Cinema

Produzir, um verbo de incertezas

Fã de 'Dona Flor', o inglês Mike Goodridge, que já produziu de cults a êxitos pop, integra o júri de San Sebastián e avalia o papel estratégico do cinema num tempo de streaming

Produzir, um verbo de incertezas
O produtor Mike Goodridge em sua passagem por Donostia Crédito: Jorge Fuembuena/Divulgação

Jurado da disputa pela Concha de Ouro no 74º Festival de San Sebastián, o britânico Mike Goodridge carrega para as deliberações uma experiência que ultrapassa sua aclamada experiência na produção de cults. Ganha a gente na conversa, com sua cinefilia, aberta a temperos de brasilidade: "Quem nesse mundo não ama 'Dona Flor e Seus Dois Maridos'? Eu adoro", crava, ao conversar com o Correio da Manhã, mantendo "no sapatinho" os detalhes de seu trabalho com o júri, que é presidido pelo cineasta americano Ira Sachs e conta a com a atriz brasileira Alice Braga.

Crítico e jornalista durante anos, ex-dirigente da Protagonist Pictures e fundador da Good Chaos, em Londres, Goodridge ajudou a levar às telas filmes como "Orphan" (2025), de László Nemes, "Touch" (2024), de Baltasar Kormákur, "Club Zero" (2023), de Jessica Hausner, e "Ballad Of A Small Player" ("Balada Para Um Jogador", 2025), de Edward Berger, além da franquia "Sisu" (2022-2025). Neste papo em Donostia (nome de San Sebastián no idioma local, paralelo ao Espanhol, o Eusaka), sua reflexão sobre o ofício ganhou uma dimensão empática em relação ao Brasil ao passar pela memória de Luiz Carlos Barreto (1928-2026), o Barretão, produtor do já citado "Dona Flor", em 1976 e de "Bye Bye Brasil" (1980), indicado ao Oscar com "O Quatrilho", em 1996, e "O Que É Isso, Companheiro?", em 1998.

Nascido em Sobral em 20 de maio de 1928, Barretão morreu no Rio de Janeiro em 22 de julho deste ano, aos 98 anos. A partida do mito nacional da arte de produzir, há exatos dois meses, serviu de ponto de partida para uma conversa sobre o tamanho que o ofício pode assumir para além da obtenção de dinheiro e da organização de uma filmagem.

Goodridge contesta a ideia de que apenas o realizador seja responsável pela identidade artística de uma obra. "Os festivais europeus criaram uma espécie de fetichização do diretor como único criador de um filme. O catálogo de Cannes nem sequer lista os produtores. Acho isso um pouco insultuoso", diz. "Os produtores acabam não sendo vistos como pessoas criativas ou como alguém que contribuiu para a história e para o tecido criativo do filme. E isso, evidentemente, não é verdade."

Se Barretão atravessou mais de seis décadas defendendo um cinema capaz de desenhar uma cartografia do Brasil, Goodridge pertence a uma época em que a própria geografia da produção se tornou móvel. Britânico radicado em Londres, ele diz não procurar projetos pela nacionalidade. "É o meu gosto. Quero fazer filmes no mundo inteiro. Cresci aprendendo sobre o mundo através do cinema e quero continuar essa tradição", afirma, citando como referência o recém-falecido produtor Jeremy Thomas (1949-2026), cuja carreira atravessou a Itália, a China, o Japão e os Estados Unidos.

O problema é que o produtor contemporâneo precisa preservar essa ambição num mercado muito mais hostil. Para Goodridge, a disputa com o streaming elevou a responsabilidade de convencer toda uma equipa de que determinado projeto precisa existir como experiência cinematográfica. "É muito difícil conseguir fazer um filme hoje. É preciso fazer com que todos decidam que aquilo será um filme para o cinema e que as pessoas irão vê-lo. Talvez elas não vão, talvez não funcione, mas o objetivo é criar arte cinematográfica que tenha apelo para o público", diz.

Esse ônus não termina quando as câmeras param. Goodridge considera roteiro, elenco e montagem peças de uma mesma engenharia e lembra que já viu filmes praticamente nascerem na sala de edição. "Filmar é apenas uma parte. Se o roteiro tem problemas, o filme terá problemas. O elenco e as interpretações são cruciais. E as decisões tomadas na montagem podem mudar tudo, até o tom de um filme."

Há também uma equação financeira que deixou de funcionar como antes. Segundo ele, as plataformas romperam a antiga cadeia de exploração comercial que levava um longa das salas ao vídeo, à TV paga e, depois, à televisão aberta, criando sucessivas fontes de receita capazes de ajudar no financiamento de novas produções. "O modelo de financiamento e o modelo de distribuição foram irrevogavelmente alterados pelas plataformas. Hoje um filme estreia na Netflix e termina na Netflix. Antes havia uma longa cadeia de receitas. Financiar filmes ficou realmente muito difícil."

É justamente nesse cenário que Goodridge começa a aproximar-se do cinema latino-americano. Ele é produtor executivo de "Puma", novo longa da chilena Marcela Said, realizadora de "Los Perros" (2017), com estreia prevista para 2027. A conexão brasileira aparece por outra via: sua companhia desenvolve um longa com o diretor brasileiro Alex Gabassi, radicado em Londres e conhecido internacionalmente pelo trabalho em séries como "The Crown" e "Black Doves". "Acho que ele é brilhante", resume Goodridge. Entre a geração de Barretão e a sua, mudou a engenharia económica, mudou a circulação dos filmes e mudou até a ideia de território. O desafio do produtor, porém, continua reconhecível: encontrar condições para que uma história saia do papel sem perder, pelo caminho, aquilo que justificava transformá-la em cinema.