CINEMA

Um Fatih Akin espectral em Donostia

Vencedor do Urso de Ouro com 'Contra a Parede' e do Globo de Ouro por 'Em Pedaços', o diretor teuto-turco abre a 74º edição do Festival de San Sebastián com 'Ghost Song', em concurso

Um Fatih Akin espectral em Donostia
Metafísica e paixão se misturam em 'Ghost Song' (Geister), do cineasta de Hamburgo com raízes na Turquia Fatih Akin Crédito: Bombero international GmbH & Co.

Um dos campeões de bilheteria do atual cinema alemão, com prêmios conquistados em alguns dos maiores festivais do mundo, o teuto-turco Fatih Akin, vencedor do Urso de Ouro da Berlinale com "Contra a Parede" ("Head-On"), em 2004, inaugura nesta sexta-feira a 74ª edição do Festival de San Sebastián, no norte da Espanha. Aos 53 anos, o realizador abre a disputa pela Concha de Ouro com a estreia mundial de "Geister", internacionalmente batizado "Ghost Song", um romance sobrenatural sobre a possibilidade de o amor furar a fronteira da morte.

A sessão acontece no Kursaal, logo após a cerimônia de abertura, e marca a primeira vez em que Akin concorre ao prêmio máximo de San Sebastián (também chamado de Donostia, no dialeto local) com um longa-metragem que promete ser um ímã de lágrimas e de suspiros.

Há cerca de um ano, "Ghost Song" era ainda uma ideia em processo de escrita. No início de 2025, quando ganhou uma retrospectiva de sua obra na Caixa Cultural Rio de Janeiro, no Passeio, Akin conversou com o Correio da Manhã sobre o projeto enquanto finalizava "Uma Infância Alemã" ("Amrum"), então sua empreitada mais recente. Meses depois, esse drama histórico seria recebido com entusiasmo no Festival de Cannes. Agora, o cineasta troca a ilha alemã onde ambientou os ritos formativos de um garoto contaminado pela ideologia nazista por uma geografia menos material: aquela que separa vivos e mortos.

"Ghost Song" acompanha Farasha (Mariam Dawoud) e Faris (Eren M. Güvercin), dois jovens de 20 anos que se conhecem numa festa de formatura e se apaixonam à primeira vista. Naquela mesma noite, ela morre. A separação, porém, não é definitiva. Farasha descobre uma maneira de atravessar a fronteira entre os mundos e passa a encontrar o rapaz nos seus sonhos. O pacto tem prazo: serão apenas 40 noites. Durante esse período, uma paixão interrompida pela morte continua a crescer até ao encontro derradeiro. Carlotta von Falkenhayn e Gabriel-Winner Amorim completam o núcleo principal do elenco da produção alemã de 106 minutos.

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O cineasta teuto-turco Fatih Akin | Foto: Zaucke

É difícil não reconhecer nessa passagem entre mundos uma nova manifestação de uma obsessão que acompanha Akin desde o início da carreira: fronteiras. Algumas são nacionais; outras, étnicas, religiosas, familiares ou sentimentais. Filho de imigrantes turcos e nascido em Hamburgo, ele fez dessa identidade repartida matéria-prima para uma filmografia em que personagens vivem permanentemente entre territórios. "Filmar na Alemanha, com a liberdade que filmo, é a minha definição de ser alemão. Se eu estivesse satisfeito com o país de onde venho, não seria cineasta. Filmo para reagir, sem o desejo de retomar caminho que já percorri", disse Akin ao Correio.

Essa inquietação explodiu internacionalmente quando "Do Outro Lado" deu-lhe o prêmio de Melhor Roteiro em Cannes. "Em Pedaços" ("In the Fade"), com Diane Kruger, conquistou o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, em 2018. Já "Rheingold: O Roubo do Sucesso" (2022), inspirado na trajetória do rapper e ex-presidiário Giwar Hajabi, demonstrou sua capacidade de converter inquietações autorais em cinema de largo alcance popular. Lotou salas germânicas aos montes e fez fortunas.

"O meu sangue é turco, assim como parte da minha identidade, que se formou vendo melodramas da Turquia na TV e vendo um VHS de 'A Fúria do Dragão', com Bruce Lee, dublado em alemão. Nesse caldo cultural, eu me criei", explicou ao Correio. É uma formação que talvez ajude a compreender a elasticidade de sua obra: Akin pode transitar do melodrama ao filme de vingança, do relato histórico ao policial, da cinebiografia musical ao fantástico sem abandonar uma pergunta recorrente sobre o que significa pertencer a algum lugar.

"Ghost Song" parece deslocar suas investigações para um espaço metafísico. Se "Uma Infância Alemã", que bombou no gosto da cinefilia brasileira, perguntava o que uma criança consegue compreender da História, o filme que abre San Sebastián questiona aquilo que um jovem apaixonado consegue fazer diante da irreversibilidade da morte. O realismo político cede espaço ao fantástico, mas permanece uma mesma atração de Akin por personagens que tentam atravessar limites que lhes foram impostos.

Há também continuidade na equipe. Akin assina o roteiro de "Ghost Song" com Ruth Toma, enquanto a fotografia é de Frank Griebe e a montagem fica a cargo de Andrew Bird, colaborador habitual do diretor. A trilha de Malakoff Kowalski está, inclusive, entre as 17 partituras da competição oficial candidatas ao prêmio de Melhor Música Original da Fundação SGAE no festival.

San Sebastián oferece agora ao cineasta uma distinção que ainda faltava no seu mapa de grandes certames. Ainda nesta sexta, o festival confere, em competição, "Os Miseráveis", uma nova versão do patrimônio literário da França, com Vincent Lindon e Tahar Rahim sob a direção de Fred Cavayé. Neste fim de semana, a passagem de "Fucking Bastard", em homenagem ao seu realizador, o alemão Werner Herzog, promete ser um dos pontos mais sublimes do evento, que adotou uma fotografia do argentino Ricardo Darín em seu pôster oficial.