Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Brasis muito variados, do Centro-Oeste aos mares de Amir Klink, passando pelas Gerais e pela realidade do Nordeste, desenham o mosaico audiovisual de uma nação a ser representado por apenas um pedacinho... um longa-metragem... a Hollywood, na corrida por vagas na disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2027. A Academia Brasileira de Cinema anunciou na última quarta-feira sua shortlist (lista prévia) das produções nacionais hoje pré-selecionadas para representar o país na Meca do cinema. Eram 15, ficaram seis...
Os títulos escolhidos são por ordem alfabética: "100 Dias", do animador Carlos Saldanha; "A Fabulosa Máquina do Tempo", da documentarista Eliza Capai; "A Natureza das Coisas Invisíveis", de Rafaela Camelo (uma das febres de Gramado, em 2025); "Feito Pipa", de Allan Deberton (ganhador do Urso de Cristal na Berlinale); "Nosso Segredo", de Grace Passô (ganhador do Kikito de Melhor Ficção deste ano); e "Vicentina Pede Desculpas", de Gabriel Martins, que traz a grife Netflix e vai concorrer à Concha de Ouro no Festival de San Sebastián. O eleito desse sexteto será divulgado no dia 16.
A escolha do representante brasileiro será feita dentro das regras da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Para entrar na disputa nacional, os filmes precisaram ter estreado comercialmente no período de 1º de outubro de 2025 e 30 de setembro de 2026, permanecendo em cartaz por pelo menos sete dias consecutivos em salas comerciais. A tão esperada cerimônia do Oscar 2027, onde um desses exercícios de autoralidade pode ter vez, está marcada para 14 de março.
Se "100 Dias" vingar no gosto dos votantes da Academia Brasileira de Cinema, há de pesar não apenas a excelência de sua dramaturgia e de sua composição técnica, mas o passado de Carlos Saldanha em terras hollywoodianas. Ele concorreu com o curta "Gone Nutty" no mesmo 2004 em que Fernando Meirelles disputou troféus com "Cidade de Deus". Esteve no páreo dedicado à animação com "Rio" (2011) e "Touro Ferdinando" (2018). Agora Saldanha parte para o cinema de ação e aventura em uma história baseada na trajetória de Amyr Klink. O filme acompanha a travessia solitária do navegador pelo Atlântico Sul, realizada em 1984 a bordo de um barco a remo. A estreia comercial está marcada para 29 de outubro.
Badalado na abertura da mostra Generation, de Berlim, "A Fabulosa Máquina do Tempo" firma o prestígio global de Eliza Capai. Depois de "Espero tua (Re)volta" (premiado na Alemanha em 2019, pela Anistia Internacional), a diretora acompanha meninas de uma pequena cidade do sertão do Piauí. Entre brincadeiras, TikTok e histórias familiares, elas imaginam uma máquina capaz de revisitar o passado de mães e avós e projetar um futuro diferente. O longa passou pelo circuito brasileiro em julho.
Na ativa desde 2025, "A Natureza das Coisas Invisíveis" acompanha os rumos de Glória, de 10 anos, durante as férias no hospital onde sua mãe trabalha, onde conhece Sofia, uma menina preocupada com a saúde da bisavó. A amizade entre as duas conduz uma história sobre infância, perda e transformação. Coprodução Brasil-Chile, o filme de Rafaela Camelo estreou na Berlinale do ano passado e chegou aos cinemas brasileiros pela Sessão Vitrine Petrobras.
Badaladérrimo por onde passa, a Sessão da Tarde à moda cearense "Feito Pipa" deu a Allan Deberton o Kikito de Melhor Direção em Gramado, onde saiu ainda com a láurea do Júri Popular e troféus de Atriz (Teca Pereira) e Ator Coadjuvante (Lázaro Ramos), além de uma menção para seu astro mirim, o baiano Yuri Gomes. Depois de conquistar dois prêmios na Berlinale, incluindo o Urso de Cristal, o realizador de "Pacarrete" (2019) tenta a sorte planeta adentro com um de seus filmes mais fortes. Yuri interpreta Gugu, menino criado pela avó Dilma, vivida por Teca, enquanto a doença de Alzheimer começa a avançar sobre ela. Lázaro Ramos interpreta o pai do garoto.
Uma das joias mais raras de nossas telas hoje, "Nosso Segredo" pode ser visto no Ponto Cine, às 18h10. Primeiro longa dirigido pela aclamada estrela de "Temporada" (2018), esse drama com tons decoloniais acompanha o luto e a luta de uma família tentando reconstruir a vida depois de uma perda. Enquanto cada integrante enfrenta as saudades de um patriarca recém-falecido de uma maneira, o filho caçula guarda um enigma que pode alterar a forma como todos encaram as próprias dores. O filme estreou na Berlinale e brilhou no Bafici, em Buenos Aires, antes de vencer Gramado.
Neste momento, todas as atenções do planisfério cinéfilo acerca de narrativas lusófonas se voltam para a Minas de "Vicentina Pede Desculpas", de Gabriel Martins, que estará na Netflix no dia 20 de novembro. Depois do impacto internacional de "Marte Um" (2022), Gabito (apelido do realizador mineiro) volta a investigar as relações familiares em uma história sobre luto, culpa e perdão. Rejane Faria interpreta Vicentina, mulher que perde o filho em um acidente de ônibus e, diante da suspeita de que ele tenha provocado a tragédia de propósito, decide procurar as famílias das vítimas para pedir desculpas. O longa bate ponto na programação do TIFF, o Festival do Toronto, neste sábado, e vai brigar por láureas em San Sebastián, no dia 24 deste mês. Lá fora, seu título é "On Behalf Of My Son"
Até o fechamento desta edição, 42 países tinham seus representantes locais inscritos na Academia. Fora esse contingente, há mais três títulos já no radar, selecionados sob a nova regra da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A partir dela, longas-metragens premiados em alguns dos mais expressivos eventos competitivos do audiovisual serão automaticamente considerados para concorrer, a fim de evitar conflitos políticos, como se deu com a impostura francesa, em 2024, de esnobar "Anatomia de uma Queda" por rusgas internas. Assim sendo, serão considerados o ganhador de Sundance, que tem DNA albanês, "Shame and Money", de Visar Morina; o Urso de Ouro de 2026, que alma turca e verba alemã, "Yellow Letters", de Ilker Çatak; e a aclamada Palma de Ouro deste último Cannes, revelado em maio, "Fjord", do romeno Cristian Mungiu.
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