ENTREVISTA

José Luis Rebordinos: 'O impacto cultural de um festival é muito difícil de medir, embora seja enorme'

José Luis Rebordinos: 'O impacto cultural de um festival é muito difícil de medir, embora seja enorme'
José Luis Rebordinos, o diretor artístico de Donostia Crédito: Pablo Gómez/- Crédito SSIFF

Assim que "Geister" ("Ghost Song"), de Fatih Akin, for exibido na manhã desta sexta-feira (18) estarão iniciadas as atividades idealizadas para a 74ª edição do Festival de San Sebastián, a última a correr sob o comando de Jose Luis Rebordinos. Numa decisão tomada em unanimidade pelo conselho gestor do evento basco, ele deixa a direção artística e passa o comando da maratona cinéfila para Maialen Beloki. A decisão não foi nenhum game of thrones e satisfaz os anseios pessoais desse curador, programador e pedagogo, nascido em Errenteria (quase na fronteira com a França), que arbitra sobre a organização das diferentes mostras da micareta audiovisual ibérica desde 2011.

Um diretor turco-alemão coroado com láureas de peso na Berlinale (onde venceu o Urso Dourado de 2004 com "Contra A Parede") e Cannes ("Do Outro Lado" levou o prêmio de Melhor Roteiro, em 2007) é quem inaugura a corrida pela Concha de Ouro: Akin puxa um bonde que conta com o mineiro Gabriel Martins, o Gabito, no comando de "Vicentina Pede Desculpas". Os rivais dele são do mais alto quilate estético, graças ao prestígio que Rebordinos manteve ao longo de sua administração.

Graças a ele, Donostia (nome de San Sebastián na língua local, o Euskara) apostou numa linha curatorial capaz de abraçar estéticas de invenção. Ele se pauta pelo risco e pela provocação política, mas, ao mesmo tempo, sua seleção traz narrativas comerciais (como "Coração Selvagem", com Brad Pitt e um cão), sempre valorizando medalhões da Península Ibérica.

Na entrevista a seguir, Rebordinos explica essa dinâmica ao Correio da Manhã.

Num momento em que mudam as formas de consumir cinema e mudam os financiamentos, a relação com as plataformas e até o mapa geopolítico europeu, o que Donostia precisa preservar a qualquer custo e o que precisa mudar para continuar a ser um festival essencial?

José Luis Rebordinos — Você me faz uma pergunta para a qual eu já não tenho resposta. É também por isso, entre outras razões, que deixo a direção do Festival. Para que venha uma diretora mais jovem, envolvida com o presente e com ideias para o futuro do festival. De qualquer maneira, imagino um festival dinâmico, capaz de se adaptar, a cada momento, às mudanças que certamente continuarão acontecendo.

San Sebastián atravessou diferentes momentos da história política e cultural da Espanha e, ao mesmo tempo, ajudou a formar gerações de espectadores. Como o Festival contribuiu para construir um público para o cinema espanhol, tanto dentro quanto fora da Espanha?

O Festival de San Sebastián, que é o festival mais importante para a indústria cinematográfica de nosso país, acompanhou as diferentes transformações sociais e políticas que foram acontecendo. Desse ponto de vista, San Sebastián foi um espaço fundamental para a exibição e a promoção do cinema espanhol e, em particular, do cinema basco. Também foi, e continua sendo, um lugar imprescindível para a troca de experiências e para a realização de negócios por nossa indústria. O cinema basco cresceu ao mesmo tempo que o festival.

Quanto custa hoje organizar uma edição do Festival de San Sebastián? Quantos empregos diretos e indiretos ele mobiliza e qual é o retorno econômico gerado para Donostia?

O festival tem um orçamento em torno de 11 milhões de euros. Isso inclui a edição realizada em setembro, mas também atividades ao longo de todo o ano. Fazemos parte de uma escola de cinema, temos residências para projetos, programação cinematográfica e outras iniciativas. Ao longo do ano, somos 41 funcionários fixos. Durante o festival, passamos de 250. Segundo nosso último relatório de impacto econômico, em 2025 o Festival gerou um impacto de 47,9 milhões de euros. O impacto cultural e de imagem de um festival é difícil de medir, embora seja enorme.

Werner Herzog ganhará o troféu honorário Donostia, e poucos cineastas representam de maneira tão radical a ideia do cinema como aventura, risco e busca por imagens que ainda não existem. O que Herzog significa para você?

Significa o cinema em estado puro, a capacidade de arriscar tudo por uma ideia e uma paixão. Para San Sebastián, é uma honra imensa que ele tenha aceitado nosso reconhecimento. Difícil imaginar cineasta que mereça mais este prêmio.

Naomi Watts também recebe o Donostia, em honra a seus feitos. Sua trajetória é muito diferente da de Herzog, mas igualmente marcada por escolhas arriscadas e por colaborações com cineastas muito autorais. Comente essa opção.

Acredito que Naomi Watts seja uma das grandes atrizes do cinema atual. Trabalhou com alguns dos maiores diretores e arriscou muito, e com sucesso, ao longo de sua carreira. Reconheço que me apaixonei por ela quando vi "Cidade dos Sonhos" e, desde então, espero com emoção cada uma de suas novas interpretações.

Que filme fez você amar o cinema? E qual fez você amar o cinema espanhol?

Um dos primeiros filmes de que me lembro é um de Jesús Franco com o personagem Fu Manchu. Eu era muito pequeno, fiquei muito assustado e aquilo me fez perceber que o cinema era capaz de despertar em mim sentimentos muito diferentes. Mas, se falamos dos filmes que me marcaram, sem dúvida estão vários de Ingmar Bergman, como "O Silêncio" ("Tystnaden"), "O Sétimo Selo" ("Det sjunde inseglet") e "Morangos Silvestres" ("Smultronstället"). Também nunca vou esquecer a primeira vez que vi "A Bela da Tarde" ("Belle de Jour"), que faz parte da minha educação sentimental. E há tantos e tantos outros... O cinema noir americano clássico, os filmes de animação do Studio Ghibli... A lista seria interminável.