Cinema

Balõezinhos de Koreeda

Ao transformar um mangá popular em filme, o ganhador da Palma de Ouro de 2018 pode ter mais uma vitória no currículo, agora em Veneza, na caça pelo Leão dourado com 'Look Back'

Balõezinhos de Koreeda
'Look Back' nasceu de uma HQ cultuada e virou um dos dos favoritos a prêmios em Veneza Crédito: Divulgação

Tratado com azedume em Cannes (onde ganhou a Palma de Ouro de 2018 com "Assunto de Família") por conta da má acolhida a "Sheep In The Box", exibido lá em maio, Hirokazu Koreeda teve tempo de finalizar um segundo filme para Veneza - segundo festival que mais gosta dele, depois da Croisette - e entrou na briga pelo Leão de Ouro com "Look Back". Passou pelo Lido no domingo passado. O resultado, aos olhos de quem conferiu: um mar de lágrimas.

"Nunca vi tanta gente chorando ao fim da sessão", disse o crítico e apresentador Gustavo Valente, autor do livro "Momento Crítico" (e resenhista do canal online homônimo), que cobre o evento para o site luso C7nema.net. "Ele não sai de Veneza sem prêmios.

Fala-se de Koreeda por todo canto da maratona cinéfila italiana. E a fala carrega um status de favoritismo. Seu nome virou um ímã de troféus na boca da imprensa.

Chamado no original de "Rukku Bakku", o longa é uma adaptação do mangá homônimo de Tatsuki Fujimoto, autor conhecido mundialmente por "Chainsaw Man", e acompanha a relação de duas jovens que encontram no desenho um caminho para a amizade e para a descoberta de suas vocações artísticas. Tornam-se autoras de HQs no Japão natal de Koreeda, onde tal mídia se chama mangá. A trama acompanha os passos de Fujino, estudante reconhecida na escola pelas ilustrações serializadas que produz. Sua segurança é abalada quando ela conhece o traço de Kyomoto, colega que não frequenta as aulas e vive praticamente isolada. Inicialmente movida pela vontade de superar aquela que enxerga como uma rival, Fujino passa a estudar intensamente e a aprimorar sua técnica, afastando-se do convívio social e familiar.

A relação entre as duas estudantes muda quando um professor pede a Fujino que entregue um diploma a Kyomoto. O encontro transforma a rivalidade imaginada em amizade e leva as jovens a trabalharem juntas na criação de mangás.

"Minha aposta nas angústias universais do dia a dia fez com que eu acabasse sendo rotulado como diretor de folhetins, porque passei anos tentando pensar as inquietações afetivas pelo prisma familiar, porém, mesmo nesse terreno do folhetim, eu abordo questões sociais, numa mirada geopolítica", diz o cineasta de 64 anos, que esteve na Mostra de São Paulo em 2007. "Já dirigi thrillers antes, como 'O Terceiro Assassinato'. Porém, mesmo em outros registos, minha abordagem passa por um olhar sociológico. Foi assim que aprendi a fazer cinema: apostando na empatia, observando".

O 83° Festival de Veneza termina neste sábado, na sexta será exibida, em concurso, o último dos competidores pelo Leão, que tem DNA brasileiro: "Retorno A Buenos Aires", produção com a Itália, dirigida pelo chileno Marco Bechis. Rodado parcialmente em Porto Alegre, o longa revê o saldo das ditaduras sul-americanas, das quais seu realizador, hoje septuagenário, foi alvo.