Num momento em que o cinema brasileiro coleciona prestígio em festivais internacionais, mas ainda trava uma batalha cotidiana para chegar ao seu próprio público, uma nova tela vai se acender na Zona Norte do Rio. Nesta quarta-feira (30), às 19h, a Areninha Cultural João Bosco, em Vista Alegre, recebe a primeira sessão do Cineclube Cavideo, projeto idealizado pelo produtor e ator Pedro Monteiro, com direção artística do cineasta Cavi Borges. A abertura será com "Marte Um", de Gabriel Martins, numa programação que prevê 12 sessões gratuitas de filmes nacionais, sempre acompanhadas por debates e com intérprete de Libras.
O ponto de partida do projeto é um gargalo histórico da produção brasileira: a exibição. Segundo pesquisa da Ancine citada pela organização, apenas uma em cada dez pessoas que foram ao cinema em 2025 assistiu a uma produção nacional. Para Monteiro, descentralizar as telas é uma forma de enfrentar a distância entre os filmes brasileiros e seus potenciais espectadores.
"Ampliar os pontos audiovisuais na periferia da cidade é fundamental para democratizar o acesso ao cinema e aproximar a produção brasileira de públicos que têm menos acesso às salas. A experiência realizada na Maré e em Vicente de Carvalho demonstra a importância de levar o audiovisual para além dos circuitos tradicionais. Agora, em Vista Alegre, o projeto dá continuidade a esse movimento, criando um novo espaço de valorização do cinema brasileiro", afirma Pedro.
O Cineclube Cavideo amplia uma experiência iniciada com o Espaço de Cinema Cavideo, implantado no Museu da Maré, em 2024, e posteriormente em Vicente de Carvalho, este ano. Há uma particularidade importante nesse modelo: projetor, computador, telão e equipamento de som adquiridos para viabilizar as sessões serão doados aos espaços, permitindo a continuidade das atividades de exibição após o encerramento formal dos projetos.
Cavi Borges enxerga na criação dessas novas "janelas" uma possibilidade de enfrentar justamente uma das fragilidades históricas do audiovisual nacional.
"Inaugurar outras janelas de exibição de filmes brasileiros é poder contribuir para o desenvolvimento do nosso cinema. Para quem faz, para quem vê. Principalmente na Zona Norte do Rio, onde os poucos cinemas de shopping só passam filmes americanos. É formação de público para o nosso cinema. É trabalho cultural e social", afirma Cavi.
A curadoria é de Milena Manfredini, responsável também pela Mostra de Cinema Cavideo, realizada em 2025 e levada a territórios periféricos da cidade. A seleção parte da lista dos 50 melhores filmes brasileiros deste século organizada pelo jornal "O Globo" no ano passado, a partir dos votos de 117 profissionais do audiovisual, entre eles Cavi Borges.
"Marte Um" abre os trabalhos. Dirigido por Gabriel Martins, o longa acompanha uma família negra da periferia de Contagem, em Minas Gerais, entre conflitos cotidianos e sonhos de transformação. Também estão na programação "Bacurau", de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles; "Saneamento Básico, o Filme", de Jorge Furtado; e "Ela Volta na Quinta", de André Novais Oliveira.
Mais do que apresentar filmes, a proposta é recuperar uma função historicamente associada ao cineclubismo: transformar cada sessão num espaço de encontro, discussão e formação cinematográfica. "No momento em que o principal problema do cinema brasileiro é a distribuição e a exibição, inaugurar um cineclube mensal que exibe cinema brasileiro é uma possibilidade de mostrar nossos filmes para um público maior. Os cineclubes se tornaram um circuito exibidor alternativo, que tenta dar vazão à exibição de filmes nacionais e atingir novos públicos", explica Cavi.
Existe ainda uma dimensão geográfica nesse esforço, numa cidade em que o acesso aos equipamentos culturais permanece desigual. Para o realizador, o cineclube pode ajudar a encurtar distâncias simbólicas entre diferentes territórios cariocas.
"Poder unir Zona Sul, Zona Norte, Centro e periferia. Nosso cineclube também atinge uma região carente de salas de cinema que exibem cinema brasileiro", diz Cavi.
A formação não ficará restrita à plateia. Durante o funcionamento do cineclube, Cavi ministrará uma oficina para 20 jovens sobre a realização de filmes de baixo orçamento. A experiência terá um resultado concreto: a turma desenvolverá um curta-metragem.
Realizado em coprodução com o Subúrbio em Transe, o Cineclube Cavideo conta com apoio da RioFilme, empresa da Prefeitura do Rio, por meio do Programa de Fomento ao Audiovisual Carioca 2026. A lógica da iniciativa é direta: num país que produz cinema, mas ainda encontra dificuldades para fazê-lo chegar ao espectador, abrir uma sala significa também formar público.
SERVIÇO
CINECLUBE CAVIDEO - MARTE UM
Areninha Cultural João Bosco (Av. São Félix, 601 - Vista Alegre)
30/9, às 19h | Entrada franca
Menu