crítica filme | No Limite da Justiça

Quase bons companheiros

Quase bons companheiros
Mark Wahlberg vive Gregory Scarpa com ares de Stallone Cobra Crédito: Divulgação

Aparelhos ideológicos de vigília da correção política tornaram o cinema de ação uma sucata, a sobreviver dos músculos de Jason Statham, da cavalaria de Liam Neeson e do avatar Keanu Reeves. Quando se fala em filmes que abordam conflitos de gênese colonial (sobre racismo) e que não sejam calçados em tratados do Presente, o politicamente correto é igualmente feroz, vide o desmanche de que "Detroit Em Rebelião" (2017), de Kathryn Bigelow foi alvo.

Diante de um cenário muitos interditos, a coragem para se tirar um filme (vibrante) como "No Limite Da Justiça" ("By Any Means") do papel é louvável. Louva-se em especial seu prazer em dialogar com códigos de incorreção moral na direção meticulosa do cineasta Elegance Bratton ("The Inspection"). Ele fez um espetáculo de adrenalina que se veste de thriller social, à maneira de "O Calor da Noite" (1967), mas encontra sua pulsação nas cartilhas da exploitation (termo que se emprega para produções B, de gênero, explorando filões como o vigilantismo de populações pretas, o levante de mulheres armadas, combates de caratecas de base asiática). É um "Shaft" com o ethos do "Mississippi Em Chamas" (1988) de Alan Parker (1944-2020), em sua recriação das práticas racistas dos EUA dos anos 1960, ligadas ao extremismo da Ku Klux Klan. Inspirado em episódios reais, revisitados pela pena do roteirista Sascha Penn, essa narrativa febril narra o que mudou na vida do agente do FBI Wayne Strider (Yahya Abdul-Mateen II), alvo recorrente da intolerância branca, ao receber como parceiro Gregory Scarpa (1928-1994), um matador da máfia que batia ponto entre os federais para aliviar sua barra de criminoso. Mark Wahlberg interpreta tal figura com um jeitão de Stallone Cobra delicioso, esbanjando testosterona e ódio pelo sistema e suas imperfeições. Eles se unem na investigação do assassinato do político Vernon Dhamer (Giancarlo Esposito). Na melhor lógica do "tira bom/ tira mau", Strider segue a ordem e acredita na palavra. Scarpa reza pelo credo da pólvora e abençoa seus desafetos com o toque de seu taco de beisebol. Regados pela partitura elegíaca e incendiária de Terence Blanchard, numa trilha sonora de embatucar tímpanos, "By Any Means" questiona até onde a legalidade pode oferecer caminho quando as próprias instituições se mostram incapazes de proteger aqueles que deveriam defender. Esse questionamento inflamável se constrói num eixo político, mas com carga de espetáculo.