Cinema

Mirações chinesas

Produções da nova safra de expressões autorais da China ocupam diferentes telas do Rio num intercâmbio de culturas, com destaque para a animação

Mirações chinesas

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Pátria de artesões da imagem como Zhang Yimou e Jia Zhangke, a China atravessa um bem-vindo processo de ocupação das telas cariocas com o festival que oxigena o Rio de Janeiro com expressões comerciais e experimentos investigativo da linguagem audiovisual. Nesta sexta, essa maratona ocupa a Arena Carioca Fernando Torres, em Madureira, com "Liangzhu: Um Diálogo entre Civilizações", às 10h; "Eu Sou O Que Sou", às 11h; e "Filho Cabeçudo e Pai Cabeçudo" (uma animação), às 14h. Nos dias 20 e 21 de agosto, o evento se muda para o C4 - Biblioteca Parque da Rocinha, com programação voltada ao público da comunidade e também aberta ao público geral, incluindo curtas de um concurso chamado Jovem Cineasta.

Ali, a V Mostra de Cinema China Brasil - com curadoria de Hélio Pitanga e Arthur Chen - se abre para pérolas como "Os Temíveis Monstros da Dinastia Tang" e "Master Zhong". No dia 21, a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), na unidade Villa Aymoré, na Glória, vai sediar um bate-papo com players do mercado cinematográfico chinês, num fórum de fomento e intercâmbio. Essa maratona se despede no próximo dia 25 com uma exibição no Instituto Zeca Pagodinho, em Xerém, Duque de Caxias, levando à Baixada Fluminense um dia inteiro de programação dessa troca sino-brasileira.

"As pontes culturais têm as suas raízes nas questões relacionadas com o desenvolvimento da humanidade e numa profunda valorização dos valores de outras civilizações", explica, por email, Zhou ZMG, diretora de "Liangzhu: Um Diálogo entre Civilizações", o documentário que parte da cidade milenar de Hangzhou, na Ásia, e chega à floresta amazônica. "O Oriente e o Ocidente seguiram caminhos diferentes, mas cada um chegou a respostas notáveis. Partilhar e aprender uns com os outros pode proporcionar-nos novas perspetivas hoje em dia. No seu cerne, porém, as pontes culturais assentam na comunicação e no diálogo entre as pessoas"

De janeiro para cá, 33 longas-metragens tornaram-se blockbusters, ou seja, passaram da raia de US$ 100 milhões. E pela primeira vez desde a pandemia, temos cinco longas nas raias do bilhão (de dólares) em faturamento mundial: "Homem-Aranha: Um Novo Dia", "A Odisseia", "Toy Story 5", "Michael" e "Super Mario Galaxy". Nesse perímetro de sucesso, a China tem um protagonismo notável, ao ocupar o oitavo lugar entre as maiores vendas de ingressos de 2026 com "Pegasus 3", que acumula US$ 656,4 milhões. Terceiro capítulo da franquia criada por Han Han, o longa mistura automobilismo, humor e drama esportivo, mantendo o enorme apelo popular da série iniciada em 2019. O dado mais impressionante é que praticamente toda sua receita veio do mercado internacional — sobretudo da própria China —, já que apenas 0,2% da arrecadação foi registrada nos cinemas norte-americanos.

Quando se estende a análise para 20 longas mais rentáveis do primeiro semestre para cá, há ainda mais três chineses: "Dear You", "Kung Fu Soccer" e "Blade of the Guardians". Nessa seara pop, a V Mostra de Cinema China Brasil trouxe até nós um thriller com Jackie Chan: "Operação Sombra", de Larry Yang. Veio ainda o já mencionado "Filho Cabeçudo e Pai Cabeçudo", exemplar de uma das franquias animadas mais popular daquela nação, dirigida por Liu Kexin. Vale lembrar que, em 2025, o maior faturamento global foi de uma animação chinesa: "Ne Zha 2 - O Renascer da Alma", que contabilizou cerca de US$ 2,2 bilhões. É o primeiro longa não americano, na História, a entrar para o clube dos longas bilionários.

O título internacional do projeto de Kexin é "Big Head Son and Small Head Dad"., No derivado a ser exibido aqui, o Filho Cabeçudo e o Pequeno Pai Cabeçudo acabam reduzidos a um tamanho minúsculo, durante uma visita a um parque temático tecnológico, e precisam enfrentar o mundo real em escala gigante, embarcando em uma divertida aventura de união familiar.

"Quer o público esteja no Brasil ou noutros países, é possível se identificar com os temas comoventes de companheirismo, tolerância e crescimento partilhado presentes nas nossas histórias", diz Kexin. "Continuamos a desenvolver narrativas realistas sobre a relação entre pais e filhos, enraizadas no quotidiano, que atraem tanto os jovens espectadores como o público de todas as idades, transformando a animação familiar chinesa num meio acessível para a comunicação intercultural. Em primeiro lugar, investimos em enredos e numa estética visual enraizados no autêntico cotidiano chinês. O design das personagens vai ao encontro dos gostos das crianças chinesas, com um estilo distinto que se diferencia do design clássico das personagens japonesas. Todos os cenários inspiram-se em espaços residenciais e paisagens urbanas contemporâneas reais da China, enraizando cada narrativa no quotidiano genuíno do povo chinês. Em segundo lugar, a nossa lógica narrativa e os nossos fluxos de trabalho de produção são adaptados para contar histórias familiares ao estilo de nossa nação".