Produtor, realizador, exibidor e agitador cultural, o ex-atleta e hoje usina de fazer filmes Carlos Vinícius Borges construiu uma trajetória tão improvável que virou personagem de um longa. E é um longa sobre ele e seu legado. Em "O Cinema Possível", Bigode documenta os feitos do artista que saiu dos tatames do judô para transformar uma locadora, a Cavídeo, numa indústria de transformar enredos em narrativas cinematográficas e seriados.
Com isso, seu criador, sob um indefectível figurino composto de bermudão e camiseta, virou uma Netflix humana, um streaming vivo em prol do audiovisual independente brasileiro. A exibição no Festival do Rio do .doc sobre seus feitos ganha um componente afetivo particular: é diante de uma plateia formada também por pessoas que frequentaram sua loja, suas mostras, suas pré-estreias e suas produções que Cavi verá sua própria história ocupar a tela do Estação Claro Gávea 3, às 20h45 desta sexta. Tem uma nova exibição neste sábado, às 16h15, no Estação Claro Rio3. O programa é duplo, pois inclui o curta "Helena! Cinema!", um poema visual que Cavi e Christian Caselli, seu habitual (e mais genial) montador, fizeram para celebrar a atriz e diretora Helena Ignez.
Qual foi a história mais emocionante que você viveu com a Cavídeo?
Cavi Borges - Foram várias situações muito emocionantes. Acho que uma delas foi a ocasião em que ganhei meu primeiro prêmio, que foi inclusive no Festival do Rio, de Melhor Curta, por "7 Minutos", em 2007, junto com Paulo Silva e Júlio Pecly. Depois, teve a ida a Cannes, com "A Distração de Ivan", em 2010, que também foi um momento muito especial.
Qual é a emoção de ver sua história virar filme em "O Cinema Possível"?
Esse filme é mais do que eu. É a Cavídeo. Vai ser muito legal poder ver no telão a história da produtora e um pouco da minha história, desde a época do judô até os dias de hoje. Com certeza, vai ser emocionante estar com o público e os amigos. Acho que estarão na plateia muitas pessoas que viveram e participaram dessa história: primeiro como clientes da locadora, depois participando dos eventos, das mostras, das nossas pré-estreias e dos nossos filmes. E principalmente aqui, no Festival do Rio, meu festival preferido, onde vi meus primeiros filmes e onde passei de espectador a realizador.
Você se lembra do primeiro filme que viu na vida? Onde foi e quem levou você?
Não lembro exatamente qual filme dos Trapalhões foi, mas os primeiros filmes que vi no cinema - e que realmente me impactaram e me emocionaram, fazendo eu me divertir muito numa sala de projeção - foi um dos longas deles. Nasci em 1975, então devia ter uns quatro ou cinco anos. Tenho uma memória muito feliz de assistir a vários filmes dos Trapalhões no cinema e sair amarradão. Eu ia com um amigo do meu prédio, o Zé Gustavo. Mesmo muito novo, ele já era todo cinéfilo, intelectual. Eu pegava carona com ele para ver os filmes. Inclusive foi ele quem me levou para assistir a "Delicatessen", que me impactou muito.
O que mudou de maneira mais radical na forma de fazer cinema no Brasil da pandemia para cá, quando você enfrentou uma luta árdua pela vida, contra a covid-19?
Houve muitas mudanças, mas talvez a principal tenha sido o uso do celular, que ficou muito forte durante a pandemia. Isso permaneceu. Meus últimos curtas, eu filmei todos com celular. Eu tenho feito muitas filmagens com a Patrícia (Niedermeier, bailarina, atriz, diretora, artista visual, coreógrafa e mulher de Cavi), viajando, trabalhando com videoarte e videodança. O celular virou câmera e instrumento de registro: é leve, rápido e hoje consegue alcançar uma qualidade muito alta. Para mim, talvez seja a grande mudança na realização. Se formos pensar em exibição e distribuição, aí as mudanças são imensas: teve o fortalecimento do streaming e, com ele, a criação de novos hábitos de assistir e consumir cinema.
Você está com dois longas inéditos prontos. O que pode adiantar sobre eles?
Temos dois longas da Cavídeo prontos e estamos esperando um festival legal para estreá-los. Um é "Andrômeda", que dirigi com a Patrícia e nasceu do que aconteceu comigo durante a pandemia, quando tive covid e fui intubado. Pegamos esse fato real e imaginamos como se eu tivesse ido para outro planeta, que chamamos de Andrômeda. Criamos uma ficção a partir dessa situação verídica. O outro é "Procurando Maya Deren", da Patrícia, do qual sou produtor e corroteirista. Mistura videoarte, performance, cinema e arquivo. Estamos tentando festivais internacionais. Serão dois filmes que vamos circular bastante em 2027.
E o que você pretende dirigir e produzir daqui para a frente?
Neste momento, estou me dedicando muito ao Cine Brasil TV. Assumimos a coordenação do canal, que tem 22 anos era da Teresa Trautman, e estamos fazendo uma reformulação. Estou produzindo séries, filmes e telefilmes para o canal, muita coisa. Ele se tornou um lugar novo para pensarmos outras formas de produção, para além do cinema e dos festivais, entrando também na TV por assinatura. (R. F.)
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