Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Duas vezes laureado com o Oscar de Melhor Filme Internacional, Asghar Farhadi teve a chance de vislumbrar as águas de Copacabana, in loco, a convite do Festival do Rio, onde chegou na sexta-feira, com o compromisso de badalar "Contos Paralelos" ("Histoires Parallèles"), que passa na cidade nesta terça, às 16h, no Estação. Claro Gávea. O diretor iraniano, aclamado até em Hollywood com "A Separação" ("Jodaeiye Nader az Simin", 2011) e "O Apartamento" ("Forushande", 2016), participou, no sábado de uma aula aberta no Armazém da Utopia, antes de seguir para Niterói, onde acompanhou a exibição de seu longa no Reserva Cultural.
Distribuído no Brasil pela Imovision, "Contos Paralelos" foi um dos concorrentes à Palma de Ouro em Cannes, marcando a reaproximação de Farhadi com Paris, cidade onde rodou "O Passado" ("Le Passé") há 13 anos. O curioso é que a França não era o destino original da produção. O cineasta pretendia filmá-la em Nova York, mas abandonou o plano depois de procurar locações nos Estados Unidos e perceber que aquela geografia não pertencia à história que queria contar. Paris acabou por lhe oferecer não apenas familiaridade — Farhadi viveu ali durante três anos com a família —, mas uma espécie de cenário natural para uma trama sobre cinema, literatura, imaginação e voyeurismo.
Isabelle Huppert interpreta Sylvie, escritora em crise criativa que observa secretamente os vizinhos do prédio em frente em busca de personagens para um novo romance. A entrada do jovem Adam (Adam Bessa) em sua vida faz desmoronar a separação entre criação e experiência. Vincent Cassel, Catherine Deneuve, Virginie Efira, Pierre Niney e India Hair completam o elenco. Fotografado por Guillaume Deffontaines, colaborador habitual de Bruno Dumont, o longa prolonga a investigação moral que fez do iraniano um dos cineastas mais celebrados deste século. Desta vez, porém, o dilema passa pelo direito de olhar para o outro e, sobretudo, pelo direito de transformar sua intimidade em ficção.
Às vésperas de encontrar o público carioca, Farhadi falou ao Correio da Manhã de seus laços com Paris e explicou por que seus filmes europeus continuam a lhe parecer iranianos.
"Contos Paralelos" seria originalmente rodado em terras americanas. Por que a história acabou encontrando seu lugar em solo parisiense?
Asghar Farhadi - No começo, o plano era fazer o filme em Nova York. O produtor era americano e planejávamos filmar lá. Mas, quando fui aos Estados Unidos e comecei a procurar locações, percebi que a história não tinha nenhuma ligação com Nova York ou com aquele ambiente. Então, transferi o projeto para a França e para Paris. Vivi lá durante três anos com a minha família e, portanto, era um lugar muito mais familiar para mim.
O que Paris acrescentou à dramaturgia?
Paris é uma cidade mais ligada ao cinema do que muitos outros lugares. E este filme fala sobre ficção, fala sobre romances, sobre escrita e sobre cinema. Para uma história assim, é o melhor lugar do mundo.
Ao filmar em francês e dentro de outra paisagem cultural, existe o risco de perder alguma coisa da identidade que construiu em seus filmes iranianos?
Fiz três filmes fora do meu país e, à primeira vista, eles não são iranianos. São filmes estrangeiros. Mas a origem dos três é iraniana. O conceito, a maneira como trabalho e a atenção que dou aos detalhes vêm da minha cultura. A origem é iraniana, mesmo que o olhar exterior não seja. Quando trabalho na França, tento fazer um filme que pareça francês. Mas, se você entrar numa outra camada, ainda existe ali alguma coisa que vem do Oriente, que vem do Irã. Quando vejo este filme não como cineasta, mas como espectador, ele ainda me parece um filme iraniano. A língua é francesa, as relações são francesas, tudo é francês, mas a maneira de olhar para as relações entre as pessoas é iraniana.
Antes desta passagem pelo Festival do Rio, que imagem você tinha do Brasil?
Pensava no Brasil como um país muito colorido. Não sei exatamente por quê. Antes de vir para cá, pensava: "Estou indo para um país muito colorido". Talvez isso venha do futebol, daquele amarelo tão particular que vemos associado ao Brasil.
E qual era a sua relação com o nosso cinema?
Vocês têm um cinema muito bom. Vi alguns filmes brasileiros. O último que assisti foi "Ainda Estou Aqui". As atuações são muito boas, muito boas mesmo, assim como a maneira de narrar. Também conheço filmes anteriores, como "Cidade de Deus". Tenho alguns amigos brasileiros que trabalham com cinema e são muito talentosos.
Há alguma proximidade entre os profissionais brasileiros que conhece e artistas iranianos?
Eles fazem-me lembrar as pessoas da indústria cinematográfica iraniana. Quando converso com brasileiros, sinto algumas questões parecidas — não diria exatamente problemas, mas a maneira como olham para o cinema por vezes se aproxima muito daquela que encontro entre os jovens realizadores iranianos.
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