Cinema Brasileiro

'Decidi que vou viver até os 117 anos'

'Decidi que vou viver até os 117 anos'
Ruy Guerra Crédito: Editora Cobogo


Aos 95 anos, completados em 22 de agosto, Ruy Guerra ocupa uma posição quase sem paralelo no cinema mundial: é um dos realizadores de maior longevidade ainda em atividade e, mais do que isso, continua produtivo. Não vive apenas da administração de um patrimônio cinematográfico iniciado nos anos 1960. Ainda filma, escreve, pensa novos projetos e revê esteticamente o país que ajudou a colocar nas telas do Cinema Novo.

A partir desta terça-feira (29), o tamanho dessa caminhada poderá ser medido na Caixa Cultural Rio de Janeiro, onde a "Retrospectiva Ruy Guerra - Uma Vida de Cinema" reúne 17 longas dirigidos por ele e dois documentários sobre sua trajetória, com entrada gratuita, até 16 de outubro. A seleção atravessa 62 anos, de "Os Cafajestes" (1962) a "A Fúria" (2024), seu trabalho mais recente.

Moçambicano de nascimento, formado em cinema em Paris e radicado no Brasil desde 1958, Ruy ajudou a construir o Cinema Novo ao lado de Glauber Rocha e Cacá Diegues. "Os Fuzis" (1964), seu segundo longa, conquistou o Urso de Prata em Berlim e tornou-se um dos pilares do movimento.

Mas reduzir Guerra a essa geração seria contrariar a própria inquietação que o manteve filmando. Sua obra atravessou continentes, regimes políticos, transformações tecnológicas e linguagens, aproximando cinema, teatro, literatura, poesia e música. Foi parceiro de Chico Buarque, Edu Lobo, Francis Hime, Sérgio Ricardo e Milton Nascimento; adaptou Gabriel García Márquez, Antonio Callado e Chico; escreveu dramaturgia, poemas e crônicas.

É justamente essa multiplicidade que torna a retrospectiva mais do que uma coleção de clássicos. Estão lá "Os Cafajestes", "Os Fuzis", "Os Deuses e os Mortos", "A Queda", "Erêndira", "Ópera do Malandro", "Kuarup", "Estorvo", "O Veneno da Madrugada", "Quase Memória" e "A Fúria", entre outros. Uma das atrações mais raras é "Ternos Caçadores" (1969), produção francesa que volta em cópia restaurada em 4K. A programação inclui ainda "O Homem que Matou John Wayne" (2015), de Bruno Laet e Diogo Oliveira, e "Tempo Ruy" (2021), de Adilson Mendes, dois documentários dedicados ao cineasta.

Faz tempo (ponha aí este século inteiro, desde 2000) que o cineasta se enfurnou na metafísica que existe entre a plenitude da Matemática e as acelerações da Física. Foi parar lá quando idealizou "Estorvo", pelo qual foi indicado (pela terceira vez) à Palma de Ouro, 26 anos atrás. Nesse espaço, ele vem caçando novas formas algébricas de falar de "amor" e de "sonho". O primeiro substantivo é a argamassa de suas canções, como compositor. O segundo é o alicerce de todos os seus filmes, tanto aqueles fincados no realismo (como "Portugal S.A." e "Kuarup"), quanto os mais flutuantes (o febril "Quase Memória"). É o indício de que sua dramaturgia tem vértices na geometria da abstração. Não por acaso, ele levou o Cavaleiro da Triste Figura ("Dom Quixote") aos palcos duas vezes, em 2007 e em 2023.

Trabalho mais recente (e incandescente) do diretor, "A Fúria" se mantém... plasticamente, sobretudo... nessa linha de desafiar a concretude do real (e de seu par dramatúrgico, o realismo), assumindo um formato de fractal, entre a fábula e um encapsulamento teatral do plano. Colabora para isso o uso do video mapping (projeção de imagem em larga escala) a fim de construir cenários, reproduzindo geografias diversas. Lembra "Sin City" (2005), até certo ponto, só que de uma brasilidade latente, de colorido pulsante. Tal engenho, contudo, não cria ilusões. O lado brechtiano que Ruy carrega consigo convida a um perene distanciamento do que é ilusório, sobretudo da retórica partidária.

Por isso, sua razão de ser é política, o que dá ao seu roteiro um tom de charge e um ethos de alegoria moral. Conversa mais com um certo Pasolini dos anos 1960 e 70 (entre "Pocilga" e "Os Muros de Sana") e com "O Inspetor Geral", de Gogol, do que com os exercícios audiovisuais do presente. Carrega ainda um certo elogio ao tempo, ao rever (e reviver) o Cinema Novo, o movimento de modernização de nosso discurso estético (na tela grande) do qual Ruy foi um dos pilares.

Filmado no Polo do Audiovisual, em Jacarepaguá, "A Fúria" testemunha o empenho de Mário na peleja por um acerto de contas com dois poderosos que o traíram - e, de forma simbólica, deram uma rasteira no "sonho brasileiro", a nossa maior ficção. Um deles é seu sogro, hoje um barão da construção civil, Salatiel (Lima Duarte, em estado de graça), bilionário que financia campanhas parlamentares. Um de seus apoiadores é o outro traidor: Feijó (Daniel Filho), candidato à presidência da Câmara dos Deputados. A atuação de Daniel é de um viço raro.

"A Fúria" fecha uma construção cinematográfica iniciada seis décadas antes. Mário apareceu em "Os Fuzis", no sertão baiano, e voltou em "A Queda", quando Ruy transportou a discussão sobre exploração para os canteiros de obras do Rio de Janeiro. O terceiro longa ressuscita literalmente o personagem, agora vivido por Ricardo Blat, para cobrar uma dívida histórica. O filme teve sua primeira exibição pública no Festival de Brasília de 2024 e chegou comercialmente aos cinemas brasileiros em abril deste ano.

A longevidade dessa trilogia talvez ofereça a melhor medida da longevidade artística de Guerra. Poucos cineastas podem reencontrar um personagem criado na juventude e fazê-lo regressar quando o próprio realizador se aproxima do centenário. Menos ainda conseguem transformar esse intervalo numa parte da dramaturgia. Em Ruy, o tempo não é somente aquilo que separa os filmes: é matéria do cinema.

Antes mesmo de se tornar cineasta, Guerra quis ser escritor. A palavra permaneceu como uma espécie de segunda câmera de sua trajetória. Em "20 Navios", livro que reúne crônicas originalmente escritas para O Estado de S. Paulo, memória, cotidiano, política e deslocamento aparecem atravessados pela experiência de um homem dividido — ou multiplicado — entre Moçambique, Portugal e Brasil.

Essa geografia afetiva já aparecia na poesia. Em "Meu País", escrito em Moçambique em 1981, Guerra transforma a ideia de pátria em algo impossível de prender num mapa. Depois de procurar o país no vento, nas acácias, na mulher e na esperança, chega a um verso que parece sintetizar boa parte de seu cinema: "Na verdade eu só tenho como país essa insônia teimosa dentro de um sonho vivo."

Duas décadas antes, já instalado no Rio, o poema "E Assim Sendo" (1960) misturava amor, boemia e cidade numa imagem que parece antecipar sua relação futura com o cinema brasileiro: "A nossa hora, a do leite de porta em porta e dos jornais ainda húmidos". O poeta escreve sobre beijos que sobrevivem à separação dos corpos. O cineasta passaria a carreira inteira procurando imagens capazes de sobreviver ao desaparecimento do tempo.

Não surpreende que, no catálogo preparado para a retrospectiva, Ruy defina a palavra como centro de seu processo criativo. "Sempre tive uma paixão muito grande pela palavra. Queria ser escritor antes de ser cineasta", conta ele ao curador Aristeu Araújo. Mesmo depois de quase sete décadas atrás das câmeras, garante continuar lendo o dicionário diariamente "como quem lê um romance".

No sábado, 3 de outubro, às 18h, o próprio Guerra volta à Caixa Cultural para uma masterclass dedicada à construção artística e política da "Trilogia dos Fuzis". A retrospectiva chega ao Rio depois de uma passagem por Curitiba, onde a Caixa já havia destacado que o cineasta permanece em atividade aos 95 anos. "Decidi que vou viver até os 117 anos. Até os 100 ainda quero fazer cinema. Depois disso pretendo voltar ao meu primeiro amor, que sempre foi a literatura."

SERVIÇO

RETROSPECTIVA DE RUY GUERRA - UMA VIDA DE CINEMA

Caixa Cultural Rio de Janeiro (Rua do Passeio, 38, Centro)

de 29/9 a 16/10*

Grátis, com ingressos retirados meia hora antes de cada sessão

*Não haverá sessões às segundas-feiras e em 9/10