Cinema

Pelas frestas da existência

Festival do Rio celebra os 25 anos de 'Janela da Alma', marco do documentário nacional que tratou o olhar como arte, como sina existencial e como espelho libertário da razão

Pelas frestas da existência
Reflexões inerentes a 'Ensaio Sobre a Cegueira' levaram José Saramago ao filme 'Janela da Alma' Crédito: Divulgação

Tem filme que envelhece. Tem filme que vira documento de uma época. E tem filme que, danado, continua olhando de volta para a gente. "Janela da Alma" pertence a essa terceira espécie. Vinte e cinco anos depois de João Jardim e Walter Carvalho colocarem uma pergunta aparentemente simples diante da câmera — afinal, o que significa ver? —, o longa ganha uma sessão comemorativa nesta segunda-feira, às 21h30, no Centro Cultural FGV (Praia de Botafogo, 190), dentro do Festival do Rio.

A festa acontece numa edição em que a maratona cinéfila carioca revisita também a obra em curtas-metragens de Wim Wenders, justamente um dos sujeitos que sentaram diante das lentes da dupla brasileira para filosofar sobre olhar, realidade e cinema.

Restaurar e preservar "Janela da Alma" é mais do que tirar o pó de um sucesso. É garantir acesso a um filme que ajudou a mudar nossa maneira de entender o documentário. Há ali uma reflexão sobre a arte de ver e a artimanha de enxergar, mas existe também uma aula sem quadro-negro sobre montagem, fotografia, silêncio, palavra e tempo. Mantê-lo vivo é, portanto, um exercício de inclusão: significa permitir que outras gerações participem de uma conversa humanista sobre a arte que começou há um quarto de século e ainda não acabou.

E pensar que esse ensaio sobre olhos, miopia, cegueira e percepção virou sucesso de bilheteria. "Janela da Alma" passou por festivais como Cannes e Karlovy Vary, rodou Rússia, Estados Unidos, México e Uruguai e conseguiu uma proeza para o documentário brasileiro daquele começo de milênio: ficou 48 semanas em cartaz e chegou a cerca de 160 mil ingressos vendidos. Isso numa época em que "Homem-Aranha" e "Harry Potter" tratavam as salas de cinema como quintal de casa.

Depois, vieram as escolas. Vieram as universidades. Vieram espectadores que talvez nem fossem nascidos quando João e Walter resolveram transformar uma inquietação particular em cinema. Jardim, muito míope desde criança, começou o projeto querendo investigar como o fato de não enxergar direito havia influenciado sua vida. Logo percebeu que a conversa era grande demais para caber apenas nos próprios óculos.

Ele e Walter foram atrás de gente que sabia enxergar o mundo de tudo quanto era jeito. Estão lá José Saramago, único Nobel da Literatura em língua portuguesa, a cineasta Agnès Varda, Hermeto Pascoal, Wim Wenders e o fotógrafo cego Evgen Bavcar. Em vez de oferecer uma resposta pronta, "Janela da Alma" monta uma roda de conversa sobre a quilometragem que separa olhar de compreender.

"Na distância entre aquilo que se vê e aquilo que se deduz reside uma certa poesia que a gente chama de cinema", dizia Walter Carvalho na época do lançamento. A frase serve como uma bela bula para o filme.

Só que "Janela da Alma" não queria ser bula de nada. Sua força estava justamente em escapar do didatismo que tantas vezes engessava o documentário. João e Walter tinham fatos, depoimentos e personagens extraordinários nas mãos, mas não estavam interessados apenas no que aquelas pessoas diziam. Queriam saber como respiravam antes de falar. Como paravam. Como olhavam. Como o suor aparecia na pele. Como um silêncio poderia dizer uma barbaridade de coisas.

Wim Wenders percebeu isso. O alemão de "Paris, Texas", Palma de Ouro de Cannes em 1984, elogiou justamente a maneira como os brasileiros sabiam usar o silêncio. Para ele, a velha cerca entre ficção e documentário já estava arrebentada havia tempos: a ficção ficava mais adulta quando permitia que a realidade entrasse sem bater e bagunçasse a sala.

É bonito, portanto, que Wenders esteja duplamente presente nesta edição do Festival do Rio. Enquanto "Janela da Alma" sopra suas 25 velinhas, a produção em curtas-metragens do alemão está em revisão na programação da maratona cinéfila carioca. Um diálogo iniciado diante da câmera em 2001 reaparece agora na tela grande.

Naquela virada de século, isso tudo tinha um peso particular. O planeta começava a descobrir que a intimidade podia virar espetáculo. "Truman Show - O Show da Vida", de Peter Weir, já havia dado o alerta em 1998. Vieram os reality shows, o "Big Brother", a internet e uma vontade quase compulsiva de espiar a vida dos outros. Ao mesmo tempo, filmes como "Amores Brutos", de Alejandro González Iñárritu, e "O Círculo", de Jafar Panahi, injetavam doses cavalares de realidade dentro da ficção.

O documentário pegou carona nessa fome pelo real e saiu do cantinho dos canais educativos para encarar o circuitão. "Janela da Alma" entrou nessa onda sem surfar moda nenhuma. Tinha personalidade própria. Parecia documentário, flertava com cinema experimental e às vezes avançava como literatura em fluxo de consciência.

Basta lembrar Evgen Bavcar. Cego, ele fotografava tocando o rosto de seus modelos, cartografando pelo tato aquilo que os olhos não podiam alcançar. Poucas imagens explicam tão bem o que João Jardim e Walter Carvalho estavam procurando. Bavcar ignorava a capa para entrar no miolo do livro.

Talvez seja essa a razão de "Janela da Alma" ter atravessado 25 anos sem virar peça de museu. O filme entrou para a relação dos 20 grandes documentários brasileiros da Abraccine, mas sua verdadeira consagração está no tanto de gente que aprendeu alguma coisa com ele. Jardim e Carvalho seguiram caminhos que saltaram da ficção ao documentário e vice-versa, mas nunca fecharam aquela janela.

Ainda bem. Porque, em outubro de 2026, quando somos soterrados por imagens a cada segundo, preservar um filme que pergunta se olhar é realmente enxergar deixou de ser apenas uma questão de memória cinematográfica. Virou necessidade. "Janela da Alma" guarda um pedaço do Brasil, um quinhão do mundo e uma geografia feita de afeto. Nesta segunda, aos 25 anos, abre-se outra vez para quem quiser olhar. E, sobretudo, para quem ainda estiver disposto a ver.