crítica | filme | Resident Evil

Ao sair, aperte a tecla 'Continue' para pedir bis

Ao sair, aperte a tecla 'Continue' para pedir bis
Austin Abrams corre para sobreviver na inflamável nova (e politizada) versão de 'Resident Evil' Crédito: Sony Pictures

Nem adianta procurar Alice, pistoleira que ampliou a popularidade de Milla Jovovich nas telas, na nova transposição de "Resident Evil" para os cinemas que será inútil. Também não cate os resquícios estéticos de Paul W. S. Anderson, diretor responsável por fazer do jogo uma franquia cinéfila das mais rentáveis, em 2002. O regresso, com orçamento estimado em US$ 80 milhões, da saga, repaginada sob a grife autoral do cineasta Zach Cregger (da mina de ouro "A Hora do Mal"), corresponde a um verbo do jargão gamer: "zerar". Zeram-se as certezas. Fica o medo.

E dá arrepio paca, ver um entregador Bryan (Austin Abrams), fugindo por corredores de neve tão sinistros quanto os do hotel de "O Iluminado" (1980) para se salvar de pessoas que mordem e matam a dentadas. No "matam", ponha aspas, pois se trata de um zombie movie, um filão que tem como pai a alegoria política "A Noite dos Mortos-Vivos" (1968), de George A. Romero (1940-2017). O acerto maior de Cregger foi abrir brechas para que seu thriller de horror (e é de horrorizar mesmo) se politize, no olhar das mais variadas plateias.

Lançado originalmente no Japão como "Biohazard", em 22 de março de 1996, e celebrizado no PlayStation, o primeiro "Resident Evil" nasceu na desenvolvedora Capcom, pelas mãos de Shinji Mikami, a partir de uma encomenda do veterano mestre de games Tokuro Fujiwara. A ideia era ter um passatempo eletrônico sintonizado com a linha survival horror (narrativa horrífica de sobrevivência), na qual um personagem de arma em punho explorasse espaços ameaçadores como se fossem quebra-cabeças, numa permanente sensação de vulnerabilidade. Zumbis são o perigo. A saga com Milla, aberta por Anderson seguia uma narrativa épica padrão: Alice é a redentora que vai dar fim à Umbrella, empresa que produziu um mar de defuntos canibais.

Apoiado na direção de fotografia nevrálgica de Dariusz Wolski (de "Piratas do Caribe" e "Perdido em Marte"), Cregger muda o eixo de narrar, larga qualquer tônus de épica e investe em um suspense quase em tempo real no qual um zé-ninguém, o já citado Bryan, sem uma gotícula de heroísmo sequer na medula, foge, ao deus-dará, de predadores que o caçam sem motivo e só duram por durar... sem objetivo quem não comer.

É a alegoria perfeita para uma América que, nas mãos de Trump, hoje parece perdida, mas ainda selvagem e expansionista... como os zumbis da Umbrella, crias do capitalismo torto que só almejam tomar espaços. A falta de lastro dos EUA se materializa, no cinema, na falência do filão "super-herói", mesmo com a recente rentabilidade bilionária do último Homem-Aranha. A mitologia oferecida por videogames parece ser o nicho da vez. É hora de devorá-la, ainda que para espirrar sangue, num exercício de filme de gênero de destrezas técnicas notáveis.