Na infância, sempre fui atraído pelo fantástico. Amava a ideia do sobrenatural, da ficção científica e do maravilhoso. Por isso, quando assisti àquele show da konga no parque de diversões, eu fiquei assombrado. Eu acreditei na transformação física da mulher em animal e corri apavorado, sem olhar para trás, quando a fera se soltou. Eu admiti que presenciava algo assombroso. Ali estava a possibilidade de o imaterial tornar-se real.
Não à toa me apaixonei pelo cinema. Era naquelas imagens projetadas que minha imaginação mergulhava para aceitar a sucessão de acontecimentos refletidos na tela. Realmente o cinema é uma experiencia sensorial individual e coletiva.
Do ponto de vista individual, eu, enfeitiçado, acompanhava quadro a quadro e me fascinava por cada encanto que a ideia projetada me trazia. Não era crítico o suficiente para raciocinar que a minha imaginação era refém de uma outra imaginação. Também não queria refletir que regras se manifestavam na conhecida teoria clássica do cinema estadunidense. Nada disso me importava. Por quê?
A resposta é simples: eu não queria quebrar o fascínio formado entre mim e os acontecimentos na sala escura. Ali, mesmo acompanhado, estava imerso em mim, e podia compreender as fantasias a ponto de confiar em cada narrativa. Mesmo que o filme fosse cheio de falhas técnicas graves, não me importava. Se eu gostasse, comprava a narrativa como perfeita e não aceitava críticas.
A questão é: eu queria acreditar. Eu amava estar inundado pelo sobrenatural e pelos mundos que se desdobravam bem diante dos meus olhos. Minha imaginação, é claro, criava desdobramentos. Passava tempo arquitetando sonhos incríveis que invadiam a minha realidade enquanto eu acompanhava o dia a dia da minha vida.
Até no amor, eu me espelhava nas relações heteronormativas que se desdobravam nas telas para imaginar, depois, meus romances. Naquela época eu aceitava as regras hollywoodianas sem discutir. Porém fazia questão de romper essas regras quando reproduzia os ideais que me eram apresentados nas sessões.
Eu fui crescendo e minha percepção se alterou completamente, mas nunca deixei de querer acreditar e de me fascinar pelas películas. No entanto, já reconhecia de forma clara a imaginação alheia e, por isso, em cada época tinha meus ídolos (curiosamente, na sua maioria, estadunidenses). Nas décadas anteriores a 1960 amava Hitchcock, Mario Bava e Val Lewton; na década de 1970 Costa Gavras, John Carpenter, Dario Argento e Stanley Kubrik; na década de 1980 além dos anteriores que ainda produziam, amava Stephen King (no cinema), George Romero (mergulhei no filmes dele na década de 1980), Lucio Fulci, Clive Barker, Sam Raimi, David Cronenberg; já nos anos 1990, Wes Craven e Shyamalan, e, ainda nesta década, descobri a explosão de filmes gays que traziam uma nova perspectiva das relações de pessoas do mesmo sexo: sem mortes, sem infelicidade ou solidão, nós realizávamos nossos filmes (importa mencionar O Banquete de Casamento e o memorável Amor e Restos Humanos).
Já no novo milênio meus diretores preferidos são: nos anos 2000: Jaume Balagueró; nos 2010: Marco Berger. Porém, é nos anos 2020 que o amor pelo terror começa a tomar outra feição, mas não pretendo desenvolver essa ideia aqui este texto.
Quando percebi a imaginação do outro me guiando, entendi que as regras da indústria do entretenimento refletiam na cultura cinematográfica estadunidense. Só então pude dissociar minha liberdade de interpretação dessa armadilha imposta.
A partir de então, compreendi que o mais importante é aprofundar o olhar do outro. É verdade que o olhar do outro me domina e me subjuga e eu posso até transformar a imaginação, mas sempre envolvido na visão do outro.
Por esse motivo, o filme Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (Denominado em seguida apenas como Acampamento Miasma) me chamou tanta atenção. Um filme estadunidense de 2026 que, a partir do olhar de uma protagonista, testemunhado por uma criança que tem seus desejos moldados por esse olhar, cria um impacto na realidade a partir da interpretação dessa criança que será uma mulher adulta apta a realizar uma releitura do olhar impactante.
A premissa do filme é a reinvenção da obra original Acampamento Miasma sob a ótica queer. Vale lembrar que o filme foi vencedor do Queer Palm no Festival de Cannes de 2026.
E, ao idealizar a releitura do filme de terror, a menina, agora mulher, compreende como o filme eivado de misoginia, machismo e discurso de ódio permitiu que ela criasse, através da troca do olhar da tela com sua interpretação, não só sua realidade, mas as bases de uma releitura do filme.
É a partir desse ponto que a realidade ocupa o filme de forma a trazer o nosso tempo para a película, enquanto a mesma realidade absorve os elementos do filme.
Há no filme um movimento pendular onde a realidade retratada no momento preparatório da nova versão do filme de terror, mergulha na mitologia do longa metragem para refletir o olhar da protagonista na realidade. Ao mesmo tempo, a protagonista, já mais velha participará como 'final girl' da releitura da obra impondo a realidade para a película. Assim, passamos todo o tempo de projeção oscilando entre a preparação para a refilmagem com a mitologia do filme intercalando a realidade e a não realidade de forma a não discernimos mais quando estamos testemunhando um ou outro mundo.
Não seria possível realizar essa obra sem uma visão que desgasta a narrativa clássica trazendo à tona a narrativa moderna.
Mas é imprescindível afirmar que o filme Acampamento Miasma tem muitas camadas e eu não pretendo aprofundar todas aqui.
Há o assassino queer, toda a lenda que envolve o sobrenatural, há imagens insólitas e a equipe responsável pela filmagem da nova versão, pode, de repente, ser personagem na releitura de Acampamento Miasma. Todos esses eventos são importantes, mas decidi não comentar nada mais aqui além do olhar.
Dentro do meu entendimento, busco apontar essa troca de olhares: o olhar expressivo na tela e o olhar que testemunha o momento da protagonista, mas fora da tela.
Essa troca me impressionou. No filme, o olhar mágico ocorreu quando a protagonista era abusada sexualmente durante as filmagens. Em razão disso a câmera registrou apenas a reação no olhar da vítima. Consequentemente, a espectadora admira o olhar, sem ter ideia dos acontecimentos, mas, em sua vida adulta, passa a ser atraída pela violência sexual.
*Advogado, mestre pela UERJ, especialista em Direito Constitucional.
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