Oráculo premonitório do que a IA faz entre nós, "Metrópolis", de Friedrich Christian Anton Lang (1890 -1976), chega aos 100 anos no dia 10 de janeiro de 1927 e seu aniversário já conta com um par de concertos inspirados em sua trilha sonora agendados para abril de 2027 pelas Sinfônicas de San Francisco e do Oregon, nos EUA. Em fevereiro, espera-se uma festa para esse marco da ficção científica na Berlinale. Antes disso, nesta terça-feira (4), o Brasil se antecipa à onda de celebrações desse centenário com uma retrospectiva, na Caixa Cultural que usa o nome do filme como título, ao lado de uma frase explica tudo: "Da Invenção do Futuro às Ruínas do Sonho Moderno".
As 69 atrações selecionadas para essa maratona dialogam com uma ideia de porvir conectada às reflexões de Lang. Esta tarde, às 15h, tem pérolas como "Ficção Científica Silenciosa: A Conquista do Céu" (de Ferdinand Zecca, lançada em 1901); "Viagem Através do Impossível" (de Georges Méliès, estreada em 1904) e O Futurista Fugitivo (que Gaston Quiribet lançou em 1924). Às 17h30 passa "Seánce" (2009), de Christoph Hochhäusler, e "Aelita, a Rainha de Marte" (1924), de Yakov Protazanov.
A programação da Caixa, impecável, vai e volta no tempo, reservando para o aniversariante uma exibição única no dia 21 de agosto, às 17h, com acompanhamento musical ao vivo pelo cantor e compositor Negro Leo. Às vésperas de completar um século, "Metrópolis" reafirma sua pertinência e sua relevância quando se vê narrativas como "Megalópolis" (2024), poema mal compreendido de Francis Ford Coppola. A alegoria de Fritz Lang sobre desigualdade social, industrialização e luta de classes é uma influência que atravessa gerações: inspirou o nome da cidade do Superman; serviu de referência para a criação visual de C-3PO, da saga "Star Wars", deixou marcas em videoclipes de Queen e Madonna, além da obra de grupos como Kraftwerk, Motörhead, Ghost e Sepultura. Restaurado ao longo de décadas, após sofrer cortes em seu lançamento, o filme ganhou novo reconhecimento internacional em 2001, ao se tornar a primeira produção cinematográfica inscrita no Registro Memória do Mundo da Unesco.
Produzido pela UFA durante a República de Weimar, com um orçamento que, nas cifras de hoje, chegaria a 21 milhões de euros, "Metrópolis" foi escrito por Lang em parceria com Thea von Harbou, a partir do romance homônimo publicado por ela em 1925. Considerado um marco da ficção científica, o longa levou 17 meses para ser filmado, impressionando plateias pela combinação de cenários monumentais, arquitetura expressionista e efeitos especiais inovadores.
A trama acompanha Freder (Gustav Fröhlich), filho do governante da gigantesca cidade de Metrópolis, que abandona sua vida de privilégios ao conhecer Maria (Brigitte Helm), jovem que lidera espiritualmente os operários explorados nas profundezas da metrópole. Enquanto tenta unir as classes rivais, Freder enfrenta os planos de seu pai, Joh Fredersen (Alfred Abel), e do cientista Rotwang (Rudolf Klein-Rogge), inventor de um androide criado à imagem de Maria para manipular os trabalhadores e provocar uma revolta. A jornada culmina na célebre mensagem que sintetiza o filme: "O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração".
Em sintonia com essa trama, a mostra da Caixa Cultural almeja desenvolver os debates abertos por Lang sob o prisma dos 100 anos que separam o tempo atual, época imaginada pelo filme, do tempo de seu lançamento. Curadora da retrospectiva, Manoela Caldas destaca: "Se o futurismo é consequência da crença no projeto de desenvolvimento tecnológico da modernidade, o presente é marcado por uma sensação de perda do futuro, ou, mais propriamente, por uma crise de imaginação do futuro, quando nos vemos diante das catástrofes causadas por esse mesmo projeto."
Entre os títulos da mostra, estão "O Deserto Vermelho" (1964), do italiano Michelangelo Antonioni, que conquistou o Leão de Ouro e o Prêmio FIPRESCI, da crítica internacional, no Festival de Veneza; "Mundo por um Fio" (1973), do alemão R. W. Fassbinder; "Playtime - Tempo de Diversão" (1967), do francês Jacques Tati; "História de Taipei" (1985), do taiwanês Edward Yang, vencedor do Prêmio FIPRESCI no Festival de Locarno; "Em Algum Lugar, Alguém" (1972), da francesa Yannick Bellon; "Sob a Pele da Cidade" (2001), da iraniana Rakhshan Bani-E'temad; "Palermo ou Wolfsburg" (1980), do alemão Werner Schroeter, ganhador do Urso de Ouro no Festival de Berlim; e "O Auge do Humano" (2016), do argentino Eduardo Williams, vencedor de Melhor Filme na seção Cineasti del Presente, do Festival de Locarno.
Além da programação fílmica, o evento contará com atividades paralelas, como: um curso de três aulas ministrado pelo pesquisador argentino Fernando Martín Peña, especialista no longa "Metrópolis" e responsável por descobrir a cópia completa do filme, dada como perdida e restaurada em 2010; e três debates que procuram discutir os desdobramentos do longa dirigido por Lang em relação à atualidade. Também será distribuído um catálogo com textos e fotografias dos bastidores e inspirações do filme para aqueles que comparecerem a, pelo menos, um evento da programação.
Menu