São grandes – e fortes – as chances de vitória para o Brasil, na corrida pela Concha de Ouro, ao se analisar a boa acolhida ao drama mineiro “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins, na disputa oficial, que se encerra na noite deste sábado, na cidade de San Sebastián, ao norte da Espanha – também chamada de Donostia. “Tender Loving Care”, de Mike Leigh, “Krux”, de Tony Vahl, e “Glaxo”, de Bejamín Naishtat, são candidatos de peso também, neste dia em que o envolvente drama histórico belga “Le Faux Soir” fecha a programação. Ficou, contudo, um presente para a plateia espanhola, neste desfecho de uma maratona inspirada: a projeção de “Fjord”, do romeno Cristian Mungiu, que ganhou a Palma de Ouro de Cannes, em maio.
Em seu elenco está Sebastian Stan, o Soldado Invernal da Marvel. O astro divide com a norueguesa Renate Reinsve o protagonismo de “Fjord”, de Mungiu. Formam em cena o casal Gheorghiu: ela, Lisbet, é escandinava; e ele, Mihai, é romeno. Os dois se mudam com os filhos para uma vila da Noruega situada no fundo de um fiorde. Essa família muito religiosa rapidamente faz amizade com seus vizinhos, os Halberg. Apesar de seus diferentes estilos de educação, as crianças dos dois clãs criam laços estreitos. Um dia, quando os professores notam sinais de maus-tratos físicos em Elia, a filha mais velha dos Gheorghiu, a suspeita se instala na comunidade. Será que as práticas educacionais convencionais de Lisbet e de Mihai teriam ultrapassado o limite da violência? A investigação que se segue mergulha toda a vizinhança no caos, num ranço de xenofobia no ar.
“Eu não julgo as personagens, mas há um debate no centro de tudo: se você olhar para as diferenças, atrás só das estranhezas, verá apenas inimigos”, disse Mungiu a Cannes. “É mais fácil se unir ao gado e pastar na relva dos algoritmos. Mas o cinema no qual eu acredito prefere tirar a plateia da condição de rebanho e deixar o povo pensar”.
Foi um acerto a escolha de “Le Faux Soir” para encerrar a maratona basca, numa sessão fora de competição no Kursaal. O longa do belga Michaël R. Roskam, que chega à Espanha após sua passagem por Toronto, recupera um episódio singular da resistência à ocupação nazista: em 1943, quando o tradicional diário “Le Soir” havia sido transformado em instrumento de propaganda alemã, um grupo clandestino reproduziu seu formato e sua identidade visual para espalhar uma edição falsa, recheada de textos que ridicularizavam os invasores. A produção ganha a plateia pouco a pouco, até ferver em sua reta final.
Inspirado no livro “Le ‘Faux’ Soir, 9 Novembre 1943”, de Marie Istas, o filme transforma imprensa e sátira em armas políticas. Roskam, premiado em Donostia pelo roteiro de “The Drop – O Duplo” (2014) e indicado ao Oscar por “Bullhead” (2011), dirige Arieh Worthalter, Mélanie Thierry, Karim Leklou, Mara Taquin, Bouli Lanners, Julien Frison e François Damiens nesta produção franco-belga sobre uma operação considerada um dos mais audaciosos atos de sabotagem midiática da II Guerra Mundial.
A atração mais esperada das horas finais que antecedem à premiação de Donostia é “Club Kid”, de Jordan Firstman (EUA). Longa sensação da seção Un Certain Regard de 2026, esta crônica de uma vida de excessos arrebatou a Croisette pelo dinamismo narrativo do estreante Firstman, também em cena. Ele nos mostra as mudanças de rotina de um promoter de festas que descobre ser pai. A produção vai encerrar o Festival do Rio, no dia 10.
Ira Sachs é quem preside o júri de Donostia, com Alice Braga de jurada. Estima-se que a atriz Rejane Faria serja laureada por "Vicentina Pede Desculpas".
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