Aos 59 anos, Jason Statham parece ter assumido uma função que Hollywood já não distribui com a fartura dos tempos de Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger, Jean-Claude Van Damme e Bruce Willis: ser um astro capaz de carregar um filme de ação nas costas sem precisar vestir capa, integrar um universo de super-heróis ou abandonar a pancadaria para legitimar-se no drama. A chegada de "Código: Vingança" ("Mutiny") ao circuito brasileiro nesta quinta-feira (10) reafirma o astro inglês como o último dos grandes ferrabrases da porrada ainda tratado pelos estúdios como protagonista de primeira linha.
Há qualquer coisa de Stallone nessa resistência, embora a linhagem cinematográfica de Statham pareça ainda mais próxima da aspereza de Charles Bronson — mesmo sem um bigodón para aproximá-lo do astro de "Desejo de Matar" (1974). Sua persona nasceu do encontro com Guy Ritchie em "Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes" (1998), ganhou musculatura com "Snatch - Porcos e Diamantes" (2000) e encontrou sua forma definitiva quando Luc Besson o transformou no motorista Frank Martin de "Carga Explosiva" (2002).
Dali em diante, Statham fez da repetição uma assinatura. "Adrenalina" (2006), "Carga Explosiva", "Os Mercenários", "Velozes & Furiosos", "Infiltrado" e "Resgate Implacável" variam o endereço, a profissão e o tamanho da conspiração, mas preservam um mesmo princípio: poucas palavras, uma relação artesanal com a violência coreografada e a certeza de que, cedo ou tarde, aquele corpo talhado a muitas cicatrizes será chamado a resolver fisicamente aquilo que o mundo ao redor não consegue solucionar.
"Existem muitos cineastas com verve autoral com quem eu gostaria de trabalhar, mas, por vezes, na indústria, somos vistos a partir de certos prismas, ainda que, no prisma que estou, eu tente humanizar os personagens, explorando a solidão que existe neles", disse Statham ao Correio da Manhã, numa conversa realizada na época de "Infiltrado". "Há um código de honra que cerca alguns heróis", sobretudo quando transitam pelo submundo e não têm "o luxo" de agir dentro das convenções.
A prova de que esse tipo não interessa apenas aos órfãos do "Domingo Maior" está no dinheiro. "Megatubarão" ("The Meg") arrecadou US$ 529,3 milhões em 2018, dos quais US$ 383,8 milhões vieram de fora dos Estados Unidos e Canadá. O Brasil respondeu por US$ 7,6 milhões, enquanto a China despejou US$ 153 milhões nos cofres do longa.
Cinco anos depois, "Megatubarão 2" ("Meg 2: The Trench") confirmou que o inglês havia se transformado numa mercadoria especialmente internacional: foram US$ 398,5 milhões no planeta, com US$ 315,9 milhões — 79,3% da receita — obtidos fora do mercado doméstico. A China novamente foi decisiva, com US$ 118,7 milhões, e o Brasil respondeu por US$ 5,1 milhões. Somados, os dois tubarões devoraram cerca de US$ 927,8 milhões em ingressos.
É significativo que "Megatubarão 2" tenha chegado a quase US$ 400 milhões mesmo com uma arrecadação americana de apenas US$ 82,6 milhões. Statham pertence hoje à reduzida categoria de astros cuja imagem de ação é imediatamente exportável: 72,5% da receita do primeiro "Meg" veio do exterior; na continuação, essa fatia subiu para 79,3%.
No Brasil, parte dessa identidade tem uma voz: Armando Tiraboschi. Dublador habitual de Statham e tratado por ele como um "gênio da voz", Tiraboschi ajudou a abrasileirar o inglês para uma geração criada diante da televisão, fazendo de sua secura verbal uma extensão sonora da pancadaria. É uma associação tão consolidada que a voz de Tiraboschi se tornou, para parte do público brasileiro, quase tão reconhecível quanto a careca, o cenho cerrado e a movimentação física do ator.
Essa figuraça encontrou em David Ayer um novo combustível. "Beekeeper: Rede de Vingança" custou cerca de US$ 40 milhões e arrecadou US$ 162 milhões, reafirmando a possibilidade comercial de um espetáculo de ação de orçamento intermediário comandado por Statham. A parceria prosseguiu em "Resgate Implacável", reforçando a posição do ator num território que Vin Diesel amarrou à máquina de "Velozes & Furiosos" e Dwayne Johnson começou a trocar por experiências dramáticas.
"Código: Vingança" coloca agora esse corpo sob a regência de Jean-François Richet, artesão francês que fez de "Mesrine" um fenômeno de público em seu país, refilmou John Carpenter em "Assalto à 13ª DP" (2005) e levou Mel Gibson a Cannes com "Herança de Sangue" (2016). Richet não entende ação como um gênero menor que necessite pedir desculpas por sua natureza. "Eu nunca me pergunto se filmar ação é fácil ou não. Só tento desenvolver temas que me interessam, sem pensar em rotulações", disse Richet ao Correio da Manhã.
Admirador de Sergio Leone e da saga de Rocky Balboa, o realizador já explicava ao jornal que prefere personagens instalados em zonas cinzentas e figuras capazes de arriscar a própria vida pelos outros, recusando divisões estanques entre herói e anti-herói.
É exatamente aí que Richet e Statham se encontram. Em "Código: Vingança", o astro vive Cole Reed, ex-policial e militar que trabalha em Bangkok como segurança de um magnata do transporte marítimo. Quando seu patrão é assassinado e ele próprio acaba incriminado, Reed mergulha numa conspiração que o leva até um cargueiro, oferecendo a Richet matéria-prima para trabalhar perseguições, espaços confinados e aquilo que o francês conhece particularmente bem: corpos em colisão.
"Gosto das figuras que arriscam suas vidas, por opção, para ajudar os demais", disse Richet ao Correio. A frase serve quase como definição retrospectiva da filmografia de Statham. Seus personagens podem ser motoristas, agentes secretos, mercenários, operários, apicultores ou mergulhadores enfrentando tubarões pré-históricos; por baixo das profissões, permanece o mesmo homem solitário convocado a agir quando as instituições falham. É um herói nato.
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