Correio da Manhã
Cinema

A teia da Marvel se renova

Depois de uma fase de insucessos comerciais, a grife de maior rentabilidade no cinema do século XXI usa a volta do Homem-Aranha como aríete para renovar um legado singular

A teia da Marvel se renova
Escalador de paredes da Marvel, o Homem-Aranha pode sustentaras bilheterias do ano Crédito: Divulgação

Depois de ter seu prazo de validade (para lucrar) suspenso, com fracassos como "Thor: Amor e Trovão" (2022) e "Aquaman2: O Reino Perdido" (2023), o reinado dos super-heróis não apenas nas bilheterias, como também no imaginário do pop como um todo, ganha uma injeção de ânimo - e de adrenalina - com a chegada de "Homem-Aranha: Um Novo Dia". A estreia do filme em que Peter Parker (Tom Holland) encara o Escorpião, os ninjas do clã Tentáculo e o Hulk (Mark Ruffalo), ao lado do Justiceiro (de Jon Bernthal) reforça a capacidade da Marvel de se reinventar na tela grande. Os anúncios feitos pelo estúdio em San Diego, pelo estúdio ligado à editora de Stan Lee (e à Disney), envolvem uma série de projetos de peso, como o Motoqueiro Fantasma com Ryan Gosling e um novo Pantera Negra. Em dezembro, Robert Downey Jr. fará essa panela ferver como o Doutor Destino no novo "Vingadores".

Houve um tempo em que só a editora rival, a DC do Superman e do Batman, fazia bonito em circuito. No fim da década de 1990, antes da criação do Universo Cinematográfico Marvel (MCU) nas telonas, personagens do repertório marvete de quadrinhos já impulsionavam sucessos que mudaram a relação entre os balõezinhos e Hollywood. Alguns redefiniram o filão, outros provaram que adaptações de HQs podiam ser tratadas como grande cinema, enquanto alguns estabeleceram novos paradigmas comerciais. A seguir, o Correio fez uma seleção qualitativa dos dez títulos mais importantes dessa trajetória da Marvel em circuito.

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Blade, o Caçador de Vampiros (1998) | Foto: Divulgação

"Blade, o Caçador de Vampiros" (1998): Dez anos antes de o MCU existir, esse thriller com eixo sobrenatural vampírico mostrou que um personagem da Marvel podia render um blockbuster adulto, violento e estilizado. Wesley Snipes transformou o inimigo n° 1 do Drácula em um ícone pop. Seu êxito abriu caminho para que os grandes estúdios voltassem a apostar nos heróis da editora, tornando-se a pedra fundamental da era moderna das versões de HQ. Sua receita arranhou US$ 131 milhões.

 

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Vingadores: Utimato (2019) | Foto: Divulgação

"Vingadores: Ultimato" (2019): Poucos filmes sintetizam tão bem uma década de planejamento quanto "Vingadores: Ultimato", que faturou US$ 2,7 bilhões. É a segunda maior bilheteria da História, atrás apenas de "Avatar" (2009). A produção reuniu dezenas de vigilantes em uma narrativa estelar de viagem no tempo capaz de equilibrar espetáculo, emoção e encerramentos satisfatórios para personagens históricos como Homem de Ferro e Capitão América. O Thanos de Josh Brolin, dublado aqui por Leonardo José, virou um Darth Vader pós-moderno, capaz de provocar genocídios num estalar de dedos.

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O Homem-Aranha 2 (2004) | Foto: Sonny Pictures

"Homem-Aranha 2" (2004): Vindo do terror, com "Evil Dead" (1981), Sam Raimi alcançou um raro equilíbrio entre ação, humor e drama em seu regresso as revisitinhas de Steve Ditko e Stan Lee. A interpretação de Tobey Maguire deu profundidade às dificuldades de Peter Parker, enquanto o Doutor Octopus de Alfred Molina entrou para a galeria dos grandes vilões do cinema, num misto de vulnerabilidade demasiadamente humana e loucura. Para muitos críticos, continua sendo a melhor adaptação do Cabeça de Teia para as telas e um modelo de narrativa que permanece influente duas décadas depois. Sua dublagem, com Roberto Macedo e Manolo Rey, é uma aula. Arrecadou US$ 788 milhões.

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X-Men 2 (2003) | Foto: Twentieth Century Fox Film Corporation

"X-Men 2" (2003): É o filé mignon da franquia X. O hoje proscrito realizador Bryan Singer, sumido desde "Bohemian Rhapsody" (2018), ampliou a escala humanista (e antirracista) da franquia sem abandonar temas como preconceito, intolerância e identidade, aproximando os mutantes das grandes questões sociais. A invasão à Mansão Xavier e a sequência inicial de Noturno na Casa Branca permanecem entre as cenas mais marcantes do gênero, com direito ao ataque de fúria do Wolverine de Hugh Jackman. Sua renda beirou US$ 407 milhões.

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Logan (2017) | Foto: Twentieth Century Fox Film Corporation

"Logan" (2017): Poucas despedidas foram tão impactantes quanto o adeus de Hugh Jackman ao carcaju da Marvel, neste thriller crepuscular que fechou a Berlinale de 2017. Inspirado livremente na HQ "Velho Logan", de Mark Millar, o longa abandonou o tom convencional das aventuras de super-heróis para construir um faroeste melancólico sobre envelhecimento, perda e legado. A interpretação de Jackman, aliada à direção sensível de James Mangold, fez do filme uma referência artística para adaptações de quadrinhos voltadas ao público adulto. Concorreu ao Oscar de Roteiro Adaptado e extraiu do dublador de Wolvie, Isaac Bardavid, a atuação mais tocante de sua carreira. Contabilizou US$ 619 milhões na venda de ingressos.

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Homem-Aranha no Aranhaverso (2018) | Foto: Divulgação

"Homem-Aranha no Aranhaverso" (2018): Esta lisérgica imersão animada no conceito de dimensões paralelas revolucionou a linguagem visual do cinema ao combinar técnicas digitais com a estética dos quadrinhos impressos. Além de apresentar Miles Morales (um rapaz negro de origem latina com poderes similares ao de Peter Parker) ao público cinéfila, o filme mostrou que animações de super-heróis podiam ser ousadas formalmente, misturando linguagens e estéticas. O reconhecimento veio com o Oscar, numa vitória que rompeu o domínio quase absoluto da Pixar e da Dreamworks na categoria. Levou para os cofres da Marvel US$ 394 milhões.

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Hulk (2003) | Foto: Universal

"Hulk" (2003): Dividindo opiniões desde a estreia, a versão de Ang Lee para o Golias Verde revelou-se uma obra muito à frente de seu tempo, sobretudo em sua estilização gráfica na direção de arte, similar às HQs de Jack Kirby. Em vez de privilegiar apenas a ação, o diretor transformou Bruce Banner (Eric Bana) em protagonista de um drama psicológico sobre traumas familiares, identidade e repressão emocional, tendo o próprio pai - e que pai soturno era Nick Nolte - em seu ferrabrás. A montagem inspirada na linguagem dos quadrinhos e a ambição autoral fazem de "Hulk" uma das experiências mais singulares já produzidas com personagens da Marvel. Custou alto (US$ 137 milhões) e faturou pouco (US$ 245 milhões), mas virou cult.

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O Homem de Ferro (2008) | Foto: Divulgação

"Homem de Ferro" (2008): O nascimento oficial do MCU começou com uma aposta considerada arriscada. Recém-saído de sua reabilitação da dependência química, Robert Downey Jr. redefiniu Tony Stark e deu ao personagem um carisma que sustentaria toda a franquia pelos onze anos seguintes. A cena pós-créditos com Nick Fury (Samuel L. Jackson) inaugurou uma nova forma de construir universos compartilhados, influência que seria seguida por praticamente todos os grandes estúdios nas décadas seguintes. Sua arrecadação chegou a US$ 585,7 milhões. Marco Ribeiro dubla Downey Jr. com esplendor.

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Deadpool e Wolveryne (2024) | Foto: Divulgação

"Deadpool & Wolverine" (2024): A união entre Ryan Reynolds e Hugh Jackman (num regresso um tanto quanto inevitável à figura de Logan) simbolizou o encontro definitivo entre o antigo universo da Fox e o MCU da Disney. Repleto de humor metalinguístico, referências à história da Marvel no cinema e participações especiais, sobretudo a de Wesley Snipes, o longa tornou-se um fenômeno mundial de bilheteria. Seu sucesso demonstrou que o gênero ainda pode se reinventar ao celebrar o próprio legado sem abrir mão da irreverência. Somou cerca de US$ 1,3 bilhão vendendo tíquetes.

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Quarteto Fantástico: Primeiros Passos (2025) | Foto: Marvel Studios

"Quarteto Fantástico: Primeiros Passos" (2025): Havia um medo paralisante entre os nerds de que a patrulha woke fosse descaracterizar a Família Fantástica, que inaugurou a Marvel nos quadrinhos, em 1961. Esse pavor caiu por terra em minutos. Mais do que apresentar uma abordagem à moda Norman Rockwell (artista gráfico que simbolizou o American Way Of Life), do super grupo, esta "Sessão da Tarde" comovente representa o início de uma etapa decisiva para o MCU. Ao apostar em uma estética retrofuturista, com personagens guiados pela ciência, o longa recontextualiza a relevância de Reed Richards, Sue Storm, Johnny Storm e Ben Grimm no centro do universo compartilhado. Pedro Pascal fez um Reed com ares de Rock Hudson. A Sue de Vanessa Kirby é empoderadamente audaciosa. Seu impacto será medido nos próximos anos, mas sua importância histórica já está assegurada por recolocar os criadores da Era Marvel no protagonismo cinematográfico. Faturou US$ 521,8 milhões.

 

Um passado ‘marvete’ desanimador para Hollywood

Um passado ‘marvete’ desanimador para Hollywood
Antes dos longas com os heróis da Marvel, a série televisiva 'Hulk' fez de Lou Ferrigno um ícone nos anos 1970 Crédito: CBS

Antes de “Blade” chegar aos cinemas, em 1998, num momento de apogeu de Wesley Snipes, a Marvel vivia uma espécie de maldição nas telas. Seus personagens eram gigantes nas bancas de jornal, mas pareciam incapazes de encontrar uma tradução convincente para o cinema. Filmes como “Howard, o Super-Herói” (1986), produzido por George Lucas, transformaram-se em fracassos de crítica e bilheteria, enquanto projetos envolvendo o Justiceiro (com Dolph Lundgren) e o Quarteto Fantástico sofriam com orçamentos reduzidos e com distribuição problemática. Enquanto Superman e Batman já haviam se consolidado como fenômenos de bilheteria nas mãos da DC, filmados por Richard Donner e Tim Burton, os vigilantes criados por Stan Lee, Jack Kirby, Steve Ditko e tantos outros acumulavam projetos fracassados, produções de baixo orçamento e adaptações que raramente escapavam do status de curiosidade.

Paradoxalmente, era na televisão que a editora encontrava seu maior espaço. Entre 1978 e 1982, a série “O Incrível Hulk”, estrelada por Bill Bixby e Lou Ferrigno, tornou-se um sucesso mundial ao transformar Bruce Banner em um personagem trágico, mais próximo de um drama humano do que de uma aventura de super-heróis. A trilha sonora apostava numa musiquinha de despedida de rasgar o coração. Ferrigno, pintado de verde e praticamente sem diálogos, virou um ícone da cultura pop, provando que havia público para os personagens da Marvel — desde que eles fossem tratados com alguma seriedade.

Pouco antes, entre 1977 e 1979, Nicholas Hammond vestiu o uniforme de Peter Parker na série “O Espetacular Homem-Aranha”. Limitada pelos recursos técnicos da época, a produção recorria a cabos visíveis, efeitos modestos e sequências repetidas de escaladas em edifícios, mas conquistou uma geração inteira de espectadores e ajudou a manter vivo o personagem fora das HQs.

A animação também refletia as dificuldades da empresa. Os desenhos produzidos nos anos 1960, que apresentavam heróis como Homem-Aranha, Hulk, Capitão América, Homem de Ferro, Thor e o Príncipe Submarino Namor, ficaram conhecidos por uma técnica de animar (produzindo movimento) extremamente limitada. Em vez de gestos fluidos, essas séries utilizavam recortes e ampliações das próprias artes dos quadrinhos, com braços, pernas e bocas movimentando-se separadamente sobre imagens praticamente estáticas. O resultado transmitia uma sensação de precariedade que acabou se tornando uma marca involuntária daquela fase. Era um desenho “desanimado”, mas inesquecível.