Frases como “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome” (extraída de “Perto do Coração Selvagem”, de 1943) são, em certa medida, responsáveis por uma associação com o existencialismo feita pelos “manuais” de literatura (como qualquer bom Douglas Tufano da vida) ao classificarem Clarice Lispector (1920-1977) nas escolas. É um tal de intimismo isso... inquietação existencial aquilo... mistérios da alma acolá. Até a australiana Cate Blanchet seguiu por essa trilha, ao mencionar a escritora, quando recebeu o troféu Donostia, em San Sebastián, na Espanha, em 2024, citando o que parece ser um paradigma espiritual lispectoriano: “tudo aquilo que não sei forma a melhor parte de mim”. Diante desse estado de coisas, que muito decifrou, mas muito pode rotular, uma das maiores riquezas do filme “Rio de Clarice”, hoje em circuito, está em trazer a autora ucraniana-brasileira para o plano da infraestrutura, ou seja, um terreno social, onde se pega bonde; onde a kombi lota; onde a cartela do ovo a dez reais cai... e escorre em gema mole; onde se estocam salgadinhos de festa de aniversário a fim de evitar a fominha de daqui a pouco; onde o táxi faz lotada em tardes de chuva.
Da mesma maneira como “Monika e o Desejo” (1953) leva o cinema conhecer um Bergman (1918-2007) mais atento à mais-valia do que aos engasgos metafísicos, “Rio de Clarice” faz a gente entrar por uma Clarice onde os males do espírito doem, mas doem tanto quanto os males do bolso vazio, do tráfego abarrotado e das periculosidades inerentes ao machismo. Trata-se de um filme em segmentos (qual “Boccaccio ’70”), com cinco hemisférios, numa matemática não cartesiana, mas, sim, nietzschiana, como a do “Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera” (do finado Kim Ki-Duk), onde cada eixo equivale a um conto. Cada uma das historietas equivale a um problema... da sociedade, isto é, do coletivo (e não do indivíduo), indo da hipocrisia nas celebrações familiares ao risco da violência contra a mulher. Na costura de cada trecho desse, há uma Lispector que olha o real com a mesma transcendência com que olha para dentro. É aquela Lipsctor que dizia, em “A Hora da Estrela” (1977): “Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”.
A referência a cima ao termo “real” (modulado como a contingência chamada realidade) se põe nesse longa-metragem por um eixo ora marxista, ora funcionalista, sempre atento aos dilemas e as forças da condição feminina. Não por acaso, encontra-se a presença de artistas com experiência documental em vários leitos desse rio, da assistente de direção (sempre precisa) Ana Izabel Aguiar à diretora-geral e idealizadora desse jogral, Nicole Allgranti, que é sobrinha-neta de Clarice. Encontra-se, entre as realizadoras, Taciana Oliveira, documentarista com CEP no Recife que fez o mais suntuoso registo de não ficção sobre a diva da prosa por trás de “Água Viva” (1973): o longa “Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo” (2022).
Também ligada a documentários (incluindo um projeto sobre as mãos do fotógrafo e artista visual Walter Carvalho), Viviane Rangel é o solfejo que une as cinco claves... de luz... de “Rio de Clarice”, ao ocupar o posto de diretora de fotografia. A maneira com que ela brinca com as cores é de uma destreza rara, e consegue dar um acabamento plástico que uma produção de orçamento mirrado raramente teria não fosse seu coeficiente de invenção com o obturador... com a escala cromática... com a temperatura de cor de cada ambiente.
Fora esse contingente do patrimônio documental brasileiro, “Rio de Clarice” apela para uma nata teatral em estado de graça em seu elenco, o que assegura situações inusitadas (leia-se “inteligentes”) na lida com o verbo e com o silêncio. Luiz Octavio Moraes é um desse agentes do caos dionisíaco das coxias, trazendo um frescor para o segmento “Feliz Aniversário”, de Maria Luiza Aboim, que o cinema desconhece. Louise Cardoso, anfíbia das telas e do palco, dá seu show à parte também.
Regente dessa orquestra de muitos talentos, Allgranti esteve no Festival de Brasília de 2003 com o belíssimo curta “O Ovo” (que trazia os diabretes Maria Bethânia e Luiz Carlos Bigode Lacerda em seu mix de talentos), decalcado da albumina de sua tia-avó. Ela dirige um dos blocos, “A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais”, que, nessa dinâmica transdisciplinar com o teatro, faz de Guida Vianna sua Sancho Pança e incumbe Letícia Isnard de ser sua Quixota.
Taciana Oliveira dirige “Amor” fazendo das palavras de Lispector um caligrama. Suas frases se põem ao lado do que (uma inspirada) Bia Sion e Julio Levy fazem no quadro, numa forma de abalroar a literatura pelos flancos, construindo signos políticos provocativos. Já Barbara Kahane faz jus ao título do conto sob a qual opera, “Preciosidade”, retratando os lobos de um Brasil de sexismos a narrar o amadurecimento – a fórceps – de uma jovem. Conta com o empenho de Karolyna Mendes e Duaia Assumpção para transcender e entrega um filme de farpas, com potência que nos atravessa.
Cada eixo desse tem sua beleza, mas nada soa mais bonito do que ver uma documentarista da relevância de Eunice Gutman se arriscando a ficcionalizar em “Mal-estar de um Anjo”, que pode, sem temor, ser encarado do o eixo mais luminoso de todo o filme. Eunice dá corpo e inquietude cinematográfica à personagem Anjo — a figura que mais se aproxima da própria Clarice Lispector. Após sair do psicanalista sob forte chuva, ela pega um táxi, mas a viagem toma um rumo inesperado quando uma “invasora” implora por carona. Ao ceder espaço, Anjo vê a estranha tentar dominar a situação e mudar o itinerário, instaurando um intenso conflito psicológico. Letícia Spiller e Gabrielle Farias inundam o quadro de potência, com direito a uma saborosa participação de Dora Pellegrino, uma estrela que deveria filmar sempre.
Imperfeito, mas imperdível (partindo-se da certeza de que nenhum filme dos dias hoje, fora “A Odisseia”, alcança a perfeição), “Rio de Clarice” é uma aventura cinéfila que pode aproximar muita gente de uma artífice da palavra que alcançou a Eternidade. É um filme para se gostar do cinema... é um filme para se gostar de ler... é um filme pra geral ter em mente uma equipe de profissionais notáveis.
Rodrigo Fonseca é crítico de cinema do Correio da Manhã
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