Crítica de cinema

Esplanada de cicatrizes

"Pequenas Criaturas" é uma das maiores surpresas cinéfilas da produção autoral do país nesta temporada

Esplanada de cicatrizes
Helena e Carlos (Carolina Dieckmann e Caco Ciocler) provam da esperança na solidão de Brasília fotografada por Pablo Baião em "Pequenas Criaturas" Crédito: Divulgação

CRÍTICA: "Pequenas Criaturas", de Anne Pinheiro Guimarães

Capital de (des)encontros

Texto de Rodrigo Fonseca

O cinema brasileiro jamais registrou Brasília com delicadeza tão melancólica quanto a de Anne Pinheiro Guimarães em “Pequenas Criaturas”, um dos títulos nacionais de maior solidez entre as estreias deste ano, período de bilheterias ralas para a produção cinematográfica do país. Vencedor do Festival do Rio de 2025 na categoria Melhor Longa de Ficção, esse drama foi celebrado, no início deste ano, pelo público e pela crítica de outro evento de peso, a maratona cinéfila de Gotemburgo, na Suécia. Suas sutilezas arrebatam a Escandinávia. Agora, Anne conquista espaço justamente pela quietude na qual investe. Sua amargura doce — ou sua doçura amarga — transforma o paradoxo em método para renovar as representações do Distrito Federal em nosso imaginário.

Nascida em Brasília, criada entre idas e vindas da cidade, Anne faz da capital um organismo afetivo, conectando-se (em parentela) a uma linhagem cinematográfica que ajudou a eternizar o DF nas telas. Essa tradição começou pela via documental de Vladimir Carvalho (1935-2024), autor de um dos retratos mais decisivos da construção e das contradições brasileinses; reinventou-se pelo olhar radical de Adirley Queirós sobre as cidades-satélites, sobretudo em “Branco Sai, Preto Fica” (2014); ganhou novos contornos na filmografia de José Eduardo Belmonte, atento às tensões sociais e existenciais da capital; e agora encontra em Anne uma observadora que substitui o choque pela elegância, fazendo da memória um território de descoberta.

O Distrito Federal, território do Centro-Oeste onde passou a funcionar a capital da República a partir dos anos 1960, é cenário e personagem do delicado exercício de autogeografia proposto por Anne Pinheiro Guimarães. Ambientado em 1986, quando o país ainda aprendia a respirar democracia após duas décadas de ditadura e o rock brasileiro dominava as rádios com Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e RPM, “Pequenas Criaturas” transforma Brasília num espaço onde o horizonte monumental convive com um profundo sentimento de desenraizamento.

Essa percepção dialoga diretamente com a obra do poeta Nicola Behr, trovador do Cerrado, autor de "Poesília" (2010). É dele a constatação de que "o povo sai de Brasília, mas Brasília não sai do povo", ideia que atravessa todo o filme. Também ecoa em versos como "me abandone / te imploro / te peço / suplico / me abandone / que eu preciso sofrer". Eis a síntese perfeita das emoções que movem os planos de "Pequenas Criaturas".

Anne organiza sua narrativa em torno de uma família recém-chegada à capital. Carolina Dieckmann entrega uma das melhores interpretações de sua carreira como Helena, mulher que desembarca em Brasília acreditando estar começando uma nova vida. O sonho se desfaz quando o marido viaja a trabalho e um telefonema para o hotel é atendido por uma voz feminina. A partir desse instante, instala-se um vazio que contamina toda a família.

O filho adolescente enfrenta o primeiro amor sob o peso do bullying. O caçula de sete anos descobre um universo mágico por meio de amizades improváveis, especialmente com um vizinho interpretado por Fernando Eiras, que mistura estranheza e ternura numa composição memorável. Enquanto isso, Helena tenta reconstruir a própria identidade numa cidade monumental que parece ampliar todas as solidões.

Mais uma vez, Nicola Behr parece antecipar esse estado de espírito quando escreve: "Brasília já teve de mim o pedaço que queria". A cidade deixa de ser apenas cenário para se transformar numa força invisível que molda seus habitantes.

Visualmente, Anne Pinheiro Guimarães evita o fascínio turístico pelas linhas de Oscar Niemeyer. A fotografia dionisíaca de Pablo Baião privilegia o vazio entre os edifícios, os espaços abertos que parecem engolir seus personagens e a luz branca que amplia a sensação de distância emocional. Conjuga-se com perfeição à direção de arte madura de Claudia Andrade, também contemplada com um Redentor, no Festival do Rio, por sua destreza com a composição plástica do espaço. A montagem de Marília Moraes respeita o silêncio das cenas e permite que o tempo amadureça cada emoção.

O elenco funciona como uma engrenagem precisa. Letícia Sabatella oferece humanidade à vizinha que se torna porto seguro da protagonista. Fernando Eiras encontra enorme delicadeza num personagem que poderia facilmente descambar para a caricatura. E Caco Ciocler vive aquele raro tipo de homem que compreende o afeto antes do desejo, construindo um dos personagens masculinos mais sensíveis do cinema brasileiro recente.

Há momentos em que Anne aproxima seu filme da estrutura de mosaico de Robert Altman, especialmente pela maneira como distribui seus personagens num mesmo espaço emocional, embora sua inspiração esteja menos nas colisões narrativas de "Short Cuts" e mais na atmosfera rarefeita de "3 Mulheres". Ainda assim, "Pequenas Criaturas" possui identidade própria, encontrando beleza justamente nas pausas e nas hesitações.

Ao final, quando pequenos rasgos de fantasia atravessam um realismo até então rigoroso, o filme encontra uma forma cuidadosa de olhar para o alto, oferecendo aos personagens — e ao público — uma possibilidade de reconciliação. É um desfecho que confirma o talento de Anne Pinheiro Guimarães para transformar Brasília não apenas num espaço arquitetônico ou político, mas numa paisagem emocional onde perdas e descobertas convivem em permanente estado de suspensão.

Premiado no Festival do Rio, aplaudido em Gotemburgo e agora chegando ao circuito comercial, “Pequenas Criaturas” reafirma que o cinema brasileiro continua encontrando novas maneiras de olhar para o Distrito Federal. Vladimir Carvalho lhe deu um legado. Adirley Queirós lhe desenhou as entranhas. O José Eduardo Belmonte de "Subterrâneos" (2003) expôs suas inquietações contemporâneas. Agora, Anne Pinheiro Guimarães acrescenta um elemento raro a esse inventário: a ternura.