crítica FILME | Gonzaguinha, Da Maior Liberdade

Tatuagem afetiva da saudade

Tatuagem afetiva da saudade
Luiz Gonzaga Júnior e o pai, o Rei do Baião, Gonzagão, numa imagem de arquivo que Susanna usa em sua lira poética Crédito: TV Globo

Explosivo em sua opção de acender o pavio da luta contra a censura, "Gonzaguinha, Da Maior Liberdade" incendiou o Palácio dos Festivais de Gramado, em sua passagem pela competição de Não Ficções do evento, e desceu a Serra Gaúcha com o Kikito de Melhor Documentário. Sua destreza técnica é notável, tal qual sua manha para tomar plateias de assalto, afinando-se com o investimento afetivo que o Brasil faz no cantor e compositor citado no título.

Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior (1945-1991) se desenha nesse poema cinemático de Susanna Lira como um trovador libertário que pensou sua obra para ser uma conjuração poética, pautada pelo verbo "desagarrar", aplicável tanto aos grilhões do querer tóxico quanto a vis interditos impostos por governos de quepe e farda. Mais prolífica documentarista das Américas na atualidade, La Lira modula os feitos de seu personagem num arranjo narrativo que supera as fórmulas biográficas convencionais, atomizando qualquer resquício de verbete de Wikipedia hoje muito associado ao filão dos "filmes de retrato".

Faz um tempo que a diretora de "Torre das Donzelas" (2018), conhecida também por séries como "Casão, Num Jogo Sem Regras" (2022), rompeu com as linearidades ortodoxas da geometria da informação para investir nos fractais da poesia. Num exercício de genealogia, seu novo (e dilacerante) filme evoca o trabalho da americana Shirley Clarke (1919-1997), a cineasta com quem Susanna mais parece dialogar, no Tempo, na História.

Basta uma frase colhida de uma sabatina da realizadora de "In Paris Parks" (1954) para que se entenda sua conexão com Fernanda Young: "Nunca tive certeza sobre o mundo a que eu pertenço". Shirley dirigiu 32 filmes entre 1952 ("Jelly Roll Morton") e 1985 ("Ornette: Made In America"), consagrando-se como um dos pilares do documentário estadunidense. Fez o que se chama de avant-garde, em forma de curtas-metragens, e, como Susanna, galgou a excelência no terreno do .doc biográfico, com "Robert Frost: A Lover's Quarrel With The Wolrd" (1963) e o magistral "Portrait of Jason" (1967). É o mesmo terreno no qual Susanna, filme a filme, série a série, afirma-se como uma das documentaristas mais indomáveis de nosso país hoje, vide "Nada Sobre Meu Pai" (2023) e "Mussum, Um Filme do Cacildis" (2019).

A máxima de Shirley Clarke era: "Todo processo que desenvolvo vem do fluxo do movimento e do ritmo da montagem, numa dualidade de fantasia e realidade que convivem juntas, em toda imagem filmada". Essa tensão já estava no dialético "Fernanda Young - Foge-me Ao Controle" (2024), que colocou a dinâmica criativa de Susanna a um lugar de ensaio, a um jorro que, em "Gonzaguinha", é tão incontinente quanto o da cabeça do bardo sobre o qual se debruça.

Um dos vetores encantatórios de atração nessa produção é o desempenho do ator André Dale encarnando Gonzaguinha numa prática processual de interseção entre documentário e ficção. Dale é a ferramenta que permite uma transcendência aos grilhões da conveniência imposta a um registro cinematográfico que demanda registros de arquivo para existir. O longa de Susanna existe (e resiste) para além deles. A relação de Susanna com Gonzaguinha, aliás, nasceu muito antes de ela imaginar transformar a obra dele em cinema. Ainda criança, a diretora ouviu "Grito de Alerta" no disco "Mel", de Maria Bethânia, comprado por sua mãe. A canção ficou como uma espécie de tatuagem afetiva pintada a som, estrofes, saliva e suor. Sinestesia pura.

Na presença de Dale, Susanna faz o passado respirar e, sobretudo, embaralha fronteiras de fatos e invenções. O arquivo comprova; a ficção imagina; a montagem põe os dois a papear.