Cinema

Vozes do Brasil na telona

Documentários sobre Elza Soares, Belchior, Aldir Blanc, Maria Alcina, Flora Purim e Airto Moreira, Alceu Valença, Ney Matogrosso e Marília Mendonça integram a Première Brasil do Festival do Rio

Vozes do Brasil na telona

Affonso Nunes

Na 28ª edição do Festival do Rio, que ocupa as salas da cidade de 1º a 11 de outubro, a Première Brasil selecionou 110 títulos entre quase 1.500 inscritos, com 45 deles disputando o Troféu Redentor. Em meio a essa safra, um filão se destaca pela densidade: a música brasileira transformada em documentário. Oito obras atravessam a mostra principal — duas em competição, cinco na mostra Retratos e uma em hors-concours —, além de uma série, e traçam, juntas, um mapa que vai do funk carioca à jazz-fusion, dos anos 70 à era dos streaming.

Na competição de documentários, dois pesos pesados. Em "Elza", de Eryk Rocha, é a própria Elza Soares quem narra o filme: um diário tecido por memórias, desejos e reflexões a partir da música, em confluência com filmes brasileiros históricos. Pela voz radical, a improvisação visceral e a rouquidão inconfundível da mulher do fim do mundo, o longa chega a uma radiografia do país em quase um século de vida dela. "Alucinação", de Marcos Caetano, Renato Terra e Leo Caetano, parte do cancioneiro antológico de Belchior — "Como Nossos Pais", "Rapaz Latino-americano", "Sujeito de Sorte", "Velha Roupa Colorida" — para reviver as cores e os conflitos dos anos 70 e colocar a pergunta que ecoa até hoje: em que momento acabaram as utopias e começaram as distopias?

A mostra Retratos abre o álbum de recordações. Tem "Aldir Blanc - Resposta ao Tempo", de Marcus Fernando e Hugo Sukman. "Alegria Brasil, estrelando Maria Alcina", de Elizabete Martins Campos, faz a cantora atravessar a própria tela de cinema e se projetar num portal atemporal, revisitando a trajetória que se cruza com a história do Brasil. "Flora & Airto: O Som Revolucionário", de Jom Tob Azulay, resgata o casal Flora Purim e Airto Moreira, pioneiros da jazz-fusion que marcaram a música brasileira e mundial a partir dos anos 70, entrelaçando passado e presente durante uma gravação nos dias de hoje. E "Vivo 76", de Lírio Ferreira, volta a 1976 para decompor o terceiro álbum de Alceu Valença, o "Vivo!", retratando o nascimento da cena psicodélica pernambucana, seus personagens fantásticos e os primeiros voos rumo ao Rio e ao sucesso.

Na vitrine das séries, "Marília Mendonça: Sentimento Louco", de Susanna Lira, persegue uma pergunta simples e incômoda — o que torna uma garota comum do coração do Brasil um fenômeno? A série acompanha, por imagens, áudios e entrevistas inéditas, a ascensão meteórica da cantora que começou a carreira num posto de gasolina. E, em hors-concours, "Ney por Trás das Máscaras", de Esmir Filho com direção convidada de Thais Guisasola, segue Ney Matogrosso durante a preparação do desfile da Imperatriz Leopoldinense, transformando o Carnaval em território de descobertas sobre identidade, liberdade e finitude — um Ney íntimo, revisitando as escolhas que o moldaram.

Entre um documentário e outro, a ficção confirma a simbiose: "Funk", de Aly Muritiba, acompanha a funkeira MC Sabrina no Morro dos Prazeres, filha de uma pioneira que perdeu tudo, disputada por um produtor que exige dela a renúncia às próprias raízes. Juntas, as obras de diferentes gerações, gêneros e cidades lembram que a canção brasileira sempre foi documento — agora, também, é fatura.

SERVIÇO

FESTIVAL DO RIO 2026

De 1º a 11 de outubro, em salas de todo o Rio

Programação: https://www.festivaldorio.com.br/br/programacao

Ingressos a R$ 32 e R$ 16 (meia); pacote de 8 ingressos por R$ 96 e de 4 por R$ 52; sessões populares de manhã e tarde no Cine Odeon a R$ 10 (www.ingresso.com)