28° Festival do Rio

'Overman' se 'sganzerla' e decola no barato transgressor da Laerte

'Overman' se 'sganzerla' e decola no barato transgressor da Laerte
Caco Ciocler é um super-herói em crise existencial Crédito: Divulgação/ Migdal

Um ano depois de ter reinado soberano na Première Brasil, bem pacas numa série de longas (a se destacar “A Vida De Cada Um”), Caco Ciocler viveu momentos de Michael Keaton na delícia que é “Overman”, que funciona na telona como se fosse um exemplar da revista “Mad” em forma de filme. Tomás Portella teve um cuidado que pouquíssimos cineastas (Ang Lee é o mais notório) têm ao adaptar HQs: incorporar no plano, pelas vias dos enquadramentos, a estética das artes gráficas. Seu filme parece uma tirinha viva, graças à sagacidade de Cláudio Amaral Peixoto na direção de arte, em sintonia com os quadrinhos da Laerte. Talento que ainda não desfruta do prestígio merecido, o diretor de “Desculpe O Transtorno” (2016) e “Operações Especiais” (2015) se embrenha pelas HQs da Laerte a fim de dar ao nosso cinema um super-herói que seria reprovado pelos Vingadores e faria o Deadpool passar vergonha.

Assim mesmo, o Overman de Caco Ciocler é chamado pelo governador do Rio para a Secretaria de Segurança Pública. Diante do talento magistral de seu protagonista, essa convocação é justificável. E dela há de brotar um mar de risos. Caco faz de seu vigilante uma mistura de Hellboy com o Pacificador de John Cena. Victor Lamoglia rouba muitas cenas pra si (como já é seu costume) no papel de um Robin comunista. Já Karina Ramil faz da Mulher-Cachorro uma Mulher-Maravilha subtropical cheia e empoderamento e graça. O que ela entrega é algo de destemido, assim como Maria Lucas (no papel de uma celebridade midiática) numa mirada crítica para o heroísmo que mais parece Chapolim Colorado, só que com ação a granel.  


A inclusão dessa iguaria no Festival do Rio celebra a antropofagia essencial ao evento. É uma narrativa que se sganzerla bem no diálogo com Laerte, um signo trans. Sua obra (e sua vida) são transgressão pura. “Overman” segue nesse barato, vestido por Reka Koves e Nathalia Campos, que dão aula de saber pop na confecção dos figurinos.