Cinema

Curta, iguaria que nutree faz crescer

Sessão de filmes em formato pílula mobiliza a Caixa Cultural na hora do almoço e afina a luta do curador Guilherme Whitaker em ampliar o acesso do público ao audiovisual de invenção

Curta, iguaria que nutree faz crescer
'Dela' é uma das pérolas desta quinta na Caixa Cultural Crédito: Divulgação

A fominha que bate das 12h às 14h, fervida no calor do batente, será aplacada com narrativas recheadas de brasilidade nesta quinta-feira (3), na Caixa Cutural Rio de Janeiro, graças a um menu temperado a lirismo, regado num caldo de reflexão sociológica, aberto à degustação na 13ª mostra "Curta no Almoço". A programação começa ao meio-dia com "La Caramela" (2023), de Gian Orsini, e "As Marias" (2023), de Dannon Lacerda. Às 12h45, entram em cena "Dela" (2018), também de Orsini, e "Pai em Versos" (2023), de Julio Folha. Fechando o dia, às 13h30, será exibido "Nação Comprimido" (2024), de Bruno Tadeu. As sessões são gratuitas e fazem parte de uma seleção de 20 filmes (sempre em formato pílula, que serão exibidos até 25 de setembro na unidade da Rua do Passeio.

Macaque in the trees
Bambas do teatro dão vida ao curta 'Nac?a?o Comprimido' | Foto: Divulgação

Idealizador e curador da mostra, Guilherme Whitaker vê no formato curta uma das expressões mais democráticas do audiovisual contemporâneo, sobretudo depois da popularização das câmeras digitais e dos celulares.

"O curta nacional, há décadas, tem primado pela diversidade e qualidade, comprovada pela quantidade de filmes feitos por ano e a sua presença em festivais internacionais, não raramente com premiações. Uma das graças do curta é sua facilidade de realização, possível principalmente depois da popularização do vídeo e, depois, do digital, presente hoje na vida de quase todos, via celulares", afirma. Para ele, a transformação tecnológica ampliou radicalmente o direito de produzir imagens. "Poeticamente, então, é maravilhoso perceber que qualquer pessoa, hoje, consegue se expressar audiovisualmente em poucos minutos, mesmo sem ter tido qualquer formação em cinema. É a liberdade máxima."

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'As Marias' carrega a grife de excelência narrativa de Dannon Lacerda | Foto: Divulgação

A sessão do meio-dia desta quinta evidencia algumas das linhas de força da curadoria. "As Marias" coloca em cena mulheres pressionadas por expectativas familiares, religiosas e conjugais, que procuram romper com silêncios e formas de invisibilidade. Logo depois, "Dela" aborda identidade, aparência, autoestima e pertencimento a partir da infância, enquanto "Pai em Versos" divide a sessão das 12h45. Já "Nação Comprimido", exibido sozinho às 13h30, cruza envelhecimento e afirmações de orientação sexual ao tratar da população queer idosa, num olhar sobre militância e a necessidade de criação de espaços de acolhimento.

Whitaker enxerga nesses filmes meios de formar um retrato necessariamente fragmentado de um país que se transforma. "Buscamos, na curadoria, fazer um pequeno painel com filmes que retratam questões relevantes ao Brasil de hoje. A mostra reúne diferentes identidades, experiências sociais e perspectivas", diz o cineasta, produtor e programador.

Criado em 2007, o "Curta no Almoço" parte de uma ideia simples: inserir o cinema nacional justamente no intervalo de quem trabalha ou circula pelo Centro. São três sessões diárias, de terça a sexta-feira, às 12h, 12h45 e 13h30, com programas de pouco mais de 20 minutos. "Isso cria um conceito muito interessante: levar o cinema brasileiro para dentro da rotina cotidiana do trabalhador e do frequentador do Centro do Rio, utilizando o horário do almoço como oportunidade de acesso cultural, algo exótico e, também por isso, cativante", explica Whitaker. "É fundamental agradecer à Caixa Cultural por ter querido retornar com tal projeto tão bacana e importante para a efetiva formação de público para o nosso cinema, visto que muitas pessoas que vão às sessões nunca viram antes um curta numa sala grande."

A seleção atravessa ainda temas como racismo, ancestralidade, precarização do trabalho, juventude periférica, memória e inclusão. Whitaker cita "Avôa", de Lucas Mendes, sobre raça, masculinidade e memória de uma família preta e periférica; "Cidade Afluente", de Josianne Diniz, centrado em relações de trabalho marcadas pela pressão e pela insegurança; e "Lapso", de Carol Cavalcanti, sobre adolescentes da periferia submetidos à repressão e ao esquecimento institucional. Filmes dedicados a Cartola e Assis Valente acrescentam à programação uma reflexão sobre memória e contribuição afro-brasileira.

Até o dia 25, a mostra alterna ficções, documentários, animações e obras híbridas produzidas em diferentes regiões do país. Nos dias 23 e 24, haverá ainda sessões acessíveis para pessoas com deficiência auditiva e visual. O encerramento, no dia 25, reúne "Chega de Demanda, Cartola", de Roberto Moura, e "A Jornada do Valente", de Rodrigo de Janeiro, seguido de conversa com os realizadores. Até lá, a proposta permanece a mesma: fazer caber uma pequena janela para o cinema brasileiro entre o relógio do trabalho, a pressa do Centro e a hora de voltar ao expediente.