Uma das piadas mais divertidas (e incorretas) de "Cavalo Selvagem Nove" ("Wild Horse Nine") envolve a insistência do veterano agente da CIA (especialista em matar) Chris (John Malkovich) em falar em Ilha de Páscoa, com deboche, para se referir a Rapa Nui e suas estátuas, em solo chileno. Xenófobo, ele desfila uma acidez à moda estadunidense que associa esse misto de thriller político e comédia ao desgoverno Trump de 2026.
Por onde passa, o longa-metragem vira um ímã de aplausos, em especial para a figura de Chris e seu intérprete. Vai ter sessão dele nesta segunda, no Festival do Rio, às 14h, no Est. Claro Rio 5, com projeção na quarta, às 21h15, no Reserva Cultural. Cada passagem do filme em terras cariocas amplia a torcida nacional para que Malkovich vença, enfim, a corrida pela estatueta dourada de Hollywood. O Festival de Veneza deu a ele a Copa Volpi de Melhor Interpretação, no mês passado.
Um dos enigmas mais indecifráveis do cinema é a ausência de um Oscar no currículo deele. Essa esfinge pode cair por terra agora, com "Cavalo Selvagem Nove", que leva o astro ao Chile de 1973, o ano do golpe que derrubou o sonho de Salvador Allende. Seu realizador, o dramaturgo e cineasta Martin McDonagh (de "Três Anúncios Para Um Crime"), não é hermano, e, sim, um inglês nascido em Londres, mas Malkovich (numa interpretação forjada para lhe valer um Oscar), vive uma fase de investigação das cicatrizes governamentais do Chile. Nosso vizinho de continente é tema de peças recentes que o ator tem feito pelo mundo, inclusive no Theatro Municipal, onde encenou "The Infamous Ramirez Hoffman".
No longa de McDonagh, cujo roteiro satiriza o intervencionismo da CIA no globo terrestre, o bom e velho Valmont de "Ligações Perigosas" (1988) cria Chris Carlisle como um operativo já cansado de guerras (e de suas feridas) que vislumbra horizontes fardados a marchar pelo Novo Mundo, numa viagem à Ilha de Páscoa com seu parceiro Lee (Sam Rockwell, divo do diretor). A trama vem sendo descrita como comédia crepuscular. Há um chefe já fatigado em relação aos abusos de Chris, vivido por Steve Buscemi, que almeja liquidar seu antigo aliado.
Na sexta, dia 9, às 16h30, vai rolar mais uma exibição de "Cavalo Selvagem Nove" no Festival, no São Luiz.
DICAS DO FESTIVAL DO RIO
DAU, de Ilya Khrzhanovsky (Rússia): Este inventário das cicatrizes da URSS saiu coroado com o troféu de Melhor Realização do Festival de Veneza. Lá, foi apelidado de “O ‘Oppenheimer da Rússia’ por se desenrolar, em grande parte, dentro de um instituto soviético de pesquisa fechado, onde a hierarquia científica, os privilégios e a vigilância constante determinam a existência de um povo. Onde: Cinesystem Belas Artes, às 13h.
A BOLA PRETA ("La Bola Negra"), de Javier Calvo e Javier Ambrossi (Espanha): Se você não teve a chance de ver a abertura do Festival, na quinta, a hora e a vez é agora, pois é a sessão final na maratona. É um épico queer centro na saga afetiva de três homens, entre 1932, 1937 e 2017. Onde: Odeon, 18h45
LITERALMENTE NU ("Truly Naked"), de Muriel D'Asembourg (Belgica): É um delicado estudo sobre o erotismo no cotidiano. Um rapaz que cresceu em Londres em um universo cercado de pornografia passa por uma reeducação sentimental numa cidade litorânea. Onde: Estação Claro Rio 3: 20h45
Menu