Prestes a chegar aos 84 anos, o alemão Werner Herzog já tem destino certo para “Bucking Fastard”, seu aguardado retorno à ficção: depois de disputar o Leão de Ouro na 83ª edição do Festival de Veneza, de 2 a 12 de setembro, o filme seguirá para o País Basco, onde será exibido no Festival de San Sebastián, entre 18 e 26 de setembro. A passagem por Donostia terá um peso especial: na cerimônia de abertura do evento, o artesão autoral germânico ceberá o Prêmio Donostia, a maior honraria honorária do festival espanhol.
Rodado na Irlanda e estrelado pelas irmãs Kate Mara e Rooney Mara, além de Orlando Bloom e Domhnall Gleeson, “Bucking Fastard” acompanha Jean e Joan Holbrooke, duas gêmeas cuja ligação ultrapassa qualquer noção convencional de intimidade. Elas falam em uníssono, amam o mesmo homem, compartilham os mesmos sonhos e chegam a cometer simultaneamente os mesmos lapsos de linguagem. O filme tem 109 minutos e é uma coprodução entre Irlanda e Estados Unidos.
O projeto é uma espécie de retorno de Herzog ao território ficcional depois de uma trajetória nas últimas décadas fortemente associada ao documentário. E a palavra “retorno” talvez seja especialmente adequada para um cineasta que nunca deixou de circular entre mundos: cinema de invenção e registro, atuação e direção, literatura e ópera, realidade e delírio.
Há pouco mais de um ano, Herzog já havia sido celebrado em Veneza. Em 27 de agosto de 2025, na abertura da 82ª edição do festival italiano, ele recebeu o Leão de Ouro pelo conjunto da carreira. Na ocasião, o alemão fez questão de avisar que a homenagem não significava aposentadoria. Pelo contrário: disse que havia acabado de concluir o documentário “Ghost Elephants”, na África, e que estava rodando “Bucking Fastard” na Irlanda.
A profecia se confirmou. Agora, “Bucking Fastard” chega à competição oficial da 83ª edição do Festival de Veneza, que ocupará o Lido entre 2 e 12 de setembro.
A fama de Herzog como um cineasta disposto a se colocar em situações extremas não nasceu do marketing. Ao longo de seis décadas, ele construiu uma obra em que a fronteira entre o risco artístico e o risco físico frequentemente parece desaparecer. “Fitzcarraldo” (1982), filmado na Amazônia e estrelado por Klaus Kinski, é o exemplo mais famoso. A aventura lhe rendeu o prêmio de Melhor Direção em Cannes e se tornou um dos grandes mitos da história do cinema.
Foi também na Amazônia que Herzog estabeleceu uma relação importante com o cinema brasileiro. “Fitzcarraldo” contou com participações de José Lewgoy e Grande Otelo, enquanto Ruy Guerra, diretor moçambicano radicado no Rio, tornou-se um de seus parceiros de trabalho. A relação do alemão com o Brasil também passaria por “Cobra Verde” (1987).
Em 2017, Herzog recebeu a Carroça de Ouro, troféu honorário da Quinzena de Cineastas de Cannes, justamente pelo conjunto de uma filmografia que nunca se conformou com os limites convencionais entre ficção e documentário.
Sua carreira inclui ainda “Aguirre, a Cólera dos Deuses” (1972), “Nosferatu, O Vampiro da Noite” (1979), “Fitzcarraldo”, “O Homem-Urso” (2005) e “Encontros no Fim do Mundo” (2007), documentário ambientado na Antártica que lhe rendeu uma indicação ao Oscar.
Foi em torno de “O Homem-Urso” que Herzog voltou a ser lembrado, de maneira especialmente intensa, como um artista fascinado por personagens que desafiam os limites da racionalidade. O filme acompanha Timothy Treadwell, ativista que passou anos vivendo próximo de ursos no Alasca até ser morto por um deles.
A própria palavra “louco” já foi usada para definir Herzog em diferentes momentos de sua trajetória, sobretudo por causa das peripécias enfrentadas durante filmagens como as de “Fitzcarraldo”. O cineasta, entretanto, prefere pensar seu trabalho como uma tentativa de investigar aquilo que escapa à racionalidade.
“Existe a ordem racional e existe a natureza. O cinema é algo que interponho entre esses dois extremos”, disse Herzog ao Correio da Manhã, em Cannes, em 2019, durante uma palestra ao lado da atriz Julianne Moore e do diretor e ator Xavier Dolan. “Existe um mundo lá fora, sem regras da moral, distante dos dispositivos do processo artístico, onde as pessoas vivem em ambientes muito diferentes do que qualquer contingência da razão possa definir. Eu saio a campo, com a câmera na mão, em busca dessas práticas de viver, a fim de conhecê-las, mas não de dominá-las. Faço cinema desde o tempo em que só festivais absorviam práticas como essa. Hoje, há mais diversidade, mas o risco ainda instiga”.
É justamente essa combinação de curiosidade, risco e obsessão que o diretor artístico de Veneza, Alberto Barbera, destacou ao justificar o Leão de Ouro concedido ao alemão em 2025.
“Cineasta físico e caminhante incansável, Werner Herzog atravessa constantemente o planeta Terra em busca de imagens até então inéditas, testando nossa capacidade de olhar, desafiando-nos a compreender o que está além da aparência da realidade e sondando os limites da representação cinematográfica em uma busca incansável por uma verdade mais elevada e extática e por novas experiências sensoriais.”
Barbera também ressaltou a posição singular de Herzog no cinema alemão: “Estabelecendo-se como um dos principais inovadores do Novo Cinema Alemão com filmes como ‘Sinais de Vida’; ‘Nosferatu, O Vampiro da Noite’; ‘Aguirre, a Cólera dos Deuses’; e ‘Vicío Frenético’, ele nunca deixou de testar os limites da linguagem cinematográfica, contrariando a distinção tradicional entre documentário e ficção”.
Na avaliação do diretor de Veneza, essa trajetória também é marcada por uma exposição física incomum. “A carreira de Herzog é fascinante e arriscada, pois envolve comprometimento total e exposição pessoal a riscos físicos, onde a catástrofe está sempre à espreita. Brilhante narrador de histórias incomuns, Herzog é também o último herdeiro da grande tradição do romantismo alemão, um humanista visionário e um explorador incansável”.
O discurso ajuda a explicar por que a presença de Herzog em San Sebastián não será apenas a de um diretor apresentando um novo filme. O Prêmio Donostia, que será entregue durante a cerimônia de abertura da 74ª edição, reconhecerá uma carreira que já atravessou cerca de 80 filmes e seis décadas de cinema. A sessão especial de “Bucking Fastard” acontecerá no Teatro Victoria Eugenia, antes da cerimônia de entrega da honraria no Kursaal.
A geografia de risco de Herzog chegou a virar exposição. Em 2023, a Deutsche Kinemathek, em Berlim, reuniu desenhos, objetos e fotografias que acompanhavam sua trajetória pelo cinema, com destaque para a passagem pela Amazônia durante “Fitzcarraldo”. Imagens de Claudia Cardinale e Klaus Kinski dividiam espaço com objetos ligados à produção de “Nosferatu”, numa espécie de cartografia de uma carreira construída à margem das convenções.
A mente humana, aliás, é outro território que Herzog investiga com frequência. Ao lançar “Uma História de Família”, uma de suas raras ficções nas últimas décadas, ele explicou ao Correio da Manhã como trabalha com intérpretes profissionais e pessoas sem experiência diante das câmeras.
“Eu já consegui extrair de atores como Nicolas Cage atuações bem-humoradas que te fazem sentir diante de uma comédia com Eddie Murphy, aquelas boas, hilárias, dos anos 1980, mas já consegui fazer com que pessoas sem qualquer experiência teatral se abrissem para a atuação, só focando no que a condição humana tem de mais simples, de mais corriqueiro”, disse.
E resumiu sua filosofia numa frase que poderia servir como chave para boa parte de sua obra: “É preciso saber observar a Natureza. Os espetáculos todos brotam da Natureza”.
Hoje radicado em Los Angeles, Herzog divide seu tempo entre o cinema, a literatura e o ensino. Continua dirigindo documentários, escrevendo livros e atuando — atividade que o levou a aparecer em produções como “Jack Reacher”, “The Mandalorian” e “Os Simpsons”.
“Bucking Fastard”, portanto, chega a Veneza carregando mais do que a expectativa por uma nova ficção de um mestre do cinema alemão. O filme representa a continuidade de uma carreira que o próprio Herzog se recusou a tratar como encerrada quando recebeu o Leão de Ouro em 2025.
Do Lido veneziano ao País Basco, o percurso está traçado: primeiro, a disputa pelo principal prêmio do Festival de Veneza; depois, a celebração de uma obra que transformou o risco, a natureza e os limites da razão em matéria-prima cinematográfica.
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