Cinema

Versão brasileira nas teias da excelência

Voz oficial no Brasil de Tom Holland, o novo Homem-Aranha, Wirley Contaifer, de Caxias, vira celebridade na dublagem, renovando a potência estética de uma arte ameaçada pela IA

Versão
brasileira nas teias da excelência

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Embora "Homem-Aranha: Um Novo Dia" traga ninjas do Tentáculo e o Escorpião para lutar com o herói mais famoso da Marvel, qualquer nerd - ou cinéfilo escolado na trilogia de Sam Raimi, com Tobey Maguire - sabe que o maior inimigo do Escalador de Paredes é o Duende Verde. Da mesma forma, sabe-se hoje que o algoz n° 1 da dublagem nacional é a Inteligência Artificial, ou melhor, não a IA em si, mas a malversação dela por estúdios que refutam pagar um soldo digno a artistas da voz. Daí as redublagens (um crime contra o patrimônio cultural do país) com base em ferramentas digitais desumanizadas. Como todo bom super-herói, Wirley Contaifer almeja combater o Mal.

No caso dessa "maldade" capitalista que hoje acossa seu veio de trabalho, a forma que esse dublador caxiense de 35 anos encontrou para agir foi fazer jus ao jargão de seu personagem mais recorrente - e querido - nas telas, Peter Parker, o Aranha, e acreditar que "grandes poderes trazem grandes responsabilidades". A responsabilidade dele é conjugar o verbo "dublar" na desinência estética da invenção. Filme a filme, como voz oficial no Brasil do ator inglês Tom Holland - inclusive no fenômeno "A Odisseia", de Christopher Nolan -, esse herdeiro de uma tradição que aclamou gênios como Orlando Drummond e Mário Monjardim (Scooby-Doo e Salsicha) ganha fãs e depura um estilo singular de sincronizar labial e empolgar plateias. Cada trabalho seu mostra que a interpretação (vívida) é um eixo do ofício de nossa classe dubladora, historicamente invisibilizada.

Graças a um binômio talento perseverança Contaifer jamais fica invisível... em sua artesania.

"Estar numa bancada de dublagem significa falar para o vento que vai soprar para outras florestas e para outros tempos", diz Contaifer ao Correio da Manhã, lembrando que a perda do ator e diretor Ricardo Schnetzer, um de seus primeiros mestres, morto em fevereiro, reforçou sua percepção sobre o alcance de seu trabalho. "Quando um de nós cai, não existe reposição para aquilo que a gente assume diante do público. Por isso é preciso sempre darmos um passo a mais, um passo além."

Sua relação com a profissão ganhou contornos quase espirituais. Contaifer costuma definir a interpretação vocal como um "estado mediúnico", expressão que utiliza para explicar a entrega absoluta exigida por personagens tão diferentes entre si. "Já manifestei diversas formas que jamais poderiam ser eu. Não sei de onde conseguia ser humano daquela maneira. Alguém mostrou a direção primeiro. A dublagem representa absolutamente tudo para mim. É resistência."

Muita estrela hollywoodiana ficou associada, no imaginário pop, ao gogó de dubladoras/es, como, por exemplo, (o hoje aposentado) Bruce Willis passou décadas conectado ao melífluo falar de Newton DaMatta, titã dos estúdios Herbert Richers (e outros), morto há duas décadas. É impossível dissociar Demi Moore de Monica Rossi e Eddie Murphy de Mario Jorge, da mesma forma como ninguém jamais verá um Liam Neeson mais devastador do que aquele dublado por Armando Tiraboschi. Como todos esses casos supracitados, Holland abrasileirou-se em Wirley Contaifer. Não por acaso, seu empenho encanta seus colegas de bancada.

"Wirley é um apaixonado e essa paixão se reflete na sua atuação como dublador e também como diretor de dublagem", explica Alexandre Moreno, que dubla o Hulk em "Homem-Aranha: Um Novo Dia". "Num mundo cada vez mais engessado, ele traz cores vivas, humanidade".

Dublador de Maguire em quatro longas do Aranha, Manolo Rey também aplaude Contaifer, definindo-o como "um jovem ator intenso, determinado, em busca de novos desafios sempre". "De uma voz representativa, ele luta por todos e paga seus boletos com trabalho suado, como um verdadeiro Cabeça de Teia", brinca Manolo, evocando o apelido de Parker nas HQs.

Onipresente em nossas TVs desde o fim da década de 1970, Mario Jorge, que além de Eddie Murphy dubla sempre John Travolta, além de ter sido a voz do maguinho Gorpo, de "He-Man", conta: "Conheço o Wirley desde muito novo. É um garoto muito esforçado e bom dublador. Merece tudo que está acontecendo com ele".

A estreia de "Homem-Aranha: Um Novo Dia", na última quarta-feira, marca uma evolução na carreira de Holland e na trajetória de Peter Parker nos cinemas, onde o vigilante mascarado tem sido celebridade desde 2002. Tudo indica que pode virar o maior fenômeno de bilheteria de 2026, quando o pódio de arrecadação em venda de ingresso está com "Toy Story 5", já na raia do bilhão (de dólares) em faturamento. Evolui também a dramaturgia da Marvel no audiovisual.

"O filme 'Um Novo Dia' coloca um Peter da escola em estado de faculdade. Ele se gradua como herói e como ser humano, elevado pela dor", explica Contaifer, avaliando que o longa conclui uma formação iniciada há dez anos. "É como se finalmente acessássemos aquele filme de 2002 (com Tobey Maguire de Parker) de novo, entendendo que, para este Peter atual, precisávamos acompanhar um tempo maior. Vimos o menino crescer. Agora, crescido está. "O Homem-Aranha só é o Homem-Aranha porque ele é Peter Parker. É uma grande crônica sobre a vida exaustiva de quem não desiste."

Na era dos algoritmos e da inteligência artificial, quando a voz humana passou a ser objeto de disputas tecnológicas e jurídicas, artistas como Contaifer lembram que dublagem é memória.