crítica filme | o sorveteiro

O perigo vem com calda de sangue e casquinha de ossos

O perigo vem com calda de sangue e casquinha de ossos
Um Chicabon do capeta é o meio usado por Smiley (Ari Millen) para transformar crianças em parasitas em 'O Sorveteiro' Crédito: Divulgação

Transformado em guloseima, no cardápio político do gênero terror, o filão slasher movie afiou seu corte para a Eternidade no esmeril estético de John Carpenter e seu "Halloween" (1977), abrindo-se sazonalmente para outras grifes. As mais perfurantes são as de Damien Leone (na saga "Terrifier"), de Ti West (em "MaxXxine") e, num eixo mais farofa, de Eli Roth, ator e diretor que interpretou o Urso Judeu em "Bastardos Inglórios" (2019).

Ele explorou com pujança o estilo "tripas à mostra" desse eixo gramatical da narrativa horrorífica em "O Albergue" (2005) e "Feriado Sangrento" (2023). Arrisca agora dar seu passo mais largo nessa caminhada com "O Sorveteiro" ("The Ice Cream Man"), que sabe ser eletrizante. Eli almeja eriçar o moralismo trabalhando no registro da violência infantojuvenil, assolada por dois diabos, o infanticídio e a pedofilia, que nem o Inferno tolera. Não é nessas nojeiras que ele opera. Sua ideia é retratar como a América fabrica violência já na mais tenra idade, ao fomentar o ódio como um credo que se espalha - em metástase - já em fases mirins da vida. Fabrica, para isso, a metáfora de um doceiro que usa cremes gelados - em casquinha, com calda, mas manipulados - para fazer guris e gurias virarem máquinas de matar. O tal Freddy Krueger por trás desse anti-Kibon se chama Jonathan Smiley e é encarnado com viço satânico por Ari Millen. Ele vira um ferrabras num mundo de hipocrisia, onde tudo soa falsa. A direção de arte, meticulosamente detalhista, ajuda um bocado a firmar essa percepção, num colorido exagerado, expandido pela fotografia de Simon Shohet, de modo a parecer as pinturas do american way of life do artista plástico Norman Rockwell (1894-1978). Roth só erra em não encontrar um tom preciso em sua montagem, que amplia o senso de perigo naquela sociedade de mentiras aparentes.