Cinema

Brasil nas cordas de 'Bajañí'

Oscarizado na década de 1990, Fernando Trueba volta a San Sebastián com um musical de eixo documental com o violonista Niño Josele a tocar com Caetano Veloso e Marisa Monte

Brasil nas cordas
de 'Bajañí'

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Um dos criadores de imagens de maior projeção internacional da Espanha, com uma carreira atravessada por sucessos de crítica e público e por um Oscar, Fernando Trueba regressa ao 74º Festival de San Sebastián com uma longeva paixão renovada: filmar a música como experiência cinematográfica. Exibido na seleção oficial do evento (que termina neste sábado, mas fora de competição, "Bajañí" devota cada segundo de seus 112 minutos aos acordes do violonista flamenco Niño Josele.

Faz uma espécie de road movie (ou road guitar) numa viagem pelo jazz, pela melodia cigana e pela música brasileira, com passagens pelo Rio de Janeiro e por São Paulo e encontros com nomes como Caetano Veloso, Marisa Monte, Ron Carter, Rubén Blades e Kenny Barron. É uma nova escala numa filmografia que vai da estatueta de Melhor Filme Estrangeiro de Hollywood por "Sedução" ("Belle Époque"), em 1994, às experiências musicais de "Calle 54" e "Atiraram no Pianista", animação realizada com Javier Mariscal e igualmente apresentada em Donostia.

Trueba recusa, aliás, a definição convencional de documentário para "Bajañí". "Esses filmes meus, como 'Calle 54' ou 'Bajañí', eu resisto a chamá-los de documentários. Eu os chamo de musicais. Não ponho 'um filme de Fernando Trueba'. Ponho 'um musical', mesmo sabendo que o termo musical acabou sendo atribuído a um tipo de cinema que partia dos musicais da Broadway. Mas, na realidade, era um gênero muito teatral", explica o realizador ao Correio da Manhã, num papo regado a café e evocações a Carlinhos Brown, que Trueba filmou em "O Milagre do Candeal", lançado em 2004.

Para esse madrilenho de 71 anos, a imagem precisa abandonar a posição de simples testemunha da performance. "Muitas vezes, quando retratam a música, a o quadro fílmico parece não ajudar em nada na composição estética. Tenho a sensação de que preferia ouvir o disco e não ver a imagem. O que tento fazer, no meu cinema, é o contrário: que a imagem seja solidária, que faça parte, que ajude a ouvir, que ajude a escutar. Não é retratar a música de fora, mas fundir-se com ela, entrar dentro dela."

Essa fusão encontra no Brasil uma de suas zonas mais férteis. Trueba foi produtor de discos de Niño Josele e acompanhou de perto a expansão do universo musical do guitarrista para além do flamenco. Foi também quem lhe apresentou uma extensa discografia brasileira. "Eu funciono com referências culturais, com coisas que li, sei quem é este, quem é aquele. Mas Josele é um intuitivo, não tem essa formação erudita. Passei para ele muita música brasileira e, sem informação nenhuma, apenas ouvindo, ele dizia: 'Radamés'. Radamés Gnattali, um homem que foi compositor de música erudita, popular, jazz, cinema. Ele enlouquecia com isso. Radamés, Moacir Santos, Jobim, Pixinguinha, Chiquinha Gonzaga...".

Caetano Veloso ocupa um espaço particularmente íntimo nesse mapa. "É alguém que eu amo. Faz parte da minha vida. A música dele, a voz dele, estão sempre comigo. Chico também está. Marisa Monte está. Adoro Arnaldo Antunes", diz Trueba, que brilhou no cinema dos EUA, em 1996, com "Two Much", aqui traduzido como "Quero Dizer Que Te Amo", com Daryl Hannah e Antonio Banderas.

A presença de Caetano em "Bajañí" nasceu, curiosamente, de um sonho. O cineasta acordou convencido de que uma canção dos Beatles deveria ser interpretada pelo baiano ao lado de Josele. "Disse à minha mulher: 'Tive um sonho maravilhoso e estranho. Estava filmando Caetano e Niño Josele'. Fiquei pensando naquilo desde que acordei e percebi que fazia muito sentido. John Lennon não sabia, mas aquela canção foi escrita para Caetano. A harmonia daquela canção não é para os Beatles, é para Caetano. Eu a ouvia na minha cabeça. Então propus a Caetano e a Josele que a fizessem."

Sua devoção à música brasileira, contudo, atravessa gerações. "O Brasil é uma potência musical incrível. Adoro Radamés Gnattali, adoro Moacir Santos, Pixinguinha, todos esses grandes mestres. Josele adora ouvir Garoto. E depois há essa tetralogia da MPB formada por Chico, Caetano, Gil e Milton. É um tesouro da música brasileira."

Trueba estende o afeto ao samba-jazz e a nomes como Victor Assis Brasil, Tenório Jr., Paulo Moura e João Donato. Recorda como um dos grandes presentes de sua vida ter interrompido durante dois dias as filmagens de seu projeto sobre Tenório para acompanhar Donato e Paulo Moura gravando juntos num estúdio. "Donato me obrigava a ficar sentado com ele na banqueta do piano. Os dois ficavam conversando e me contando coisas, e o pobre engenheiro de som estava desesperado porque queria gravar. Para mim, estar sentado com aqueles dois mestres foi um dos momentos mais felizes da minha vida."

Em "Bajañí", essa paixão não pretende dissolver identidades numa fórmula de fusão musical. Trueba quer demonstrar que a guitarra flamenca pode dialogar em igualdade com qualquer tradição. "Não se trata de fazer uma fusão, não é uma experiência de laboratório. É orgânico. Josele não deixa de ser ele, o gitano puro-sangue que é, durante um segundo sequer, nem num fotograma. E, no entanto, pode estar fazendo Jobim, Beatles, Johnny Hodges, Ben Webster ou Charlie Haden. O bonito é colocá-lo no lugar onde merece estar."

Depois dessa viagem, Trueba já prepara uma mudança radical de tom. Seu próximo projeto devolve-o à ficção e ao gênero no qual diz sentir-se em casa. "Escrevi uma comédia. A comédia é o meu gênero, de alguma forma o meu habitat. Acontece em 1968, em Madri. Tem muitas coisas da minha infância, mas não é uma película autobiográfica, é uma comédia." O título provisório é 'El Mayo del 68 de la Familia Mendieta'... até agora". Trueba avisa, rindo, que aquele maio de 1968 não é exatamente o dos livros de História: "Não é o maio político".

San Sebastián encerra sua edição 7.4 na noite deste 26 de setembro, tendo "Glaxo", de Benjamín Naishtat; "Tender Loving Care", de Mike Leigh; "Vincentina Pede Desculpas", de Gabriel Martins; e "Krux", de Tony Vahl, como seus candidatos com mais chances de vencer.