28° Festival do Rio

'Funk' é o primeiro pancadão da Première Brasil 2026

'Funk' é o primeiro pancadão da Première Brasil 2026
"Funk" veio do Festival de Tribeca Crédito: Vincent Rosenblatt

Foi preciso o Festival do Rio decorar o endereço dos bailes – e cair no batidão - para que se ouvisse o primeiro “Wow!” da plateia diante de um concorrente de ficção da Première Brasil de 2026. O responsável pelo espanto é “Funk”, de Aly Muritiba, que transforma a geografia carioca em território de enfrentamento ao machismo e encontra em Duda Santos uma protagonista de presença explosiva. Mais do que respaldada pelo êxito conquistado na TV, a atriz chega ao cinema com potência de estrela no papel de MC Sabrina, uma jovem disposta a peitar o sexismo dentro e fora dos bailes para conquistar seu lugar como nova ave canora funkeira.

Diretor dos cultuados “Para Minha Amada Morta” (2015) e “Deserto Particular” (2021), Muritiba filma um Rio que não lhe pertence geograficamente, mas do qual procura se aproximar pela pulsação do funk e pelas relações familiares. Sabrina encontra sua principal âncora em Priscilla, mãe vivida por MC Nem. É uma relação de afeto, tensão e interferência profissional que dá musculatura dramática ao longa, produzido por um time que reúne nomes como Heitor Dhalia e Manoel Rangel.


Egresso do Festival de Tribeca, em NY, “Funk” chega ao páreo depois de a disputa oficial pelo Redentor desta temporada ter sido inaugurada por três vozes autorais de gerações distintas, todas com experiências no documentário. Primeiro veio Emília Silveira, todo-poderosa, com seu “Uma Missa para Dom Angélico”, que pode ser definido como investigação neorrealista (com ecos do “Evangelho Segundo São Mateus”, de Pasolini) sobre esperança. Na sequência, apareceu uma Lucia Murat on the road com “O Sertão das Nossas Memórias”. Por fim, chegou Guilherme Coelho, com “Oceânico”. Tudo isso na sexta.


A saga de Dom Angélico, feito pela realizadora de “Setenta” (2013) e “Callado” (2017), parte já do nascimento dele numa família pobre e se destaca no seu apoio aos movimentos sociais que eclodem no final dos anos 1950. É a saga de como ele vira o bispo dos oprimidos e das passeatas, da luta por mais moradia e melhores condições de vida para os trabalhadores. Ele comandou multidões nas missas por direitos humanos. No jornalismo, informou comunidades com o Grita Povo. Perseguido pela ditadura militar, enfrentou a polícia, foi detido e ameaçado várias vezes, mas nunca se calou. Viveu 92 anos acreditando em Deus e na democracia. O trabalho de edição é de uma precisão helvética


Com Dudu Miranda na fotografia, a aclamada diretora de “Quase Dois Irmãos” (2004) se lança num road movie que viaja do Rio de Janeiro ao sertão da Bahia. Com a ajuda de três sobreviventes, a produção revisita um massacre de 1971, ocorrido sob a ditadura militar. O ataque tirou a vida do capitão Carlos Lamarca — inimigo público número um do regime — e de José Campos Barreto (Zequinha), líder comunitário e ex-dirigente de uma greve operária.

Já “Oceânico”, fotografado por Flora Dias, leva Guilherme Coelho, realizador de “Fala Tu” (2003), por inesperadas veredas da ficção científica e do thriller, numa combinação que embatuca. Ana Carbatti vive Adyr, cientista que, após perder o marido para o alcoolismo, encontra na medicina psicodélica uma possibilidade de tratamento da doença e acaba ameaçada por interesses em torno de sua pesquisa.

Coelho surpreende ao dialogar elegantemente com um dos filões menos explorados pela dramaturgia brasileira, a sci-fi, mas sem se aprisionar às convenções do gênero. “Oceânico” prefere o drama social, expondo racismo, violência e avanço miliciano. Bate na trave do didatismo “palestrinha” aqui e ali, mas encontra sua força na sagacidade de Carbatti e na investigação das angústias de sua personagem. Deu ao público uma arrancada sólida.

É “Funk”, porém, que até agora produz o primeiro abalo de temperatura na disputa. Muritiba encontra no corpo, na voz e na insolência de Duda Santos uma personagem capaz de converter uma batalha íntima por autonomia em espetáculo popular. MC Sabrina quer ser ouvida. No Festival do Rio, conseguiu.


A micareta cinédila do RJ vai até o dia 11 de outubro.