Há um entrave político retardando a estreia do trabalho mais recente (e, em certa medida, o mais surpreendente) do carioca (e botafoguense doente) João Moreira Salles fora de seu ofício na redação da revista "Piauí": o longa-metragem "Minha Terra Estrangeira". Nesta conversa com o Correio da Manhã, durante o festival Bonito Cine Sur, no Mato Grosso do Sul, o cineasta dá mais detalhes da situação. O caso é simples: estamos em ano eleitoral e o filme revisita as disputas políticas de 2022.
Assim sendo, só pode entrar em circuito depois do segundo turno (se houver) acabar. Esse mergulho em nosso passado recente envolve as lutas das populações indígenas sobretudo em relação a pelejas fundiárias. Não por acaso, parte desse contingente populacional entrou no projeto como coautor, assinando a direção com o realizador de cults como "No Intenso Agora" (sensação da Berlinale de 2017).
Produzido pela VideoFilmes, "Minha Terra Estrangeira" acompanha pai — Almir Suruí, líder indígena candidato a deputado federal por Rondônia — e filha — Txai Suruí, jovem ativista ambiental e hoje advogada — durante os 40 dias que antecederam a votação responsável por tirar Jair Bolsonaro do Palácio do Planalto, há cerca de quatro anos. Para a realização do filme, o coletivo Lakapoy — formado por cineastas indígenas Paiter Suruí e não indígenas — se uniu à cineasta Louise Botkay para registrar o cotidiano de Almir Suruí, enquanto o diretor João filmou Txai Suruí. O resultado é o encontro de duas perspectivas e seus contrastes, tocando em temas como quem representa, e, crucialmente, qual noção de tempo a cronologia da narrativa... e a da História... deve respeitar — a do indígena ou a do branco?
O lançamento do longa vai rolar, tão logo as eleições de 2026 terminem. Mas "Minha Terra Estrangeira" segue vivo, mesmo sem circuito. Antes de passar pelo Bonito CineSur, o feérico documentário, que estreou no É Tudo Verdade de 2025, participou também do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, em Goiás; do Santiago Festival Internacional de Cine, no Chile; do Festival do Rio; do International Documentary Film Festival Amsterdam; do Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte; do Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano de La Habana, em Cuba; do Big Sky Documentary Film Festival, nos EUA; do Hot Docs - Festival Internacional de Documentários, no Canadá; da Mostra Ecofalante de Cinema, em São Paulo; e integrou ainda as mostras COP 30 - Mostra Amazônia, em Belém, e BFI - Brazil on Film, no Reino Unido. É aplaudido com ardor por onde passa.
Há muito para Txai e Almir falarem, mas o longa sabe administrar quietudes também: "O silêncio por vezes diz que você está num mundo que não é o seu", disse João numa masterclass em Bonito. O diretor do aclamado "Santiago" (2007) segue nesse leito no bate-papo a seguir.
Existe uma natureza que pode ser classificada como "investigativa" nesse seu trabalho mais recente como cineasta, e ela é um tanto distinto de seus dispositivos narrativos anteriores. O que há de novo na metodologia de "Minha Terra Estrangeira" e o que esse longa-metragem mudou no seu modo (habitual) de fazer documentários?
João Moreia Salles - Esse filme começou de uma maneira muito convencional, quase repetitiva, pois partiu de uma ideia similar àquela que eu usei em "Entreatos", de 2004. Eu ia fazer com a Txai Suruí o que fiz naquele documentário sobre o Lula: ia acompanhá-la durante 40 dias, ao longo de sua campanha, assim como fiz com ele. Mas a coisa foi complicando, porque percebi que não dava mais para fazer o mesmo filme do mesmo modo. Em 2022, toda a discussão sobre representação e todas as assimetrias culturais tornaram isso impossível. São discussões importantes, embora às vezes acabem produzindo uma interdição: a ideia de que eu só posso fazer filmes sobre mim mesmo ou sobre pessoas com quem compartilho o mesmo solo cultural. Isso seria terrível. Não existiria Eduardo Coutinho com essas interdições. O Coutinho dizia: "Eu só faço filmes sobre quem eu não sou". Ele queria filmar mulheres porque nunca engravidou, nunca pariu; queria filmar negros porque nunca sofreu racismo. O que mudou para mim foi entender que as questões de representação não permanecem no mesmo lugar de sempre. Quando decidi fazer um filme com a Txai, ela disse: "Eu não quero mais ser representada. Eu quero representar". Isso mudou tudo.
Você já dirigiu em parceria antes, como foi a troca com Kátia Lund em "Notícias de uma Guerra Particular" (1999). Acerca de trocas, o cineasta Cacá Diegues (1940-2025) cunhou uma frase curiosa: "Existe uma diferença entre pacto e aliança. Pacto é uma troca na qual um dos lados sempre perde... tipo pactuar a alma. Aliança é uma troca onde os lados se complementam". Seu novo documentário é um filme de aliança. O que se aliançou com a Louise Botkay e o Coletivo Lakapoy no processo de "Minha Terra Estrangeira"?
A primeira solução que tivemos para o projeto parecia boa para ambos os lados: eles fariam um filme sobre o pai, o Almir Suruí; eu faria outro sobre filha, a Txai. Depois percebemos que esses filmes, isoladamente, não eram bons. Então fizemos uma versão em que a primeira parte era inteiramente filmada pelo coletivo indígena e a segunda era inteiramente minha. Eu queria deixar muito evidente o que era deles e o que era meu, para não vampirizar imagens. Mas, quando mostramos o primeiro corte, veio uma grande descoberta. Eles disseram, em essência: "Tudo o que vocês fizeram, imaginando um compartilhamento, ainda é insuficiente. O filme continua contando essa história do ponto de vista político de vocês. Ele não explica quem nós somos. Ele termina com uma vitória (a do Lula) e a experiência nossa, a dos povos indígenas, sempre foi a da derrota". Aquilo me impressionou profundamente. A partir daí, dessa fala, (os montadores) Eduardo Escorel e Laís Lifschitz, eu e o coletivo pegamos o martelo, quebramos o filme e o remontamos a partir de uma perspectiva que já não era mais a minha. Acho que é aí que a colaboração, a coautoria, realmente acontece.
A palavra "realidade" salpica a sua fala pública com frequência, sem vigília, mas, para a plateia que se formou com o seu cinema, esse termo tem um peso reflexivo. Esse verbete não é uma concretude; é uma dúvida. O que é realidade para o seu cinema?
Essa é uma pergunta que a Filosofia tenta responder há três mil anos. Vamos baixar a bola: o que é a realidade para um documentarista? É aquilo que você constrói na ilha de edição. A realidade do filme, aquilo que você diz do mundo, não é o mundo, e sim, o que você está dizendo sobre o mundo. Essa é a realidade pela qual eu sou responsável: a que vem da montagem. Lembro de uma entrevista maravilhosa do cineasta Chris Marker. Perguntaram por que ele usava tanto a primeira pessoa (o "eu"; o "nós") em seus documentários. Perguntaram se aquilo não era uma afetação. Ele respondeu algo muito bonito: "Ao contrário do que as pessoas pensam, o uso da primeira pessoa em documentários é um sinal de humildade. É como se eu dissesse: 'tudo o que eu tenho a oferecer sou eu mesmo. Eu sei quem eu sou. Eu sei como vejo o mundo. Então ofereço a você não o mundo, mas aquilo que eu vi e consigo contar sobre o mundo'". Acho que esse pensamento resume uma trajetória. No começo eu tinha a ideia ingênua de que o documentário mostrava a realidade. Hoje entendo que não. O que existe é aquilo que eu consigo dizer sobre a realidade. Eu sou apenas um intermediário.
"Minha Terra Estrangeira" já tem previsão de estreia?
Existe uma questão ligada ao período eleitoral. O filme trata das eleições de 2022 e, por isso, não poderá estrear durante um processo eleitoral. Vai estrear, mas ainda não posso dizer quando. Ele ainda está em negociação com plataformas de streaming, na verdade com duas.
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