Cinema

Festival do Rio consagra 'A Margem do Rio'

Longa dos pernambucanos Enock Carvalho e Matheus Farias conquista prêmios de melhor filme, fotografia, som e o Félix (láurea queer)

Festival do Rio consagra 'A Margem do Rio'
Caique Copque e Ítalo Martins integram o elenco de "A Margem do Rio" Crédito: Divulgação

Acalorada do começo ao fim por um pleito em prol da eleição de Lula, em nome da manutenção das políticas públicas no país, a cerimônia de desfecho do Festival do Rio número 28 terminou com a consagração de “A Margem do Rio”, de Enock Carvalho e Matheus Farias. É dele o triféu Redentor de Melhor Longa-Metragem de Ficção de 2026. O resultado foi anunciado no domingo, no Cine Odeon, por cerca de três loooongas horas, de muita emoção. "A Justiça precisa ser feita", disse Farias, ao traduzir o tom indignado de sua narrativa.

Egresso do Recife, "A Margem do Rio" é um thriller queer de uma fotografia estonteante (mérito de Luciana Baseggio), que levou para casa o Prêmio do Júri de Locarno, em sua viagem pela Suíça, há dois meses. É uma saga sobre desejo e resistência às hipocrisias de igrejas conservadoras com foco no tesão voraz de dois homens num mangue.

Numa forma de narrar sinestésica de flerte com o mistério, “A Margem do Rio” segue os passos de Izaquiel (Caique Copque), um auxiliar de serviços gerais do Recife. Num recorte dessa cidade com foco em rotas fluviais e manguezais, o rapaz se aventura perigosamente, noite após noite, em encontros secretos com outros homens. Numa dessas investidas em busca de goza, tromba com o pescador de ar sedutor Jeremias (Ítalo Martins, ator em fase de apogeu em sua arte). O flerte entre eles deixa o jovem zelador magnetizado pelo querer. Durante o dia, contudo, a encantaria do sexo vai embora e dá vez a uma rotina laboral capitalista opressora, no momento em que Izaquiel é escalado para trabalhar na sede de um culto evangélico cujo líder é um pastor boquirroto, que não aceita ver piercings na orelha de seu funcionário, nem tolera ver unhas pintadas nas mãos de seus serviçais. Essa figura, com ares de senhor feudal, que lembra o bispo mau de “O Feitiço de Áquila” (1985), é vivido com brilhantismo por Robério Diógenes, o delegado “imperfeito” de “O Agente Secreto” (2025).

O júri da disputa principal do Festival do Rio, chefiado pela Esther García (que produz na El Deseo, da Espanha, os filmes de Almodóvar) conta ainda com a compositora Flavia Tygel, a programadora da Berlinale Jacqueline Lyanga; a diretora de elenco Marcela Altberg; e a produtora Sophie Erbs.

Macaque in the trees
Victor Di Marco em 'London | Foto: Ma Villa Real

Essa turma concedeu o troféu de Melhor Ator a Victor Di Marco, o que assegurou ao Cine Odeon o momento mais comovente da festa de despedida da maratona carioca. Victor chegou à cidade carregando em seu currículo o Queer Lion, um troféu que combate a homofobia e a transfobia, chancelado pelo Festival de Veneza. Essa láurea foi confiado ao sinestésico longa gaúcho “London”, que esse astro contagiante dirige um duo com Márcio Picoli. Identificado pela sociedade como PCD, por ter problemas com a produção de dopamina, o jovem London (vivido por Di Marco) passa por uma fase de tormenta. Um exame médico lhe oferece a possibilidade de descobrir a origem e o destino de sua deficiência. "Pessoas como eu só costumamsonhar dormido. É bom sonhar acordado", disse Di Marco ao receber o prêmio, arrcando aplausos entusiasmados da plateia.

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O cão Bacalhau (na voz de Matheus Nachtergaele) testemunha Ismael (Gabriel Martins) se safar de perigos de jeitos tortos em 'O Filho da Puta' | Foto: Divulgação

Houve um Prêmio Especial do Júri, que foi entregue à única animação em concurso: “O Filho da Puta”, por Erica Maradona, Tania Anaya, Otto Guerra e Sávio Leite. Há nele o personagem mais genial de todo o Festival do Rio, que é o cachorro falante Bacalhau, interpretado por Matheus Nachtergaele. O cão ajuda o protagonista (com a voz de Gabriel Martins, o realizador de “Vicentina Pede Desculpas”) a buscar o pai, a quem desconhece.

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Elza , de Eryk Rocha, consagra-se como melhor documentário | Foto: Divulgação/ Globo Filmes/ Globo News

Na hora de revelar o documentário vencedor da competição de 2026, o júri referendou uma joia linkada à MPB e ao samba: “Elza”. O novo exercício de não ficção de Eryk Rocha põe o realizador de “Cinema Novo” (2016) nos rastros fonográficos e biográficos de Elza Soares (1930-2022), para entender como ela virou porta-voz das pautas identitárias das mulheres pretas do país. “Nas eleições, vamos decidir se o Brasil prefere ser uma nação ou uma colônia”, provocou Eryk. “A Elza é um corpo coletivo. Esse prêmio vai para todas as Elzas espalhadas Brasil afora”.

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Vicentina Pede Desculpas', com atuação arrebatadora de Rejane Faria, que dividiu o prêmio de melhor atriz com Grace Passô ('A Professora de Francês) | Foto: Netflix

Último filme da grade competitiva da Première a estrear, o drama mineiro “Vicentina Pede Desculpas”, novo longa de Gabriel Martins, de “Marte Um” (2022), concorreu à Concha de Ouro do Festival de San Sebastián, na Espanha, há duas semanas. Passou antes pelo TIFF, o Festival de Toronto, e, em novembro, estreia na Netflix. Carrega agora consigo o Redentor de Melhor Roteiro e o de Melhor Realização, além do prêmio do júri popular. Estrelado por Rejane Faria, o novo trabalho da badalada produtora das Gerais Filmes de Plástico acompanha uma aposentada de 75 anos que procura as famílias das vítimas de um acidente de ônibus provocado pelo filho, morto na tragédia, depois que surgem suspeitas de que ele teria derrubado intencionalmente o veículo de um viaduto.

Na categoria de Melhor Montagem, houve um resultado ex-aequo. Ganharam Cristiane Oliveira, Fabio Meira e Juliano Castro (por “A Extraordinária Vida de Vera Valdez”) e Cristiane Oliveira e Tula Anagnostopoulos (por “Ela Foi Ali Guardar O Coração Na Geladeira”). As duas narrativas se estruturam sobre memórias.

Houve empate ainda na competição de Melhor Atriz: ganharam Isabel Teixeira (por “Diário do Fogo”) e Grace Passô (por “A Professora de Francês”. As duas se destacam em thrillers com ecos de terror e suspense.

O arranque da entrega de prêmios do Festival se deu a partir da seção Novos Rumos, cujo ganhador é o primeiro longa alagoano a brigar pela honraria: “Não Estamos Sonhando”, de Ulisses Arthur. Nele um estudante de Medicina sobrevive de dar aulas de pole dance. Seu protagonista, Pedro Leão, também foi premiado.

Terminado o Festival do Rio, chegou a hora e a vez da Mostra de SP, que abre suas atividades na quarta, recebendo (lá dos EUA) James Gray e seu “Tigre de Papel”.

A premiação

Filme: “A Margem do Rio”, de Enock Carvalho e Matheus Farias

Documentário: “Elza”, de Eryk Rocha

Curta: “Santo”, de Maria Luísa Alves

Prêmio Especial do Júri: “O Filho da Puta”, por Erica Maradona, Tania Anaya, Otto Guerra e Sávio Leite

Direção: Gabriel Martins (por “Vicentina Pede Desculpas”)

Direção de documentários: Camila Valença (por “Cão Sem Plumas”)

Atriz: Isabel Teixeira (por “Diário do Fogo”) e Grace Passô (por “A Professora de Francês”)

Ator: Victor Di Marco (por “Lodon”)

Atriz Coadjuvante: Renna Costa, Artia e Ísis Broken (por “A Margem do Rio”)

Ator Coadjuvante: Pedro Goifman (por “A Professora de Francês”)

Roteiro: Gabriel Martins (por “Vicentina Pede Desculpas”)

Fotografia: Luciana Baseggio (por “A Margem do Rio”)

Montagem: Cristiane Oliveira, Fabio Meira e Juliano Castro (por “A Extraordinária Vida de Vera Valdez”) e Cristiane Oliveira e Tula Anagnostopoulos (por “Ela Foi Ali Guardar O Coração Na Geladeira”)

Som: Moabe Fiho, Guma Farias, Daniel Turini e João Victor Coura (por “A Margem do Rio”)

Trilha Sonora Original: Florencia di Concilio (por “A Professora de Francês”)

Figurino: Samy Sill (por “London”)

Direção de Arte: Ana Paula Cardoso e (por “Funk”)

Melhor Filme Pelo Júri Popular: “Vicentina Pede Desculpas” (ficção) e “Fui Olhar Você Dormir” (documentário)

Prêmio Félix (láurea queer): “A Margem do Rio”, de Enock Carvalho e Matheus Farias

Novos Rumos: “Não Estamos Sonhando”, de Ulisses Arthur

Prêmio da Associação dos Correspondentes Estrangeiros: “Me Deixa Ser”, de Viviane D'Avilla, com menção honrosa para “144 - Apocalipse Não”, de João Paulo Cuenca

Prêmio da Crítica da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica: “London”, de Victor di Marco e Márcio Picoli, e “Seis Meses No Prédio Rosa e Azul”, de Bruno Santamaría Razo