Desta até o dia 22, o site oficial de Gramado reúne pérolas numa mostra online acessível. O maior tesouro desse canteiro digital do festival, este ano, é assinado por um roqueiro, escritor, professor e, sobretudo, bamba da direção: Carlos Gerbase. "Bio" (2018) é um de seus filmes de vísceras sentimentais à vista. Reencontrá-lo via web é um jubilo.
Nos tempos em que o Rio Grande do Sul vicejava as telas do país com narrativas de invenção, consolidando-se como uma das jazidas mais auríferas de originalidade em formas e tramas, ao longo dos anos 1980 e da primeira metade dos 90, Gerbase surgiu como se fosse um sátiro no Olimpo de realizadores instigados pelos gargalos políticos da época. Chegou chegando, sempre a propor uma reflexão sobre o desejo como exceção às regras impostas. Curtas seminais como "Sexo & Beethoven - O Reencontro" (1980) e "O Corpo de Flávia" (1990) e o longa-metragem "Tolerância (2000), um marco erótico de nossa Retomada, depuraram a estética avessa a juízos morais construída por ele em paralelo a uma vibrante jornada literária. Sua prosa, expressa em romances ("Professores") e contos ("Como Comer a Pêra" é uma joia de escrita), é igualmente marcada por ensaios observacionais sobre o embate entre os verbos "desejar" e "obedecer". E a cada mergulho dele nas telas, essa observação busca dispositivos narrativos que transgridam o lugar comum dos filmes sobre afetos, como é o caso de "Bio - Construindo uma vida", laureado com o prêmio do júri popular de Gramado, em 2017. Essa produção conquistou ainda um (merecidíssimo) Prêmio Especial do Júri Gramadense, dado à sua fina direção de atrizes e atores - são 39 estrelas ao todo, revezando-se em depoimentos. Tudo segue um formato de mockumentário. Esse é o nome que se usa pra designar falsos documentários, como é o caso de "Zelig" (1983) e "This is Spinal Tap" (1984).
Em "Bio", escudado pela fotografia de Bruno Polidoro, Gerbase atomiza as cartilhas do biopic ao construir a biografia de um cientista fictício. Seu nome sequer é citado, mas seus feitos, em suas pesquisas sobre símios e em suas cirandas amorosas, mexeram com a vaidade de muita gente, em seus 110 anos. Entre o fim dos anos 1950 e um futuro de 2070, parecido com o que Jia Zhang-ke esboça em "As Montanhas Se Separam" (2015), o pesquisador criado por Gerbase protagonizou peripécias românticas e profissionais das mais inusitadas. É o que nos contam o psicólogo vivido por Marco Ricca (num show de elegância), a médica encarnada por Maitê Proença com uma ironia ferina ou a dúbia exobióloga interpretada por Maria Fernanda Cândido, que ganhará o Kikito de Cristal por feitos como este.
Cada uma das pessoas filmadas por Gerbase peça num puzzle sobre modos de amar, de perder e de gozar num Brasil cheio de cabrestos, incluindo sexuais. A montagem de Milton do Prado dá uma progressão aritmética a cada fala delas, criando uma contínua exponenciação de desabafos que se complementam seja pela atração, seja pela controvérsia. É um filme onde a inteligência nos guia memória adentro. (R.F)
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