietzschiana a golpes de martelo. A montagem frenética de Bruna Carvalho e Marta Lopes é decisiva nessa equação: corta, associa, atropela, interrompe e recomeça com uma pulsação que espelha a própria escrita de Cuenca, sobretudo a de “Corpo Presente”, seu romance inaugural, em que fragmentação e aceleração já organizavam uma percepção febril do mundo.
Se o assunto passa por fanatismo religioso, extrema direita, catástrofe ambiental, paranoia e pela mercantilização da crença, “144 – Apocalipse Não” recusa a solenidade da tese e prefere o risco do encontro, deixando Guilherme Tostes (seu fotógrafo) capturar um Brasil que parece empenhado em superar qualquer ficção que se tente escrever sobre ele.
Entre o grotesco e o sublime, o riso e o susto, a investigação e a performance, Cuenca transforma a própria condição de personagem em combustível para um cinema que provoca antes de explicar — e diverte enquanto martela certezas. Baixa o Nietzsche de “Crepúsculo dos Ídolos” nele, a comprovar que todo carvão pode ser diamante... inclusive o carvão da histeria fundamentalista... que, saída da crisálida, reluz a truculência bovina dos Minions.
O Festival do Rio 2026 termina neste domingo, com o anúncio da premiação oficial.
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