Nove anos depois de Agnès Varda (1928-2019) receber o Prêmio Donostia pelo conjunto de sua obra, o Festival de San Sebastián volta a celebrar a realizadora belga, uma das pioneiras da Nouvelle Vague, com a exibição de “Sans toit ni loi” (“Os Renegados”, 1985) na seção Klasikoak. A projeção será neste neste domingo. Protagonizado por Sandrine Bonnaire, Macha Méril e Stéphane Freiss, o longa retorna à tela grande quatro décadas depois de conquistar o Leão de Ouro e o Prêmio FIPRESCI no Festival de Veneza.
Escrito e dirigido por Varda, “Os Renegados” começa pelo fim. No inverno do sul da França, o corpo congelado de uma jovem é encontrado numa vala. Chama-se Mona (Bonnaire), é uma andarilha e parece ter cortado quase todos os vínculos com uma existência convencional. A partir dessa morte, Varda reconstrói as últimas semanas da personagem por meio de flashbacks e breves depoimentos das pessoas que cruzaram seu caminho. Homens e mulheres projetam nela seus próprios desejos, necessidades e julgamentos, enquanto Mona rejeita sucessivas possibilidades de integração e mergulha cada vez mais na solidão e no silêncio.
É justamente nessa recusa em explicar completamente quem é Mona que reside uma das maiores forças do filme. Varda organiza sua trajetória por diferentes pontos de vista sem aprisionar a protagonista numa interpretação única: observa sua sede de liberdade e permite que ela permaneça, até o fim, parcialmente indecifrável. Sandrine Bonnaire tinha apenas 18 anos quando assumiu o papel, num desempenho que lhe valeu o César de Melhor Atriz.
A própria Varda explicaria que procurou trabalhar a partir da materialidade daquele universo — o frio, a sujeira, os espaços e uma Mona que nem a cineasta pretendia compreender inteiramente —, aproximando o trabalho cinematográfico da busca de um pintor por texturas. Essa opção transforma a errância da protagonista menos numa tese sociológica do que numa experiência física de liberdade, recusa e progressivo desaparecimento.
A passagem de “Os Renegados” por Donostia permite ainda revisitar uma das relações mais marcantes da carreira de Bonnaire. Anos mais tarde, a atriz resumiria a importância da cineasta em sua formação: “Quanto a Agnès Varda, devo-lhe muitas coisas. Foi graças a ela que criei raízes no ofício. Digo sempre que, quando encontrei Maurice Pialat, eu era uma flor. Ao encontrar Varda, transformei-me numa árvore”.
“Trabalhar com Varda me dava a sensação de ser uma operária que partia para uma obra. Ela não fazia distinção entre técnicos e atores. Não havia hierarquia no set. Varda procurava uma visceralidade no meu trabalho como atriz”, recordou Bonnaire ao Correio da Manhã, admitindo que as duas nem sempre estiveram de acordo durante as filmagens. “Agnès é alguém que significou muito para mim. Às vezes, não estávamos de acordo, mas acho que eu era muito nova para compreendê-la. Nós nos reencontramos muito mais tarde e nossa cumplicidade começou realmente quando eu mesma passei a dirigir filmes”.
É uma memória que acrescenta outra camada ao reencontro de Donostia com Varda. O festival já havia exibido “Daguerréotypes” num ciclo dedicado ao cinema realizado por mulheres, em 1978, recuperou “Les plages d'Agnès” em 2010 e apresentou “Visages Villages” em 2017, ano em que entregou à cineasta o Prêmio Donostia.
Agora é Mona quem regressa a San Sebastián: uma mulher sem teto nem lei, filmada por uma cineasta que fez da liberdade — das personagens e da própria forma cinematográfica — um dos princípios fundamentais de sua obra.
Com 'Os Renegados', Donostia mata saudades de Agnès Varda
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