28° Festival do Rio

'Diários de Nagi', uma iguaria japonesa no sabor da empatia

'Diários de Nagi', uma iguaria japonesa no sabor da empatia
"Diários de Nagi" concorreu à Palma de Ouro de Cannes Crédito: Divulgação

Uma das localidades japonesas que mais conseguiram regular seus índices de natalidade nas últimas duas décadas, Nagi tem cerca de 6 mil habitantes e fica ao norte de Okayama, numa região de montanhas que por anos fizeram dela um destino turístico. Desde maio, porém, ganhou outra dimensão no mapa: virou estrela de cinema. Foi no dia 14 daquele mês que o belíssimo “Nagi Notes” (“Diários de Nagi”), de Koji Fukada, chegou ao Palais des Festivals para disputar a Palma de Ouro de Cannes. Agora, o longa integra o Panorama Mundial do Festival do Rio, que se encerra no próximo domingo, 11 de outubro. Tem sessão dele aqui, neste dia de eleição (4 de outubro), às 14h15, no Estação Claro Rio 4. Depois, ele volta à tela no sábado, dia 10, às 20h, no CineCarioca José Wilker 2.


Realizador de “Harmonium” (2016) e “Kantai” (2010), Fukada encontrou naquela pequena comunidade rural muito mais do que uma paisagem. Nagi funciona como cenário, personagem e laboratório social para uma narrativa sobre solidão, criação artística e os caminhos que deixamos de seguir. “Um lugar com muitas restrições também pode oferecer liberdades que não existem numa cidade grande. Vivi cerca de um ano em Nagi e experimentei essa sensação de ser livre e, ao mesmo tempo, perceber as limitações”, disse Fukada ao Correio, em Cannes.

Interpretada por Shizuka Ishibashi, Yuri é uma arquiteta que deixa Tóquio após o fim do casamento e procura abrigo junto à ex-cunhada Yoriko (Takako Matsu), uma escultora instalada em Nagi. A permanência, inicialmente provisória, muda de natureza quando Yuri aceita posar para uma escultura. Entre sessões, silêncios e conversas, as duas reabrem gavetas afetivas que pareciam fechadas e confrontam perdas, escolhas e, sobretudo, as vidas que poderiam ter vivido. Fukada encontra uma tradução visual para esse estado de suspensão na fotografia de Hidetoshi Shinomiya e na montagem de Sylvie Lager. Seu interesse não está na arte como resultado, mas no gesto que antecede sua conclusão. Esculpir, desenhar ou filmar tornam-se maneiras de olhar.

“O processo de criação de uma obra de arte é um exercício de observação do mundo em alta definição. Fazer arte é parte da vida cotidiana, embora o espetáculo construído em torno dela nos leve a pensar o contrário. Por isso, meu foco não está nas obras terminadas, mas naquelas que ainda estão sendo construídas”, explica o diretor.

Há ecos de mestres autoralíssimos como Yasujir Ozu e Mikio Naruse nessa capacidade de fazer a dramaturgia respirar através de casas, distâncias, silêncios e pequenos movimentos, uma filiação que Fukada reconhece com reverência, sem ousar equiparar-se aos mestres. Na sua avaliação, ambos transformaram a câmera numa presença quase transparente e souberam estabelecer uma relação orgânica entre personagens e espaços. Em “Nagi Notes”, o cineasta procura um princípio semelhante, fazendo da vila “um organismo no qual cidade e campo se contrastam, mas também se combinam”.

É nesse organismo que o íntimo se torna político. A aparente placidez rural não impede Fukada de encontrar as pressões de uma sociedade patriarcal e mecanismos cotidianos de exclusão. Nagi pode proporcionar liberdades difíceis de encontrar na metrópole, mas também impõe limites, sobretudo a quem não se encaixa nos padrões estabelecidos. O realizador define essa camada do roteiro como uma investigação das “microfísicas de uma sociedade patriarcal”, marcada pela opressão e pela invisibilização de indivíduos vulneráveis à intolerância.

Nada disso transforma “Nagi Notes” num tratado. Fukada prefere corpos, paisagens, gestos e pausas. Aquilo que poderia virar discurso reaparece como experiência sensorial, sobretudo na intimidade construída entre Yuri e Yoriko. Esculpir alguém exige observá-lo. Posar significa aceitar ser observado. Desse jogo nasce uma proximidade que permite às duas mulheres reorganizar suas perdas sem que o roteiro precise oferecer soluções fáceis.

Talvez seja por isso que Nagi se ajuste tão bem à filmografia do diretor. A vila concentra a contradição entre acolhimento e isolamento que atravessa seu cinema. Se “Nagi Notes” fala de relações interrompidas, desejos abafados e vidas que tomaram rumos diferentes daqueles imaginados, sua questão central não parece ser como eliminar a solidão, mas como aprender a compartilhá-la.

“A solidão é o mote de todos os meus filmes. Observo o Japão em busca daquilo que pode nos tornar menos solitários”, resume Fukada.


Em “Nagi Notes”, Cannes descobriu essa procura no lugar aparentemente improvável de uma pequena vila entre montanhas. Na reta final de sua edição de 2026, o Festival do Rio oferece ao público carioca a oportunidade de percorrê-la.