Confira uma lista de produções que asseguram excelência ao Festival do Rio 2026:
A ILUSÃO DE UM VERÃO SEM FIM ("The Illusion of an Everlasting Summer"), de Alessandra Sanguinetti (Argentina): Vencedor dos Horizontes Latinos de San Sebastián este poema parental registra a vida das primas Guillermina e Belinda ao longo de 25 anos na Pampa rural argentina. Filmada de 1999 a 2024, capta a transição da infância para a vida adulta, a maternidade e as marcas do tempo. O projeto nasceu em paralelo a fotolivros da diretora, revelando a evolução dos corpos e dos laços entre as protagonistas. A produção venceu o Leopardo de Ouro na seção Cineasti del Presente em Locarno.
LADY, de Olive Nwosu (Nigéria): Taí uma jovem diretora que, entre as novas promessas dos veios audiovisuais das Áfricas, conseguiu acesso direto ao Festival de Sundance, com a força de sua estética. Olive conta aqui a saga de uma das poucas taxistas de Lagos, a independente Lady (Jessica Gabriel's Ujah), que economiza cada centavo para tentar construir uma vida longe do caos da cidade. Quando Pinky, amiga de infância que trabalha como profissional do sexo, reaparece em sua vida e lhe oferece emprego como motorista de um grupo de mulheres pelas noites da cidade, Lady aceita com relutância. O julgamento inicial que faz em relação ao grupo vai aos poucos dando lugar a uma sororidade intensa e afetuosa.
MAKING MARIE ANTOINETTE, de Eleanor Coppola (EUA): É danada de grande a saudade que Sofia Coppola sente de sua mãe, a documentarista Eleanor (1936-2024), que, onze anos atrás, acompanhou a filha nas filmagens de seu épico pop sobre Maria Antonieta, em Versalhes, e registrou quase 80 horas de imagens. Retomado pelas duas durante a pandemia e concluído por Sofia após a morte da mãe, o material revela uma jovem cineasta lutando para construir uma visão ousada e pessoal. A atriz Diane Lane narra o longa com base nos diários de Eleanor.
DIYA - O PREÇO DO SANGUE ("Diya"), de Achille Ronaimou (Chade): Ferdinand Mbaïssané vira a cabeça da gente do avesso com sua atuação neste misto de drama e thriller. Em N'Djamena, Dane trabalha como motorista de uma ONG humanitária e leva uma vida tranquila com Delphine, sua jovem esposa, grávida de oito meses. Um instante de distração ao volante termina no atropelamento de um menino. Após certa confusão no hospital, ele é informado de que a criança morreu. A família exige a diya — o "preço do sangue", uma compensação pelo acidente. Para reunir o valor e proteger os seus, Dane parte rumo ao deserto. Ali, tudo é risco.
LAVANDERIA ("Laundry"), de Zamo Mkhwanazi (África do Sul): Um estudo sobre paternidade num contexto de silenciamento. Tudo se passa em 1968, quando o dono de uma loja de lavagem de roupas, Enoch (o brilhante ator Siyabonga Shibe), é assolado pela brutalidade de racistas num país que fez o apartheid uma prática de controle. Fiel acólito de um servidor, ele é ludibriado pelas autoridades e acaba preso. Seu filho, jazzista de talento, paga o preço junto.
MARIE MADELEINE, UMA MULHER LIVRE ("Mary Magdalene), de Gessica Généus (Haiti): Hábil na escrita, na direção e na atuação, esta realizadora haitiana arrebatou Cannes, em maio, com este retrato da resiliência feminina. Na cidade de Jacmel, a garota de programa Marie Madeleine (Gessica) vive de forma totalmente livre e marginalizada pelas regras rígidas da sociedade. Quando seus caminhos se cruzam com os de Joseph, um jovem e fervoroso crente evangélico, um laço profundamente intenso e improvável surge entre eles.
TENDER LOVING CARE, de Mike Leigh (Reino Unido): Ganhador da Concha de Ouro de San Sebastián, no sábado passado, este drama acridoce virou a coqueluche da hora. Na (aparente) trilha de simplicidade de sua estética, calcada na fala, já testada em "Another Year" (2010), o octogenário artesão autoral inglês registra práticas quotidianas da empatia, mas desloca o seu olhar para uma realidade laboral particularmente ingrata. Amy (Kate O'Flynn) trabalha na proteção de idosos e menores; a amiga Rosie (Alice Bailey Johnson) também pertence aos serviços sociais. As duas atravessam diariamente vidas quebradas, ressentimentos, precariedade e situações em que cuidar deixou de ser apenas uma virtude para se tornar profissão — uma profissão exercida num sistema público britânico corroído pela falta de apoio institucional. A produção rendeu o prêmio de Melhor Atuação protagônica a O'Flynn no evento espanhol, de onde saiu ainda com o prêmio de Melhor Roteiro.
ROSEBUSH PRUNING, de Karim Aïnouz (Itália/ Espanha/Reino Unido): O dínamo cearense de "Madame Satã" (2002) meteu-se na briga pelo Urso de Ouro com este elegantérrimo tratado sobre perversões e rachou opiniões com a opulência com que retrata uma família aristocrática dos EUA, alocada na Espanha e abalada pela perda da matriarca (Pamela Anderson). Fez um "Dallas" cheio de tesão. Incesto, traição e ataques de lobos desenham essa releitura que o diretor de "Motel Destino" (2024) fez (com elenco internacional classe AA) do cult italiano "De Punhos Cerrados" (1965), de Marco Bellocchio. A fotografia da francesa Hélène Louvart é seu trunfo. O desempenho do dramaturgo e ator Tracy Letts como um patriarca cego assombra.
NO GOOD MEN, de Shahrbanoo Sadat (Afeganistão): Tiraram sarro da diretora artística de Berlim, Tricia Tuttle, logo que o anúncio desta produção para o posto de abre-alas do festival alemão foi divulgado, mas ela bateu bem e ficou no coração da plateia. Sua trama se passa em 2021, quando a protagonista, Naru (a própria cineasta), luta pela custódia do filho, de apenas três anos, Liam, que é fã de leões, sobretudo o "The Lion King" da Disney. Depois de deixar o marido infiel, ela se convenceu de que não existem homens bons no seu país. É pega de surpresa, em suas atuais convicções, quando o jornalista mais importante da Kabul TV, Qodrat (o ótimo Anwar Hashimi), oferece a ela uma oportunidade profissional de peso. À medida que os dois percorrem a cidade, sob o fogo dos Talibãs, Naru começa a questionar suas descrenças.
IN WAVES, de Phuong Mai Nguyen (França): De CEP francófono, mas com um coração vietnamita em seu peito (de sua diretora), esse drama com um pé no mar e outro na morte, abriu as alas da Croisette para a animação. Seu pavimento é uma HQ homônima do surfista e artista gráfico AJ Dungo, lançada no Brasil pela Nemo e baseada em uma perda pessoal dele. Um skatista se apaixona por uma surfista, na alvorada da adolescência de ambos, mas tomam "um caixote" do destino, na forma de um tumor.
O HANGAR VERMELHO ("El Hangar Rojo"), de Juan Pablo Sallato (Chile/ Argentina): Com um orçamento de US$ 700 mil e apenas 16 dias para dar conta da tarefa de recriar a América do Sul da década de 1970 na província de Mendoza, na Argentina, este thriller político não contou com o apoio do estado chileno. A marola de dificuldades não limitou seu talento ao rever a saga de um capitão da Força Aérea que enfrentou suas autoridades fardadas durante o golpe que tirou Salvador Allende do Poder, em 1973. É um estudo delicado sobre a psiquê dos militares que rechaçaram ditaduras.
TODOS OS AMANTES DA NOITE ("Subete mayonaka no koibitotachi"), de Yukiko Sode (Japão): Um dos achados mais tocantes da mostra Un Certain Regard de Cannes. Em seu enredo, a revisora Fuyuko (papel de Yukino Kishii) gosta de andar pelas ruas de sua cidade, ali por volta das 0h, cada vez que aniversaria. Um dia, ela tromba com o professor Mitsutsuka (Tadanobu Asano, estrela de "Mortal Kombat") e passa a ter encontros regulares com ele, até que segredos se deixam notar.
HOPE - O PRIMEIRO IMPACTO ("Hope"), de Na Hong-jin (Coreia do Sul): Filme de monstro, esta joia, que parece uma mistura de John Carpenter ("O Enigma do Outro Mundo") com "John Wick" foi a iguaria mais polêmica da competição pela Palma de Ouro de 2026. Ao fim de sua projeção, ouviu-se um "Vergonha!" e um "Bravo!" na mesma medida de decibéis. A direção do cineasta responsável por "O Lamento" (2016) e "O Caçador" (2008) esbanja retidão e invenção na forma como conta o jogo de gato e rato dos moradores de uma aldeia que descobrem o corpo esquartejado de uma vaca e, logo, percebem que só algo de outro mundo... e algo bem grande... poderia ter feito aquilo. É eletrizante a cada segundo.
SOUMSOUM, A NOITE DAS ESTRELAS ("Soumsoum, La Nuit des Astres"), de Mahamat-Saleh Haroun (Chade): O Rio vai conferir o novo trabalho de um mestre que fez o cinema chadiano brilhar em Cannes ao conquistar o Prêmio do Júri de 2010 com "Un Homme qui Crie" e voltou à competição francesa com "Grigris", em 2013, e "Lingui", em 2021. Em fevereiro deste ano, saiu da Berlinale com o Prêmio da Crítica, votado pela FIPRESCI, a Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica, por esta produção cheia de magia. Em sua audaciosa observação da convivência possível entre o mistério e o realismo neste mundo, o cineasta acompanha as angústias de uma jovem dotada de poderes sobrenaturais numa África intolerante.
CLUB KID, de Jordan Firstman (EUA): Imagine um promotor de festas queer, daquelas mais bombadas, com "almôndegas" humanas para todos os gostos, regadas a pó, descobrir que, de sua única transa com uma mulher, uma "rapidinha" num corredor de boate, nasceu um menino - e o guri é um fofo. A mãe suicidou-se. Caberá a ele, que leva uma rotina de excessos, cuidar do menino nesta trama que virou frisson no Festival de Cannes e repetiu a dose em San Sebastián. Jordan escreve, produz, dirige (numa estreia impecável) e atua bem pacas.
JIM QUEEN, de Marco Nguyen e Nicolas Athané (França): É duro não morrer de saudades do diretor e ator Jorge Fernando (1955-2019) e de seu trabalho na série "Macho Man" (2011) em frente a este desenho animado queer hilário. Na trama, uma doença nova, chamada heterosis, faz os gays do mundo agirem em modo hétero. Piadas com supositórios, que soariam homofóbicas, viram bem divertidas no roteiro, em especial quando um influencer ursão tenta se curar dessa moléstia.
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